Ela parte como um anjo de asas negras que, mesmo sob a luz doce da lua cheia, cintilam. Os braços estão cobertos com as marcas que fez com alguma lâmina muito afiada para contar os dias. Um bilhão de pequenos traços, cicatrizes paralelas. A contabilidade de seu aprisionamento.Certas marcas, porém, vão para além da pele, para além da carne ou ossos e se escondem nas partes mais obscuras. É certo que ela as tem e ignoro quais sejam em sua totalidade. É certo que as tenho da mesma forma. Não sei como surgiram, mas conheço quem as revelou. Foi ela. E o que me resta agora, quando ela parte como um anjo de asas negras, é a arqueologia da ferida. Talvez encontre a mim, talvez a ela. Talvez encontre nada.

Sweet dreams are made of this
Eu poderia imaginar uma cerimônia fúnebre em que a luxúria se misturasse ao pesar. Damas de honra, envoltas por látex negro e brilhante carregariam seu corpo em um trajeto recoberto por aqueles que um dia se ajoelharam a seus pés. Que os saltos altos das botas encontrem conforto na carne macia. E que a terra lhe seja leve.

Who am I to desagree
Afinal, ela me fez ouvir Marilyn Manson com mais atenção. Mesmo que eu pretendesse, não poderia, com as mãos devidamente imobilizadas, tapar os ouvidos. No entanto, entre beijos e açoites, aquele sorriso, a trazer os sonhos da infância, com uma trilha sonora pretensamente diabólica, era tudo o que eu queria ver, era tudo o que eu queria ouvir. Por isso, ainda que eu pretendesse, não poderia fechar os olhos. Éramos crianças a brincar de jogos com os quais nem os adultos costumam se divertir. Eu era o seu brinquedo.

Sim, eu estava preso, mas era ela a encarcerada.

Everybody’s looking for something
Alguns buscam por prisão e outros, por liberdade. É lugar comum dizer que, no entanto, cada liberdade tem sua própria gaiola ou que, ao contrário, mesmo dentro das grades, é possível encontrar lugar para voar. De fato, não é novidade dizer que estamos condenados a ser livres.

Mas nos seus pensamentos ninguém entrava, apesar de ela mesma não poder fugir. E era ali que, durante as refeições, distraía-se a com coisas tais que, eu, alvo desses devaneios, não ouso revelar.

Ela, um súcubo às avessas que voltava para casa antes de escurecer e fazia eu sonhar lubricamente pela manhã, era guardada por uma poderosa cadela branca com nome de deusa egípcia.

Não havia como invadir tal fortaleza. Não a masmorra. Mas a cabeça, o lugar onde ela planava na brisa e onde eu, iludido, pensei um dia ter entrado.

Súcubo
Como conta a mitologia, da qual os católicos se apropriaram para explicar as noites mais agitadas, tal entidade visitavam os moços castos para lhes sugarem a energia sexual em sonhos.

Nunca fui casto. Mas, às vezes ela chegava como uma voz, pelo telefone. Da meia-noite às duas da manhã, fazia de meus dias as vítimas de minhas madrugadas em longas conversas. Minha energia eu cedia com prazer. Confessei tudo ou quase tudo. Ela confessou tudo ou quase tudo. Cheguei a pensar que éramos cúmplices. Cheguei a pensar que eu era a fuga, a porta de saída. Mas não. Demorou pouco para ela concluir que eu era igualmente uma prisão. Uma daquelas que havia do lado de fora da outra. Tentei provar que não era assim, mas, em um momento de hesitação, eu mesmo cheguei a duvidar disso.

Partida
Soube esses dias que ela nos deixou totalmente. Pois esquecer é como morrer para os que são esquecidos. É como matar aqueles que não mais serão lembrados.

Tento me esforçar para não me sentir magoado desde então. É difícil, pois não me dei a chance para que isso fosse diferente. Não sou perfeito. Estou longe de ser um homem bom. Por isso esse réquiem.

De minha parte, vou tentar imaginar que ela vai embora como esse anjo de asas negras. E não levada por alguém que talvez não a conheça direito, talvez guardião de uma prisão ainda mais estreita que aquela de onde a tirou, como se especializam aqueles que criam gado. E que seus guardiões não eram simplesmente seus pais, mas um poder misterioso.

E que, enfim, eu não era esse simples mortal, morador de uma cidade no Sul do Brasil, porém um demônio que queimaria eternamente no fogo de sua ausência.

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