Crônicas e contos de Alessandro Martins
11 Jun 2007
Quando eu tinha dezessete anos, às vezes, pegava o ônibus e ia ao centro da cidade para perambular, conversar com amigos e conhecer garotas. Foi numa dessas que a encontrei. Falava muito e mudava de assunto a toda hora. Usava uma saia bem curta. Belas pernas, cabelos longos, pele branca, olhos azuis. Então vi a cicatriz na coxa. A marca tinha a forma de meia-lua. Havia queimado no escapamento da moto de seu tio. Garantiu que se afeiçoara a ela e até a batizara tal fosse um bicho de estimação. Não lembro agora com que nome.Era o tipo de garota pela qual eu me apaixonava. Com certeza tinha problemas. Percebi que gostara de mim também. E, num impulso, combinei.
- Quero casar com você.
- Eu também.
- Ok. Na catedral. Amanhã, às quinze horas. Te espero com os anéis. Será uma cerimônia simples.
- Ok.
- Eu vou mesmo - confirmei, enfático.
No dia seguinte, lá estava eu , sentado no banco mais próximo da porta de entrada da catedral, para poder ser facilmente visto. Num dos bolsos, estavam os anéis baratos que comprei por centavos de um hippie. Ele perguntou se eu queria alguma inicial gravada neles, mas preferi que não, pois não lembrava como ela se chamava.
Esperei por meia hora até concluir que, de fato, ela não viria.
Talvez o leitor se pergunte o que essa história tem a ver com o resto do texto. Provavelmente nada. Só quis demonstrar como eu possuÃa desprendimento aos dezessete anos a ponto de pedir uma garota que nunca vira antes em casamento, comprar os anéis, ir até uma igreja distante de minha casa no subúrbio e esperar por ela não por dez, não por vinte, mas por trinta minutos e, só então, desistir. Não que eu já não soubesse que ela não viria. Eu sabia que ela arranjaria coisa melhor para fazer naquele instante. Mas pelo simples fato de que, se ela aparecesse, seria muito legal e provavelmente ela seria a mulher da minha vida. Pelo menos assim pensava eu naquela época.
E, a ela, nunca mais a vi. Nem sei seu nome.
Súcubos e Ãncubos
Há diversas versões e interpretações para o que seriam os súcubos e os Ãncubos. Muitas delas se entrelaçam e formam novas verdades que este ou aquele dirão serem absolutas. O fato é que pouca gente sabe exatamente o que são essas criaturas a não ser que os súcubos, fêmeas, atacam os humanos do gênero masculino e os Ãncubos, machos, atacam os humanos do gênero feminino.
Alguns dirão que são seres que à noite, em sonho, fazem os adolescentes terem os tais sonhos molhados, repletos de imagens lúbricas e pouco pudicas. Outros, em linha semelhante, que são demônios que fazem as virgens e os santos perderem a virtude e caÃrem em tentação. Há os que dirão que eles se alimentam da energia sexual de suas vÃtimas. Nesse ponto, chegam a se confundir com os vampiros. O componente de forte apelo erótico, no entanto, sempre se faz presente.
No entanto, todos concordam em uma coisa. Aqueles que, porventura, tenham cruzado seu caminho com o de um súcubo ou com o de um Ãncubo, até tentará novamente o sexo com os humanos. Sempre a se frustrar, no entanto. Eles experimentaram o paraÃso e agora tornaram-se eternos amargurados.
O que aconteceu com os anéis
Naturalmente, aqueles anéis baratos tiveram algum paradeiro. Não podia tão simplesmente livrar-me deles. Um amigo meu, um grande amigo meu os viu. Ele ficou curioso. Queria saber por que afinal eu comprara dois. Na hora, fiquei envergonhado e preferi não contar o motivo. Decidi que deveria dá-los a ele. Passou a usar um deles e deu o outro para uma garota de quem, na época, estava a fim. Hoje, são casados.
