Ele entrou no quarto e ainda teve tempo de vê-la, com a janela aberta, colocar o segundo pé em cima da beirada e saltar. Como usava aquelas asas nas costas, da festa a fantasia, acreditou que ela tinha voado. Isso durante uma semana, em choque e sob calmantes. Mas todos a viram caída no chão. Todos foram ao funeral. Não, ela não voou.Ver um corpo que cai de tão alto é sempre algo inacreditável. Não só porque não é uma coisa que se vê todos dias ou porque é algo terrível e assustador. É que é difícil crer, pois a velocidade que ele desenvolve faz perceber que um ser humano não é tão leve quanto parece. Não somos leves. Na queda, um corpo - repleto de todos os pequenos milagres biológicos e emocionais - se iguala às coisas mais patéticas, como um saco de batatas.

Ele a viu sair pela janela do décimo-sexto andar. Ele conhecia as leis da física. Mas, assim, acima de tudo ele, não compreendia que algo tão suave, de repente, pudesse ganhar toneladas. Era portanto mais fácil acreditar que ela era mesmo um anjo. Não por ser uma alternativa sentimentalóide, digna do discurso mais piegas. Mas sim porque, naquela hora, era a única alternativa.

Depois de algum tempo, ele entendeu. Não que não houvesse entendido antes. Apenas rendeu-se à realidade e à lógica. Foi a diferença entre a sanidade e a loucura. Poderia permanecer louco e feliz ou, nem tanto, louco e conformado. Ou, o que preferiu, saudável.

Não lembrava quem devolvera as asas. Estavam ali sobre a cômoda do quarto. Não avaliou se aquilo era de bom ou mau gosto, se foram deixadas ali por bondade ou refinada maldade. A verdade é que elas o agradaram ali onde estavam. Engraçado. Não tinham se danificado depois daquilo. Estavam inteiras.

Tocou de leve aquelas penas. Eram penas de verdade. Um dia estiveram em um pássaro e talvez o pássaro tenha as tenha utilizado para voar. Teriam viajado por lugares muito distantes? Seriam pássaros especialmente criados para fazer esse tipo de alegoria? Tomara não fossem penas de galinha.

Deixou-as ali. Todo dia, quando acordava, quando abria os olhos, elas estavam onde foram deixadas. O sol refletia na brancura e ficava até difícil de observá-las enquanto devolviam aquela luminosidade do novo dia. Ele deixava-se ficar até que a vista se acostumasse. Então levantava e começava o seu cotidiano. Seguia em frente.

Passaram-se semanas até que, em uma certa noite, ele tocasse novamente as asas. Elas permaneciam macias e caladas. Percorreu-as em toda a extensão com as mãos como quem acaricia o corpo de uma mulher. Elas, tão brancas como eram antes de tudo.

E, de repente, viu-se perguntando como algo que parecia apenas uma bobagem, mais um item na loja de fantasias, podia ser tão importante agora. Como se fosse um objeto de culto. Ele não se sentia mais capaz de erguê-las dali pois tinham a densidade da mão de um deus. Aquelas asas eram um peso em suas costas.

Foi quando, nessas reflexões, entrou em uma espécie de transe e arrancou uma das penugens. Primeiro agarrou-a entre o polegar e o indicador. Fez uma pequena tração que muito sutilmente, muito devagar, aumentou. Não sentiu nem medo nem raiva nem nada. Não sentiu coisa alguma. E depois de um estalo inaudível e seco de algo que arrebenta, ali estava ela. Pequena, leve, alva e em frente aos seus olhos. Em sua raiz, não sangue, mas cola barata. Podia ver os detalhes de tudo aquilo. Segurou-a pela base e a fez rodar entre os dedos. Então caiu em si e sentiu-se um profanador.

Dormiu na sala naquela noite.

E dormiu na sala muitas outras noites. Evitava o quarto até mesmo para trocar de roupa. Ia ali o mínimo. Racionalmente ele sabia que suas atitudes não faziam o menor sentido. Mas emocionalmente não conseguia se controlar. Sentia-se doente e talvez estivesse mesmo.

Foi no carro, quando mexia em um de seus bolsos, que descobriu o que precisava fazer para se livrar daquilo. Remexia nos bolsos quando encontrou aquela penugem, a que tinha arrancado. Não era nada. Um nada desgarrado de nada. Para que algo que é tudo se torne nada, e às vezes é preciso que um tudo se torne um nada, é sempre necessária uma atitude, uma guinada aleatórea. Certos navios precisam ser queimados quando chegam ao porto para inibir a esperança do retorno.

Do escritório mesmo, telefonou e acertou os detalhes com quem lhe ajudaria. Seria no dia seguinte.

Ela chegou às oito horas, como combinado. Ele serviu um suco de caixinha. Não tinha bebidas. Além do mais ele queria estar muito sóbrio para aquilo. Queria que ela também estivesse. Embora ele não fizesse questão que ela entendesse tudo o que estava em jogo ali. Não era necessário.

Conversaram um pouco e acertaram os últimos detalhes.

Ela disse que precisava se vestir adequadamente. Ele falou-lhe que poderia fazê-lo ali na sala, pois ele também pretendia mudar de roupa e, por isso, iria para o quarto. Ela disse que tudo bem.

Estava feito e não havia retorno. O inevitável costuma vestir as pessoas de coragem. Postou-se diante das asas e despiu-se. Levantou-as e colocou-as às costas. Sentia-se como se estivesse fazendo algo errado. Estranhamente essa sensação o animou.

Esperou mais um pouco até que ela o chamasse. Admirava-se no espelho. Tinha um corpo bonito, pensou.

Na sala, encontrou-a. Uma visão alegórica do mal incorporado na beleza. Uma faixa luminosa projetada pelas luzes da cidade se deslocava irregularmente nos cabelos escuros e lisos. Mais tarde lembrou-se bem da postura de suas pernas naquele instante. Uma pouco a frente da outra. A de trás ligeiramente dobrada. Era como se estivesse pronta para avançar com aquelas botas negras e brilhantes. Estava ainda com um o mesmo soutien que ele entrevira pelo decote quando ela chegara. Rendas. E preso à cintura e aos quadris, como combinado, ela usava um pênis de borracha. Aquela mulher, podia vê-lo como mais um cliente. Ele a via como a salvação, um poema sombrio, um paradoxo ereto no deserto.

Com um sinal da sua cabeça, sem palavras, ela fez com que ele se aproximasse. Com outro sinal, dessa vez feito com o indicador, o pôs de joelhos. Na penumbra as asas resplandeciam.

No dia seguinte, já sozinho, ele olhou as olhou. Eram apenas asas e era apenas um domingo como qualquer outro. Levou-as até o banheiro, jogou um pouco de álcool, abriu a janela para não ter problemas com o cheiro e jogou um fósforo aceso. Depois de alguns minutos a observar a fogueira, limpou as cinzas e saiu para passear sob o sol.

Era um homem a andar pela calçada. Enxofre e fogo poderiam cair dos céus, como em Sodoma e Gomorra, mas ele apenas passeava e cumprimentava algumas pessoas. Não devia nada a ninguém e poderia fazer o que bem entendesse nesse mundo. Não havia peso suficiente que pudesse abaixar os seus ombros agora. Sentia-se como se voasse.

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