Crônicas e contos de Alessandro Martins
8 Jun 2007
Respeitosamente, entro. Cabeça baixa, olhar de lado. Sem encarar e intimidar as lágrimas alheias, ou a ausência delas. Assim se faz nos velórios. Todos fazem assim. Lá fora, claro, alguns contam piadas. Mas não ali, perto do morto.
ImpossÃvel não observar a esposa. Seus vinte e tantos anos. Ã? uma das que não choram. Toda de preto, parece uma viúva de filme. Vestido preto e justo, óculos de grife, ela deve ter saÃdo de uma foto. Não usa chapéu, nem véu sobre o rosto de mármore.
Alguém próximo a mim comenta que ela deve estar muito sedada para aguentar daquele jeito.
Bem
Você já deve imaginar que a certa altura eu lanço um olhar furtivo para a mulher e, discretamente, com um aceno de cabeça, faço-lhe um convite. Saio em direção a um banheiro mais afastado ao que, segundos depois sou, sutilmente, por ela seguido. E, em um dos cubÃculos, segue-se aquele motivo pelo qual tenho que tapar a boca da viúva com a mão para conter-lhe os gemidos.
Não. Você pensou tudo errado.
Mármore
O seu rosto é mesmo como se fosse de mármore naquele momento. Os cabelos negros, presos em coque, parecem feitos para a ocasião. Mas ela não está sedada. Apenas sente o alÃvio das que se livraram de um peso e, por outro lado, ganharam a leveza que as grandes somas de dinheiro podem dar. E, melhor de tudo, foi morte natural.
Mas sorrir, nessa hora, é para aqueles que, lá fora, contam piadas entre um e outro elogio ao defunto. O pior de se estar morto, de fato, não são as ofensas póstumas, mas o fato de não se poder rebater falsos e tardios louvores. E ela está viva. Não sorri. Como um acessório emoldura o esquife que emoldura as flores, que emolduram o morto. Está ali para ser vista e ser digna de pena.
Ninguém ousa olhar para suas pernas envolvidas no justo tecido negro. Se alguém olhasse, veria que as coxas se esfregam sutilmente, mas com tenacidade.
Para ela, dinheiro dá tesão.
Putas
Algumas mulheres tem vocação para ser puta. Claro, essa qualidade não é privilégio do sexo feminino, mas, no momento, dele falamos.
Vamos definir vocação como a propriedade que nos faz ter vontade de fazer algo em troca de dinheiro ou de outro valor. Troquemos a palavra vontade por tesão e chegamos próximos da idéia que quero transmitir. Pessoalmente, não acho que haja nada de errado com as putas. Pelo menos com aquelas que trabalham com prazer.
Não sou ingênuo e sei que, na maior parte das vezes, a garota, ou o garoto, que se inicia na prostituição o faz por necessidades e circunstâncias outras que não o gosto pela coisa. Esses entram no campo da exploração, da frustração e de outros tristes substantivos. Mas tudo é, como eu dissse, uma questão de Ãmpeto vocacional. Afinal, explorados e frustrados são também os médicos que gostariam de ser padeiros, os jornalistas que gostariam de ser farmacêuticos, os advogados que gostariam de ser corretores da bolsa. Todos eles, putas, daquelas que não gostam da coisa, das que não gostam de trepar. Uma boa puta é tão boa quanto um bom médico é bom, quanto um bom jornalista é bom ou quanto um bom advogado é bom. A resposta é adequar o que se faz ao que se quer fazer.
Mas voltemos
Sejamos sinceros. Um homem - também as mulheres, com cada vez mais freqüência - admite que vez por outra não sente necessidade de envolvimento emocional. Na maior parte do tempo o que ele quer é uma boa trepada.
As mulheres - também os homens, com cada vez mais freqüência -, por sua vez, querem um envolvimento emocional em seus relacionamentos que, por ventura, envolvam sexo.
Nesse conflito de interesses, as putas desempenham um papel fundamental no bom funcionamento da sociedade.
