Crônicas e contos de Alessandro Martins
30 Jun 2007
Às mulheres que matam
A sua vida é a cena de um crime, Miss I Killed a Thousand Hearts. Você, nas horas vagas, finge ter um torso sangrento na sala de estar. Tudo perfeito, sem os vestígios da mão assassina. Nenhum objeto fora do lugar, o sofá frio - ninguém sentou ali - e o dia acaba silencioso, sem telefonema.
E, se alguém a vir de fora, pela janela, verá apenas o seu olhar doce, garota, enquanto toma o chá após colocar ordem na casa, perdido como um farol estático, que não elucida as rochas. Antes faz cem barcos se lançarem aos arrecifes.
Uma culpa a mais, uma a menos. Não faz diferença para quem sonha deitada sobre a lâmina de uma espada. O entardecer tem aço nas cores que, pouco a pouco, viram noite. E a noite, para você, é dura como tal. Pois as injúrias, as que carrega, são como fantasmas. Não as vê, mas estão ali. A vigiar você, ao seu redor, de cima para baixo, com um julgamento de densidade metálica.
Você procura algo. Como um predador. Mas não sabe o que é. Em certo momento, supõe saber. Agarra-se a esse algo e, ao descobrir-se enganada, depois de ter sugado e doado, em uma troca insana, larga a presa. Pois, não, não era isso o que buscava. Piedade não existe. A piedade é um rato fedorento que começa a roer pelas tripas. Como a esperança.
Porém, nem bem chega a noite, nem bem chega a chuva, o telefone toca. O telefone toca e você está na metade do chá. Um destes de sabor sofisticado.
- Alô?
A voz do outro lado, aflita, quer respostas que você não tem. Não há respostas.
- Não. Não sei. Eu já expliquei. Você não entende. Não. Isso não existe. Nunca ouvi falar. Não.
Negar sempre. Negar tudo. Até a si mesma negar se preciso. Quem não sabe o que quer, não sabe nada. E, se não sabe, posicionar-se a respeito de qualquer coisa inclui possibilidades de se assumir o que não se fez. Ou pior. Assumir o que se fez. Assumir, sem saber, inclui até mesmo as impossibilidades. E as impossibilidades, o legado do desejado e não satisfeito.
- Não. Assim é pior. Não, eu já disse.
Negar sempre. Uma lágrima pode sair espremida entre a necessidade de esconder os sentimentos e a premência que eles têm em ser paridos. No máximo.
Pode ser que, um dia, você sucumba ao peso dos corpos que arrasta como a um cordão. E seus passos, assim, fiquem mais lentos, o sorriso calculado que leva em seu rosto menos branco, os seus braços menos viçosos, sem forças com que agarrar-se ao que quer ou acredita querer. E aí seria bom que, a essa altura, soubesse mais de seus anseios. Pois quem sabe não persegue nem caça. Deixa vir.
Talvez um dia você descubra que os desejos, os verdadeiros, pousam no indicador como o pássaro que faz amanhecer. E, sem esforço, ouve-se a canção da vida e sente-se vivo na melodia.
Porém, se por outro lado não tiver feito essas simples descobertas, pode ser que o aprendizado venha pela dor. Pois a dor faz parte do mundo. E você a conhece no outro. Causá-la por ignorá-la não a deixa imune de seu revés.
Insone, deitada a ler palavras no teto em línguas desconhecidas, verá a silhueta que se aproxima com o punhal. E, finalmente, sem saber mais o que fazer, deixará que esse espírito vingativo lhe arranque do meio do peito a flor seca e mal cultivada. Ele, que faz isso de um só golpe, sou eu, é o outro e o outro. Somos nós, todos os traídos por sua alma volúvel e pelos próprios julgamentos ingênuos.
Despencará a lâmina sobre a carne com o peso do que poderia ter sido mas que você não permitiu ser.
E, então, restará apenas uma coisa a ser dita.
Aqui jaz Miss I Killed a Thousand Hearts: amada, sem saber se deixar amar, e amante, fatal para os que a amaram.
Jamais será esquecida.
2 comentários para "Penso em você, Miss I Killed a Thousand Hearts"
Nossa, essa doeu! Belo texto…
Consigo compreender a Miss I Killed a Thousand Hearts… Ou pelo menos acredito que sim.
O mundo não parece uma imensa pista de corrida, às vezes?
Resposta: Misteriosa J.
Pode ser. A gente corre, corre, mas para chegar no mesmo ponto de onde saiu. Pode ser isso… ainda assim é divertido. Gosto de sentir. Não sei se é esse o sentido que dá ao comparar a vida a uma pista de corrida….
Mas eu também entendo a Miss I Killed a Thousand Hearts. Depois que você aprende exatamente o que ela quer, fica até mais fácil desejá-la, sabendo-se até onde se pode ir. Afinal, não é por mal. Cada um dá o que tem.
Beijo,
do Alessandro.
Oi Alessandro,
Tamanha a identificação com eles!
Tudo bem?
Faz um tempão que quero te escrever…
Sou a-pai-xo-na-da pelos teus textos.
E ‘no pacote apaixonada’ entenda por tudo que a paixão faz com a gente.
Sem qualquer pretensão, (por favor!!!) me identifico com a miss, aliás com to-das. E até com o Pintinhas…É incrível. Mas os bons textos são assim mesmo. A gente pensa (sonha?) que foram escritos para e sobre a gente.
Quanta sensibilidade.
Meus parabéns.
Abraços.
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