Madrugada. Toca o telefone.  Tateia a mesa ao lado da cama. Acha o telefone.

- Alô.

- Alô, é o sr. João Pereira?

- Acho que é. A essa hora não tem como saber.

- Eu sou o tenente Rodolfo do corpo de bombeiros. Parece que aconteceu um acidente e ligamos para notificá-lo.

- Acidente? Com quem? - o coração disparado. A mulher viajando a trabalho. Medo.

- Com uma mulher aqui… ela diz que ainda vai conhecer o senhor…

- Ahn?

- Olha é o seguinte. Não é acidente coisa nenhuma. É um seqüestro. Isso daqui é um seqüestro e nós estamos com essa mulher que diz que ainda vai conhecer o senhor.

- Calma lá, meu camarada… que mulher, que seqüestro, que mané-conhecer-melhor… explica direito isso aí…

- Tá. Presta atenção que eu vou falar só uma vez. A gente está aqui com essa mulher. Ela é a sua futura mulher amada. Se você não fizer direitinho o que a gente mandar a gente mata ela.

- Mas se eu nem conheço por que eu faria. Ah, vai te foder…

- Olha só, mais respeito aí, chefia. Que eu passo fogo mesmo. O negócio é o seguinte. Se você não conhece, se a gente matar, é aí que não vai conhecer mesmo. Vai passar o resto da vida dormindo sozinho.

João olha para o lado da cama que pertence à esposa vazio.

O bandido continua:

- Tá vendo esse lado vazio na cama? Pois é. Tua senhora não foi a trabalho para o Rio não. Se eu fosse você, na segunda-feira, perguntava pro Faria como foi que ele trabalhou nessa tua vagabunda aí.

- Calma lá! Como é que eu vou saber se isso que você está dizendo é verdade. Como é que você sabe que minha esposa está viajando? Como é que você sabe que eu trabalho com o Faria?

- Olha, brother, a gente sabe muita coisa. Agora, vai fazer o que a gente manda ou não vai. Vou tacar fogo nessa baranga aqui.

- Mas se é baranga, não sei se quero que ela seja minha futura mulher amada…

- Baranga é jeito de dizer, chefia. Até que é ajeitadinha a desgraçada.

- Não sei. Talvez seja melhor você acabar com ela.

- Olha, tu é burro mesmo. Já ouviu falar que quando a gente ama, ama e pronto, não liga pra aparência, dinheiro e outras coisas? Então. Essa guria aqui vai fazer tua cabeça. Mas se você não for bonzinho, nós é que vamos fazer a dela com umas azeitonas na lata.

-  Péra! Eu detesto conserva.

- Azeitona na lata! Bala na cabeça! Tu é mais burro do que eu pensava, mané.  Olha só. Vamos fazer um trato. Ela diz umas coisas que gosta e você vê se tem compalitibidade.

O bandido coloca a mão no bocal. João ouve murmúrios. Conversa do outro lado da linha.

- Olha só, Mané. Ela falou que gosta de Beatles. A música preferida do Chico é Vai Passar.

Não era possível, eram as mesmas respostas que as dele. Resolveu continuar o teste.

- Então pergunta pra ela a cor preferida, o prato e o que não come de jeito nenhum.

Mais bocal tapado, mais murmúrio, conversa.

- Azul, lasanha à bolonhesa e não come melancia porque dá azia.

Não podia ser. Era perfeito. As respostas eram as mesmas que as dele. Se ser igual não era sinônimo de compatibilidade ao menos era de que o bandido ali do outro lado do telefone não estava brincando.

- Então me diz o nome dela. O nome!

- Mané! Chega de pergunta. Agora você vai fazer o que eu disser se não passo fogo na guria.

- Tá bom. Diz aí.

- Você vai até o computador e transfere o dinheiro de suas contas para a conta que eu disser. Não desliga. Vou ficar esperando.

Foi e fez.

- Pronto.

- Tá. Então eu vou liberar a moça. Valeu, Mané. Perdeu, hein, prayboy?

- Péra… e como eu faço pra encontrar com ela?

- Destino, né, meu irmão? Você sabe como são essas coisas. Mulher amada a gente encontra ou não encontra, mas como essa é sua futura mulher amada é inevitável que uma hora dessas você encontre…

- Me fala ao menos o nome dela…

Bocal tapado. Mais conversa.

- Suzana. O nome dela é Suzana. Agora chega.

E desliga o telefone.

Do outro lado, a esposa de João e o colega Faria conversam.

- Eu não acredito que ele caiu.

- Caiu mesmo, hein?

- E quando ele descobrir?

- Quando descobrir já estaremos bem longe. Talvez até dê tempo de ele encontrar alguma Suzana e ser feliz para sempre.

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