Meu coração
Meu coração entra em combustão agora. Não precisa esperar o oxigênio, não precisa de brisa que alimente a chama, não precisa esperar amanhã nem lembrar de ontem. Ele queima nesse instante e carboniza o tempo. Antes dele são as cinzas e depois dele, o nada. A chama é verdadeira e instantânea como uma explosão. A chama grita sem vergonha alguma e acorda os vizinhos. Berra não de dor, não de prazer, mas porque ela é assim e, de outra forma, não seria. Ela clama por alguém. Esse alguém é você.
Não precisa esperar oxigênio para a combustão e, ainda que sem você, queimará de qualquer maneira. Quer perder isso?
Ansiedade
Até os vinte anos. Somos muito ansiosos. Ansiosos para o fim de semana, ansiosos para o sexo, ansiosos para o amor. Depois diminui. Para alguns diminui tanto, porém, que a vida transforma-se em modorra, em tédio, em um suceder de dias sem sentido sem esperas, sem perspectivas.
Mas lembro que aos quinze anos, minha namorada falava em me amarrar na cama para fazer de mim o que quisesse. Coisa em que jamais tinha pensado mas que me interessou profundamente. Mas de tal forma que logo quis viver essa experiência. Que jamais aconteceu. Pelo menos não com ela. Ela, que, por achar verbos como masturbar-se e outras palavras mais ou menos cientÃficas pouco atraentes, dizia que em determinada tarde havia se tocado pensando em mim, desapareceu.
Ansiedade espanta passarinho.
Sonho
No sonho eu assisto a um filme. Uma pessoa precisa fazer um encanto para impedir que um ser maligno penetre os portões de um castelo. Ansioso, pressinto que não haverá tempo. Antes que perceba estou de olhos abertos, em meu quarto, na cama. As roupas penduradas no guarda-roupa, o telefone ao meu lado, os livros, o copo de água, tudo está ali como quando me deitei. Porém, a sensação ainda é a do sonho. A de que algo que não deveria entrar o faria em breve. � quando ouço a porta do corredor se abrir e passos que vêm da sala até o meu quarto.
Um vulto pára ao lado da cama e fica a me observar. Uma sombra. Não consigo me mover. Esboço uma palavra, mas o dedo indicador da criatura vem em direção aos meus lábios e me cala. Esse gesto que nos filmes sempre julguei como canastrão é suficientemente alentador para convercer-me a permanecer calado. Tem as mãos finas, macias, e unhas longas. O rosto aproxima-se do meu e sinto sua respiração. Meus olhos acostumam-se com a escuridão e aos poucos percebo. � uma mulher. Uma bela mulher. Tira a coberta que protege meu corpo, sobe na cama e me envolve com as pernas.
Nesse momento vejo, em sua coxa, uma cicatriz em forma de meia-lua.
- Meu nome é Jéssica. Jéssica. - ouço ela dizer.
5 comentários para "Súcubo"
Li todos os textos da página inicial, Alessandro. Você sabe escrever. Pelo menos do jeito que eu gosto de ler. Obrigada.
Resposta: Fico feliz que goste… o que aqui está é justamente o que gosto de escrever. Então, está justo… Beijos.
TaÃ, gostei desta forma despreendida e ao mesmo tempo romanticamente rebuscada de falar de amor. Talvez vc seja um colecionador de musas, o que faz de ti, um poeta verdadeiro. Um poeta cibernético, um homem do futuro, mas que ainda ama.
Um homem que não se importa com o que vai dizer porque sabe que vai sair legal. Um poeta altruÃsta e humilde que chama belas palavras de crônica. Também o é, porém, percebo que em suas palavras, sopra um tal lirismo que só quem tem a força da paixão exerce. Algo pós moderno.
TaÃ, gostei.
Parabéns, Ale, vou ler sempre!
bj,
Daisy Carvalho.
É, o que posso dizer… adorei! Escreve da forma que também aprecio. Me interessei mais por sua história, do que o tema sobre o qual entrei nessa página! uHASUUHASHUSAHUASHUA *-*/
Isso ai! ^^
Muito lindo - linguagem surpreendentemente fluida e clara, desenrolar sucinto, gran finale. MagnÃfico!
Muito lindo. Linguagem surpreendentemente fluida e clara, desenrolar sucinto, gran finale… MagnÃfico!
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