Às mulheres fugitivas

Penso em você, Miss Runaway Everyday, como lembro de uma estrada.

Sem casas por perto, a luz no meio da noite ao longe é a fogueira dos viajantes que atravessam a mata e pararam para descansar. A vê com o canto dos olhos, sem prestar atenção. Pisa fundo no acelerador e o carro engole com mais vontade a faixa descontínua e amarela que separa a mão dos que voltam e a mão dos que runaway today.

Mas a primeira coisa que me vem é a imagem do cacto - que comprou - e, depois, a do antúrio - que ganhou. Duas plantas que pouco requerem cuidado. Caso um dia quisesse fugir, como sempre quer, ao menos elas iriam se virar. Corações têm espinhos por vezes, mas a água - de que precisam em abundância - é diversa da água que cai do céu e a faz ligar o limpador de parabrisa.

O motor, so so, mais ou menos, improvisa a quinta de Beethoven. Não sou eu que assovio essa melodia, não é o próximo amor, não é o último. Mas it’s the last city pelas próximas thousand miles. A última flor, do último campo, do último planeta, do último universo pelos próximos cem mil anos. O tempo é um nó corrediço em volta do pescoço.

“I wanna see you, my love, mas onde andas que talvez o tenha ultrapassado há tanto tempo, há tantos quilômetros?”, pensa ela.

Miss Runaway Everyday: sabe-se que só veio e que só voltará. Porém, estar com ela no meio de nenhum lugar já é alguma coisa. Por isso quero um ticket to ride ao menos uma vez com Miss Everyday Runaway.

Ela limpa o vidro embaçado com a calcinha rosa que encontrou no porta-luvas. Lots of laughs no pocket show de sua vereda. Ela é um brinquedo de risadas cuja energia às vezes finda. Não. Não tem manual de instruções nem controle remoto. Pilhas não estão incluídas.

I see you, Miss Runaway Everyday, nas esquinas mais movimentadas da cidade, naquelas onde os acidentes acontecem, onde os carros capotam e os corações se quebram, próxima aos cafés dos primeiros beijos, nos telefones públicos das primeiras palavras, no olho da mulher do outdoor que didn’t see a shit dos meus tropeços por você.

Open your eyes, Miss, e veja que o dia nasceu em minha janela. A vidraça do meu quarto não é o retrovisor. Seu carro não o tem. Isso é pra quem olha pra trás.

Eu a imagino, Runaway, a parar em um restaurante de beira de estrada, olhar para o rosto das pessoas ali, também em transição, e a pensar na vida, assim tão estática. Na vida, não como ela é, não como tem sido, mas como uma possibilidade romântica. Talvez ali mesmo você a tenha atropelado. Talvez seja a vida o solavanco sentido sob as rodas. A vida palpável feita de chão, a vida de terra, underground.

A vida, esse ser imaginário, essa anêmona de mil braços, não tem carteira de motorista, mas porte de arma. E saltou por cima do capô como um bicho desesperado. Melhor não parar para jogar um pouco de água sobre a lataria.

Engate a primeira, a segunda e tantas quantas marchas tiver e se afaste rápido das perguntas. Não deixe de pagar a conta. Só então cante os pneus and sing a happy song with a sad smile in your lips.

Talvez um dia, saberá that my life is yours, Miss, and meus beijos sempre foram seus desde o primeiro, dado, em outros tempos, em outra garota that is not my girlfriend anymore.

Once upon a time, Miss Runaway Everyday sabia que meu amor era aquilo, jogado no asfalto, atravessado em seu caminho. E ela não hesitou em passar por cima. It’s ok. Não foi por mal. É assim mesmo. Ninguém mandou eu não olhar para os dois lados.

Se me pedirem para dizer algo de Miss Runaway Everyday, nada afirmarei de pessoal, incriminador ou íntimo. Apenas que a deixem em paz. Pois ela precisa fugir um pouco. Todo dia.

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