Crônicas e contos de Alessandro Martins
13 Jun 2007
Quando eu era bandido e as flores saltavam dos canteiros à minha passagem, meu hábito era quebrar vidraças e roubar corações.Eu costumava erguer as saias das criadas para não ter que adivinhar as cores das calcinhas. Esgueirava-me pela sombra sem ser notado e, sob o sol, desfilava imponente após os atos criminosos. Eu matava a cobra, matava o pau, matava qualquer coisa.
Os valentes se escondiam, os covardes corriam e os que não me conheciam acabavam por conhecer.
Quando eu era bandido as coisas eram fáceis. Tão fáceis que, por vezes, eu tinha sede e chovia, eu tinha fome e árvores frutificavam. As florestas se descortinavam diante de meus passos para que eu não precisasse abrir caminho com as mãos. As estradas eram tênues descidas. A correnteza dos rios se invertia para que eu não precisasse remar com mais força na volta para casa.
Nessa época, eu não tinha espécie, eu não tinha raça, eu não tinha carne, eu não tinha ossos, eu não tinha alma. Não tinha um puto tostão no bolso. Tinha apenas minha vontade e isso era suficiente.
Eu tinha o fogo - que roubei - e o fogo me consumia e eu me deixava consumir com prazer até o anoitecer e no anoitecer adormecia exausto, consumido, feliz.
Quando eu era bandido nada fazia lógica e nem precisava fazer. As coisas eram. As coisas eram. As coisas eram.
Quando eu era bandido, eu não a conhecia. E então eu não havia ainda me atado às suas correntes. Nem, assim, havia me reabilitado, nem, assim, me penitenciado, nem, assim, havia me surpreendido na mais óbvia das paixões, no mais comum dos amores.
Essa é minha culpa. Tudo possuía e troquei isso por algo que não comporta cercas, paredes, trancas, grades e que, por isso, não pode sequer ser tomado. Porto-me como vítima, sou surrupiado, raptado e violado quando, então, era eu o bandido.
E, na verdade, descubro, com os olhos de espanto no espelho dos seus, que não era.
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