Às mulheres que matam

A sua vida é a cena de um crime, Miss I Killed a Thousand Hearts. Você, nas horas vagas, finge ter um torso sangrento na sala de estar. Tudo perfeito, sem os vestígios da mão assassina. Nenhum objeto fora do lugar, o sofá frio - ninguém sentou ali - e o dia acaba silencioso, sem telefonema.

E, se alguém a vir de fora, pela janela, verá apenas o seu olhar doce, garota, enquanto toma o chá após colocar ordem na casa, perdido como um farol estático, que não elucida as rochas. Antes faz cem barcos se lançarem aos arrecifes.

Uma culpa a mais, uma a menos. Não faz diferença para quem sonha deitada sobre a lâmina de uma espada. O entardecer tem aço nas cores que, pouco a pouco, viram noite. E a noite, para você, é dura como tal. Pois as injúrias, as que carrega, são como fantasmas. Não as vê, mas estão ali. A vigiar você, ao seu redor, de cima para baixo, com um julgamento de densidade metálica.

Você procura algo. Como um predador. Mas não sabe o que é. Em certo momento, supõe saber. Agarra-se a esse algo e, ao descobrir-se enganada, depois de ter sugado e doado, em uma troca insana, larga a presa. Pois, não, não era isso o que buscava. Piedade não existe. A piedade é um rato fedorento que começa a roer pelas tripas. Como a esperança.

Porém, nem bem chega a noite, nem bem chega a chuva, o telefone toca. O telefone toca e você está na metade do chá. Um destes de sabor sofisticado.

- Alô?

A voz do outro lado, aflita, quer respostas que você não tem. Não há respostas.

- Não. Não sei. Eu já expliquei. Você não entende. Não. Isso não existe. Nunca ouvi falar. Não.

Negar sempre. Negar tudo. Até a si mesma negar se preciso. Quem não sabe o que quer, não sabe nada. E, se não sabe, posicionar-se a respeito de qualquer coisa inclui possibilidades de se assumir o que não se fez. Ou pior. Assumir o que se fez. Assumir, sem saber, inclui até mesmo as impossibilidades. E as impossibilidades, o legado do desejado e não satisfeito.

- Não. Assim é pior. Não, eu já disse.

Negar sempre. Uma lágrima pode sair espremida entre a necessidade de esconder os sentimentos e a premência que eles têm em ser paridos. No máximo.

Pode ser que, um dia, você sucumba ao peso dos corpos que arrasta como a um cordão. E seus passos, assim, fiquem mais lentos, o sorriso calculado que leva em seu rosto menos branco, os seus braços menos viçosos, sem forças com que agarrar-se ao que quer ou acredita querer. E aí seria bom que, a essa altura, soubesse mais de seus anseios. Pois quem sabe não persegue nem caça. Deixa vir.

Talvez um dia você descubra que os desejos, os verdadeiros, pousam no indicador como o pássaro que faz amanhecer. E, sem esforço, ouve-se a canção da vida e sente-se vivo na melodia.

Porém, se por outro lado não tiver feito essas simples descobertas, pode ser que o aprendizado venha pela dor. Pois a dor faz parte do mundo. E você a conhece no outro. Causá-la por ignorá-la não a deixa imune de seu revés.

Insone, deitada a ler palavras no teto em línguas desconhecidas, verá a silhueta que se aproxima com o punhal. E, finalmente, sem saber mais o que fazer, deixará que esse espírito vingativo lhe arranque do meio do peito a flor seca e mal cultivada. Ele, que faz isso de um só golpe, sou eu, é o outro e o outro. Somos nós, todos os traídos por sua alma volúvel e pelos próprios julgamentos ingênuos.

Despencará a lâmina sobre a carne com o peso do que poderia ter sido mas que você não permitiu ser.

E, então, restará apenas uma coisa a ser dita.

Aqui jaz Miss I Killed a Thousand Hearts: amada, sem saber se deixar amar, e amante, fatal para os que a amaram.

Jamais será esquecida.

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