Aquele coração que você viu pendurado na parede é o meu. Ele pende de um fio de náilon que, por sua vez, está amarrado a um prego de metal. O prego perfura a parede de cimento e tijolos. Alguns farelos da alvenaria se encontram no chão. A perfuração feita a martelo não é precisa. Por isso há alguma folga no orifício. Assim todo esse conjunto - prego, fio e coração - deve logo se espatifar.

Estou sentado aqui há algumas horas a observar. Quero saber quanto tempo decorrerá até que a gravidade sobrepuje a inércia, o atrito entre o metal e o barro cozido. Vou assistir, sentado nessa poltrona, o momento em que esse conjunto deve se juntar às partículas da parede espalhadas no chão de madeira.

Puxe uma cadeira. Sente-se também. Pouco adianta ficar aí, em pé, com as mãos em concha para tentar amparar a queda. Sei que não tem coragem para tocar meu coração. Em outra oportunidade, quando ele ainda tinha espasmos dentro do meu peito, você já demonstrou isso. Não precisa fingir. Mas feche a porta porque esse evento é para poucas testemunhas. Tal e qual quando o universo foi criado e não havia ninguém para presenciar.

Foi assim: todas as partículas, todos os átomos ocupavam-se em se espremer. Tudo o que você possa imaginar e que esteja nesse universo infinitamente grande - esta cadeira, esta mesa, esta poltrona, este prego, este fio, este coração, você, eu -, tudo estava condensado em um único ponto. Infinitamente pequeno.

Aí, dizem, quando não era mais possível condensar mais nada, houve uma grande explosão. Essas partículas feitas de um material primordial, a uma temperatura altíssima, se espalharam pelo nada e, na mesma proporção em que formavam galáxias, sistemas, estrelas, planetas, cadeiras, mesas, poltronas, pregos, fios, corações, você e eu, elas se resfriavam.

Não consigo entender em que circunstância e em que capítulo da história astronômica você se tornou tão fria e eu permaneci tão quente.

O fio que nos liga é de natureza diferente daquela do fio que liga o coração ao prego. O fio que nos liga está a minha volta tão apertado que chega ao ponto da gangrena. Às vezes olho para meus braços e pernas e tenho a impressão de que estão azuis. Às vezes, não os sinto e tenho a impressão de que cairão, a sensação de que não mais me moverei pois deixei-os no caminho. O fio que nos liga paralisa-me.

E, ao seu redor, ele está tão frouxo que é sorte sua eu estar voltado para o abismo e não você. É da natureza das muito belas serem amadas com facilidade sem, no entanto, sentirem a necessidade do esforço de amar. Uma vez esgotada a paixão sempre haverá um trouxa pronto a se atirar no primeiro buraco por causa delas. Não se preocupe, não cairei. E, se cair, já estou acostumado.

Mas, olhe, o prego se sustenta por apenas alguns milímetros na parede e já desliza para baixo.

Finais possíveis
Final 1 - No momento em que, finalmente, o prego escorrega da parede, ela se joga com os braços estendidos. Em câmara lenta, percebe-se que as duas mãos conseguirão aparar a queda. Black out. Vê-se, a seguir, ela caída, os olhos voltados para cima. O que ela enxerga é um coração atravessado por uma flecha a poucos centîmetros de seus dedos, definitivamente preso à superfície. Ela volta o olhar em direção ao sofá e ele aponta um outro projétil para sua garganta. A flecha vôa em sua direção. Black out. Sobem os créditos.

Final 2 - Ela ouve as palavras dele mais um pouco. Vemos apenas os lábios que se mexem sob a trilha sonora. Close-ups alternados entre um e outro. Então, sem um motivo aparente para isso, ele se levanta, arranca o coração da parede, morde, mastiga e engole o naco. Joga o órgão sem vida por cima do ombro enquanto vai embora. Close na porta que se fecha. Créditos.

Final 3 - Ela fica excitada com a camisa suja de sangue que ele traja. Beija-o na boca e sua mão vai em direção ao sexo dele. Evidente que não o ama, mas os dois decidem ficar juntos assim mesmo porque adoram sexo pervertido. Diversos pontos ficam em aberto e deixam a possibilidade de uma continuação.

Final 4 - Ela tenta amparar a queda, mas não consegue. Tudo se arrebenta no chão. Na verdade, o coração foi feito com gelatina vermelha. O filme termina com os dois rindo e comendo o doce. Sobem os créditos, intercalados com cenas de erros nas gravações e uma música feliz.

Os atores
É preciso que o responsável pelo elenco consiga um ator muito parecido comigo há cerca de 10 anos, capaz de cenas dramáticas e até mesmo de se apaixonar. Ela pode ser aquela garota com quem tive uma paixão mal resolvida na adolescência. Na impossibilidade de viagens no tempo, melhor deixar as filmagens para algum período em que isso seja possível. Ainda assim, os personagens deverão ter uma aparência adulta. De tal maneira que, se não for possível uma caracterização convincente, a produção deve ser definitivamente engavetada.

A crítica feroz
Excessivamente dramático. A imagem de um coração pendurado por um barbante é por demais forte a ponto de ser ridícula. Mulher nenhuma iria se comover com tal coisa. No máximo, acharia que o sujeito ficou louco e chamaria os homens de branco para levá-lo ao hospício. A meu ver, nem a isso ela se daria. Comparar a situação dos dois com a criação do Universo, em uma metáfora sem imaginação, e o resfriamento das substâncias equiparado à crescente indiferença dela enquanto nele a paixão permanece, comoveria apenas o público mais piegas. A possibilidade de escolha de diversos finais possíveis já foi explorada em filmes de baixa qualidade tais como Corra, Lola, Corra, embora de maneira diferente.

Enfim
Eu não pude tirar meu coração do peito. Sem ele não vivo. Você não deparou com ele pendurado por um fio de náilon preso a um prego que perfurava a parede e que, lentamente, deslizava por um orifício frouxo. Pois você não surgiu repentinamente na porta. Não havia sofá para se sentar e observar o espetáculo, não havia cadeira em que se escorar, nem havia nada. Apenas a minha cara, a olhar para o infinito, em busca dos primeiros momentos do universo e da imediata seqüência de ações e reações que trouxeram-me até aqui e levaram você até ali. Um aqui e um ali bem distantes um do outro. Certo de que jamais entenderei.

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