Um doce olhar ou um sorriso lindo já foram ilusões para mim. Olhava para estas miragens com tal fé que , apoiado nos terrenos úmidos e tenros das promessas aparentes, eu construía milhares de situações imaginárias.

Agora, não mais. E me empenho para que continue assim.

Ontem você olhou e sorriu para mim e, embora doce o olhar e lindo o sorriso â?? e algo em mim implorasse para ser iludido â??, recuei. Conheço essa sensação. Uma simples frase amigável pode se preencher de tantos significados que facilmente ela seria a primeira de uma história muito longa.

Você toca em uma banda de rock. Desconheço se pretende fazer sucesso com ela ou simplesmente ficar conhecida na ceninha dessa cidade tristonha. Desconheço qualquer canção do seu repertório. Desconheço até o nome do seu grupo. De qualquer forma, isso não quer dizer nada para essa história que começo a contar já pelo final, essa flor que faço nascer sem raízes. Justamente porque é improvável que algum dia um fã de rock na Finlândia, ou em outro lugar, venha a saber como você é linda a empunhar a guitarra.

E, se na Finlândia alguém a isso desconhece como eu ignoro todo o resto, que diferença faz? Eu sou mais um, você é mais uma, essa carta não será lida por 180 mil pessoas nem a sua canção será ouvida por 180 mil pessoas no Rock in Rio.

E sequer teremos Paris, como naquele filme. No entanto, o fato de de você tocar em uma banda de rock é relevante.

O rock é como um velho canalha que perverte a garota virginal. � como se ela usasse cinta-liga e meias de seda brancas na primeira comunhão.

E seu olhar e seu sorriso me diziam isso, ou eu quis que dissessem isso. Ainda me esforço para não me iludir. Sei também que não é essa garota virginal, nem quero que seja.

O que quero mesmo dizer é que me sinto velho e meio safado, apesar de ser cronologicamente jovem e, em termos de maturidade, no máximo, adolescente. E que algo em você despertou em mim o que há de pior em um homem. Algo que o faz renegar as coisas que há de mais sagrado e importantes por nada.

O faz renegar até mesmo um amor verdadeiro, daqueles de envelhecer junto. Por um nada que você me ofereceu, mesmo sem saber, ao simplesmente olhar e sorrir. Um pequeno alento para, quem sabe, conciliar esses estados de espírito contraditórios. Mas percam as esperanças todos aqueles que sob esses portais passarem. Afinal, existe amor falso?

Sei que, com essa carta, que escrevo e você não vai ler â?? se ler, não perceberá que é com você que falo â?? alimento aquilo que desde o começo tento sufocar. Aquela esperança de que, neste momento que escrevo, você esteja a dedilhar uma canção para mim. Sim, é você. Você que lê e talvez diga baixinho para si mesma que gostaria que alguém lhe escrevesse algo como o que se vê essas linhas. Escrevi para você.

Na verdade, tudo isso é bobagem. Mesmo que eu cresse convictamente â?? e com acerto â?? a certeza de um futuro que fosse nosso, e não dessa forma hesitante, ainda assim tudo isso seria bobagem. Nosso futuro seria dois, três, quatro anos e depois alguém sorriria para mim ou para você e buscaríamos outras saídas para esse louco labirinto.

Acho que você já entendeu (perceba a tola esperança de que você leia). Na verdade, essa carta é mais para mim que para você. Tento argumentar comigo mesmo para provar que essa situação, apesar de encantadora, é ridícula. � como andar em círculo perdido em uma floresta. O melhor era ficar parado, secando ao sol, apodrecendo sob a chuva pacientemente.

Tento me convencer de tudo isso. Continuar acreditando que não tenho mais idade para me apaixonar por esta improvável estrela do rock. Improvável é eu conseguir isso.

Ontem, quando vi você no bar, meus dias foram contados pelos compassos de sua canção.

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