A primeira coisa a fazer ao acordar, era sair de debaixo das cobertas sorrateiramente por volta das sete da manhã, às vezes ainda mais cedo, como qualquer criança faz aos domingos. Então eu deixava o quarto, com a casa ainda na penumbra, protegida da luz pelas venezianas. Os barulhos lá fora eram diferentes dos dias habituais. Menos carros de gente que ia ao trabalho e mais passos de pessoas que iam para a missa. Por trás da porta fechada, no quarto de hóspedes, estava ela. A minha bisavó.

Eu abria uma fresta cuidadoso como se não quisesse acordá-la e como se não soubesse que ela já estava mesmo acordada há muito tempo. Entrava e então ela erguia uma ponta dos cobertores para que eu me deitasse com ela, a salvo do frio a que me expusera para ali chegar.

Uma das lembranças que tenho é que foi em ocasiões como essa que descobri que velhos têm cheiro diferente. E eu não me importava com isso. Às vezes acho que tenho um velho dentro de mim, desde criança, que entrou pelo nariz e não mais saiu.

Mas não lembro quando começou esse hábito, o de dividir a cama com ela nas manhãs de domingo. Sempre que ela nos visitava eu fazia aquilo. A cama não era melhor que a minha ou mais quente. Nem a proximidade do corpo, ainda que agradável, era tão boa como o dos corpos da mãe e do pai. Um corpo próximo sempre é um corpo próximo e é bom, mas minhas intenções eram claramente outras nessas vezes.

É que naquelas ocasiões ela me contava histórias. Histórias reais que tinha vivido. E, de olhos fechados naquele casulo da coberta de penas e rodeado por paredes de madeira, enquanto ela afagava com aquelas mãos enrugadas os meus cabelos, eu imaginava índios, natais modestos e especiais, viagens que duravam dias no lombo de burricos, partos difíceis, bichos peçonhentos, fazendeiros ricos e rios de águas perigosas onde desapareciam crianças, crianças como eu e que ela tinha conhecido.

Uma história que me impressionou muito foi a de um homem, que colocou o pé esquerdo no estribo - fez isso ainda vivo, pois não havia outra forma de fazê-lo - e, ao jogar os quadris por cima da cela, morreu no exato instante em que o pé direito encaixou-se do outro lado.

O cavalo partiu e só na outra cidade, quando chegou, deram com o fato. Uma artéria do coração arrebentou naquela hora da partida e, na síncope imediata, o defunto permaneceu aprumado na montaria.

Desde que eu soube desse acontecimento, a expressão coração partido ganhou um importante significado para mim.

Um coração se parte em dois quando quer ficar exatamente onde está, mas não há opção senão ir embora ou desistir do que se quer. Abrir mão seja da mulher amada, seja dos ideais da juventude, seja das crenças mais felizes. E partir. Ele então racha ao meio e, assim, nessas condições, sem poder funcionar direito, o viajante chega ao seu destino, seja lá qual for, já sem vida. O forasteiro fala com as outras pessoas e pergunta pela rua onde vai morar. É inevitável seguir em frente e encontrar sua nova morada. Ele anda entre os vivos, mas está morto. E já estava no momento em que, sem um aceno de adeus, deu o primeiro passo.

Ali, a olhar o teto daquele quarto velho que, a essa altura já se iluminava com o dia que o invadia pelas frestas, ao lado de um corpo antigo, enrugado e mirrado como uma árvore, uma criança descobria como seriam seus primeiros amores.

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