Crônicas e contos de Alessandro Martins
28 Jun 2007
Às mulheres fugitivas
Penso em você, Miss Runaway Everyday, como lembro de uma estrada.
Sem casas por perto, a luz no meio da noite ao longe é a fogueira dos viajantes que atravessam a mata e pararam para descansar. A vê com o canto dos olhos, sem prestar atenção. Pisa fundo no acelerador e o carro engole com mais vontade a faixa descontínua e amarela que separa a mão dos que voltam e a mão dos que runaway today.
Mas a primeira coisa que me vem é a imagem do cacto - que comprou - e, depois, a do antúrio - que ganhou. Duas plantas que pouco requerem cuidado. Caso um dia quisesse fugir, como sempre quer, ao menos elas iriam se virar. Corações têm espinhos por vezes, mas a água - de que precisam em abundância - é diversa da água que cai do céu e a faz ligar o limpador de parabrisa.
O motor, so so, mais ou menos, improvisa a quinta de Beethoven. Não sou eu que assovio essa melodia, não é o próximo amor, não é o último. Mas it’s the last city pelas próximas thousand miles. A última flor, do último campo, do último planeta, do último universo pelos próximos cem mil anos. O tempo é um nó corrediço em volta do pescoço.
“I wanna see you, my love, mas onde andas que talvez o tenha ultrapassado há tanto tempo, há tantos quilômetros?”, pensa ela.
Miss Runaway Everyday: sabe-se que só veio e que só voltará. Porém, estar com ela no meio de nenhum lugar já é alguma coisa. Por isso quero um ticket to ride ao menos uma vez com Miss Everyday Runaway.
Ela limpa o vidro embaçado com a calcinha rosa que encontrou no porta-luvas. Lots of laughs no pocket show de sua vereda. Ela é um brinquedo de risadas cuja energia às vezes finda. Não. Não tem manual de instruções nem controle remoto. Pilhas não estão incluídas.
I see you, Miss Runaway Everyday, nas esquinas mais movimentadas da cidade, naquelas onde os acidentes acontecem, onde os carros capotam e os corações se quebram, próxima aos cafés dos primeiros beijos, nos telefones públicos das primeiras palavras, no olho da mulher do outdoor que didn’t see a shit dos meus tropeços por você.
Open your eyes, Miss, e veja que o dia nasceu em minha janela. A vidraça do meu quarto não é o retrovisor. Seu carro não o tem. Isso é pra quem olha pra trás.
Eu a imagino, Runaway, a parar em um restaurante de beira de estrada, olhar para o rosto das pessoas ali, também em transição, e a pensar na vida, assim tão estática. Na vida, não como ela é, não como tem sido, mas como uma possibilidade romântica. Talvez ali mesmo você a tenha atropelado. Talvez seja a vida o solavanco sentido sob as rodas. A vida palpável feita de chão, a vida de terra, underground.
A vida, esse ser imaginário, essa anêmona de mil braços, não tem carteira de motorista, mas porte de arma. E saltou por cima do capô como um bicho desesperado. Melhor não parar para jogar um pouco de água sobre a lataria.
Engate a primeira, a segunda e tantas quantas marchas tiver e se afaste rápido das perguntas. Não deixe de pagar a conta. Só então cante os pneus and sing a happy song with a sad smile in your lips.
Talvez um dia, saberá that my life is yours, Miss, and meus beijos sempre foram seus desde o primeiro, dado, em outros tempos, em outra garota that is not my girlfriend anymore.
Once upon a time, Miss Runaway Everyday sabia que meu amor era aquilo, jogado no asfalto, atravessado em seu caminho. E ela não hesitou em passar por cima. It’s ok. Não foi por mal. É assim mesmo. Ninguém mandou eu não olhar para os dois lados.
Se me pedirem para dizer algo de Miss Runaway Everyday, nada afirmarei de pessoal, incriminador ou íntimo. Apenas que a deixem em paz. Pois ela precisa fugir um pouco. Todo dia.
2 comentários para "Penso em você, Miss Runaway Everyday"
Muito profundo…
Resposta: Espero que “profundo” signifique que tenha gostado, J.
Sabe… eis aí uma letrinha que me faz pensar em uma infinidade de coisas…
Beijos…
Não consegui indentificar, pela composição do site, quam foi o escritor desta “crônica”, “conto” ou boa descrição do meu último namoro.
Só gostaria de saber, se um dia, terei a oportunidade de sentar-me com o autor em um (café do teatro que seja) para relatar o quanto próxima esta história está do meu início de ano.
Agradeço pela exelente leitura.
Amei.
Resposta: Olá, meu caro Tiago, você deve ter namorado com alguma de minhas ex. Abraços do Alessandro Martins!
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