Quando eu for velho, bem velho, serei caduco e ranzinza de propósito, só para me divertir com os mais jovens, sempre tão petulantes. Como nos filmes, só vou me revelar para um neto, ou um amigo muito novo. Novo o suficiente para que só ele, além dos velhos bem velhos com quem convivo, saiba a verdade e, assim, ninguém acredite no que ele diz: que eu sou muito legal.Muito embora eu ser caduco e ranzinza, a essa altura, não seja exatamente um fingimento. Quem se importa?

Vou contar a esse garoto todos os segredos da vida. Mas tudo errado, para que, então, aprenda sozinho.

Porém, pretendo lhe dar algumas dicas verdadeiras. Essas sobre as coisas realmente importantes. Tais como evitar andar com pares trocados de meias ou como não pegar ônibus errados. Ou pelo menos, caso essas tragédias cotidianas aconteçam, quero que ele saiba como tirar proveito disso, lançando uma nova moda ou aproveitando o passeio por paragens nunca dantes navegadas.

Daremos longas caminhadas. Eu esquecerei pra onde estava indo e ele nem saberá se, afinal, eu queria chegar a algum lugar. Na volta comprarei um doce para ele e outro para mim. Nas esquinas, acharemos graça em ver os vira-latas trepando.

Eventualmente, irei ver a mulher amada. E vou pedir para que ele me ajeite a gravata caso os dedos não ajudem mais. Pedirei também que ele roube uma flor no vizinho, pois isso é coisa de moleque. Não pega bem um senhor de terno fazer traquinagens. Nas horas de safadeza, é preciso despir os trajes de gala.

Na estação em que houver vento, solenemente ensinarei a ele a coisa mais importante que um homem pode aprender. Fazer pipas é sagrado. Pois - ainda que com os pés no chão - , os gravetos, o papel celofane e o barbante são uma extensão da cabeça da criança que, vez ou outra, sonha furar nuvens.

Quando o vento cessar, a minha coleção de bolinhas de gude - que não mais tenho - será dele. E as figurinhas com as caras dos jogadores de futebol que vinham no chiclete, para jogar bafo. Dele também. E talvez ele nem saiba quem era esse tal de Zico que era meu herói.

Eu, por minha vez, que nunca tive um autorama, poderei me divertir com seus brinquedos que nem imagino quais serão, pois tecnologia é o bicho.

No dia em que ele chegar com lágrimas nos olhos, no primeiro amor que se foi, ou que nem chegou, vou lhe dizer aquelas coisas que não são exatamente conselhos mas que todo amigo diz nessas horas. Pois sei: nem sempre há um amigo por perto para dizê-las. Falarei para que não esqueça, certo de que ele esquecerá já na seguinte paixão.

Mas é assim mesmo.

E, um dia, quando minhas pernas não mais o puderem acompanhar - ou porque estão mais curtas do que costumavam ser ou porque as dele tornaram-se mais ligeiras do que eram -, verei meu amiguinho sumir na distância.

Fecharei os olhos e pensarei - sozinho, mas feliz por ter vivido uma boa vida, cheia de coisas gostosas como café com leite e bolinho de chuva -, que ali, de alguma forma, quem vai sou eu. Muito, muito mais leve.

Mais leve até que a brisa que, então, vai acariciar a barba grisalha e descuidada de um rosto sorridente.

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