Ela sentou-se e olhou para o seu trabalho, a grande e pesada mala verde, com todas aquelas roupas em um arranjo severamente arquitetado, de acordo com seu fino senso de organização. Dali a horas, quando chegasse a Santiago do Chile, onde passaria os próximos seis meses, ela seria desfeita, a ordem, e se reencontraria em gavetas. Iria se instalar o mais rápido possível. Na manhã seguinte estaria no avião e em no máximo uma semana alugaria um apartamento.

Brigava com aquela sensação de esquecer algo, que antecede as viagens sempre posterior ao fechar dos zíperes, quando o telefone tocou:

- Você vai mesmo? - disse ele.

- Sim. Como não?

- Tem razão. Como poderia não ir? Essa pergunta não fez o menor sentido.

- Até fez.

Ela sabia. Ela sabia o que se passava. Ou o que não se passou e agora entrava no reino paralelo das incertezas. Talvez aquilo tudo, coisas que nem chegaram a ser uma expectativa, oculto naquela pergunta tola - você vai mesmo? - jamais viesse um dia a acontecer. Muito provável que não.

- É que eu precisava falar algo - disse ele depois de uma pequena pausa, um pequeno silêncio. Não como os silêncios dos que hesitam, mas como aquele antes de um atleta iniciar sua corrida para transpor o obstáculo, como o trapezista antes de se projetar da plataforma e dar um salto mortal. Talvez ele tivesse até inspirado o ar com força antes de soltar as palavras.

- Não, não é preciso dizer. Eu sei.

Ela sabia.

Conheceram-se quando ela fez um trabalho temporário na empresa dele. Apenas um mês. Ele explicava o funcionamento dos setores e como a área em que ele trabalhava se relacionava com as outras. Detalhes técnicos.

É difícil saber como certas coisas úmidas transpiram pelos poros secos dos detalhes técnicos. Pranchetas e teclados de computador têm pouco de orgânico. Gráficos não quantificam aquilo de que, aqui, se quer falar. O desenho que se fez entre os dois não cabe no papel, não tem tinta. Um desenho feito de cortes finos em membros que não há. Por dentro.

Nada menos emocional que um clipe que une o relatório de ontem ao de hoje. Mas os trinta clipes que se seguiram bem poderiam ter sido testemunhas de uma pequena história, feita como tantas outras dessas histórias são feitas: com os gestos que ficaram presos dentro do corpo e as palavras veladas. O clipe uniria então a palavra não dita de ontem com o gesto não articulado de hoje. Começo, meio e fim, furtivos como olhares solitários, mas evidentes. A língua que umedece o lábio. A mão que passeia pela própria perna. Um lóbulo de orelha. Um tendão que se evidencia no movimento do pescoço, como corda de violino, tangível, sonora. Um certo jeito de abaixar as pálpebras ao ler um documento. Cílios.

Mas evidentes, pois o desejo solidifica o ar em volta..

- Ainda assim, é preciso que eu diga. Pelo menos agora.

- O fato de eu saber não significa que não seja importante dizer. Eu também tenho coisas a dizer - respondeu ela.

Ele namorava quando se conheceram.

- Quando nos conhecemos, eu namorava.

- Eu sei disso. Mas não é isso que você quer falar e que eu quero ouvir…

Pesquisas dizem que uma pessoa passa três quartos de sua vida a se justificar. O restante do tempo passa a cometer atos que contradizem essas mesmas justificativas. De fato, namorava na época. Apaixonado, nem passava por sua cabeça cometer qualquer ato que deixasse insegura a outra, que volta e meia perguntava se ele estava envolvido com alguém.

Quando ela, lá pela metade do mês, no meio do expediente, convidou-o: “e se fôssemos ao cinema?”, ele respondeu: “sim”. Não. Isso foi o que ele gostaria de ter respondido. Respondeu: “vamos deixar para quando seu período aqui terminar”. Achou que tinha ficado claro que as questões eram éticas, para evitar envolvimentos no ambiente de trabalho, mas as questões eram outras, as mesmas que fizeram com que ao tocar no nome dela em uma conversa com sua namorada deixasse escapar aquelas três sílabas em um tom perceptivelmente diferente. As mesmas questões que fizeram com que ele se calasse quando sua namorada, com ciúmes, disse que ela não era tão bonita pessoalmente, quando se encontraram por acaso em um parque da cidade. Disse como se aquilo fosse um alívio. Mas ela era, ela é linda, pensou, pensara, pensa ele. E doce.

- Não vá. Amo você.

- Tenho que ir. Já está tudo certo.

- …

- Mas… - disse ela depois de uma pequena pausa, um pequeno silêncio. Não como os silêncios dos que hesitam, mas como aquele antes de um atleta iniciar sua corrida para transpor sobre o obstáculo, como o trapezista antes de se projetar da plataforma e dar um salto mortal. Talvez ela tivesse até inspirado o ar com força antes de soltar as palavras - eu também te amo.

- Não vá, então - disse ele na pobreza de recursos e que só quem sente essas coisas acredita como riqueza. O amor nunca tem argumentos.

- Em seis meses eu volto.

Em seis meses ele seria outro. Em seis meses ela seria outra. Em seis meses, aquilo que os dois seriam em seis meses juntos seria o que eles serão em seis meses separados. Talvez nada.

Ele já pensava em levá-la ao aeroporto, ao menos. Ele já pensava em despedir-se com um beijo, ao menos. Ele já pensava em talvez algumas lágrimas ao ver o avião partir, ao menos.

Então ela falou. Não sem antes um silêncio. Não o que precede o trapezista que deixa a plataforma para o salto mortal ou o do atleta que se prepara para o lance decisivo. Mas o dos que hesitam.

- Tem algo. Agora sou eu quem está namorando.

E, num momento de lucidez, com outro breve silêncio, sem salto mortal, sem obstáculo a ser transposto, sem hesitação, ele respondeu.

- Não importa. Seu amor, apenas como possibilidade, já me enche de riquezas.

Do outro lado da linha, a grande mala verde, sentiu-se em grande desordem e quase, sozinha, desarrumou-se.

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