Explico. Visualize um homem que quer uma boa trepada e pretende consegui-la pelos métodos, assim chamados, convencionais. Ele vai até um bar, gasta uns tantos dinheiros em bebida e comida, conhece uma garota, procura impressioná-la de alguma forma - seja com um papo sobre o cubismo e as vanguardas estéticas do Soho novaiorquinho, seja com a exibição de um abdômen bem definido -, investe horas nisso para, só depois de muita saliva gasta, marcar um encontro, um cinema para o dia seguinte.
Os dois vão ao cinema. Mais conversa, mais dinheiro, pipoca, filme do qual, eventualmente, nenhum dos dois gosta. Combinam para sair na semana seguinte.
Jantam. Mais dinheiros. Trepam, como ele queria, para - inconscientemente - cumprir seu papel de reprodutor da espécie. Ele nunca mais liga. Ela fica arrasada e, possivelmente, tenta se matar. Custos para o Estado.
Agora, imagine se esse mesmo sujeito, já de inÃcio, fosse atrás de uma puta.
Bar, cinema, jantar - faça as contas - custam muito mais que os serviços de uma hora de uma profissional do sexo. Com anal é R$ 100 e sem é R$ 70.
A garota não conheceria um sujeito que magoaria seu coração ansioso por envolvimento emocional, ninguém morreria e o Estado não teria problemas de orçamento. De quebra, se todos os homens levassem a sério tal possibilidade - a de em caso de necessidade fÃsica de sexo se procurar uma prostituta - haveria a maior probabilidade de ela encontrar, com segurança, em um bar, um sujeito bacana, a fim de conhecer melhor aquele coraçãozinho cheio de amor para dar. Pois aqueles que só querem uma transadinha casual estariam em outro lugar.
A verdade, porém, é que o mundo não é tão simples. E, quase sempre, nem homens nem mulheres sabem se querem uma transadinha casual ou casar e ter filhos. E estão todos a andar misturados por aÃ, seja nos bares, seja na rua, seja no disque-sexo.
De qualquer forma, é bom saber que as putas existem. Obrigado, putas. Eu amo vocês.
A viúva
Sim, a viúva esfrega as duas coxas. Escorre, sabe? Nos dois anos em que estivera casada com o velho não sentira isso, não lembrava como era. Está agora perdida não em seus pensamentos, mas na sensação. Sentir-se molhada, faz com que sinta mais tesão, o que a deixa ainda mais molhada e, nesse cÃrculo vicioso, ou virtuoso, como queira, da cintura para cima permanece impávida, como seus óculos negros, e, para baixo, derrete.
Por segundos, um pensamentoâ?¦ não, não chega a ser um pensamentoâ?¦ por segundos, uma intuição lhe atravessa. ImpossÃvel descrever com exatidão. Sim, tem dinheiro, sim, é jovem, sim, é devassa na exata proporção inversa a que se retraÃra durante aquele tempo. Mas falta-lhe algo. Ã? isso. Sente, pressente que precisa realizar algo, alguma coisa que dê sentido à sua vida. Uma realização. Uma obra.
Por ora, no entanto, tem muita vontade de ir atrás daquele cara que fez um discreto gesto com a cabeça e foi em direção ao banheiro mais afastado. Ele deve ter notado o discreto movimentar de suas pernas. Com prazer ela colocaria uma nota alta de dinheiro no bolso de sua camisa, mesmo depois de ele lhe tapar a boca para abafar seus gemidos.
E é então, enquanto desamarrota sua roupa, que descobre, no outro, a verdade. Como se olhasse em um espelho. Pois fez com ele o que teve vontade, naquele instante, que fizessem com ela.
Ela queria ser puta.
Um comentário para "A vocação de dar por dinheiro"
“As mulheres - também os homens, com cada vez mais freqüência -, por sua vez, querem um envolvimento emocional em seus relacionamentos que, por ventura, envolvam sexo.”
Bom…há problemas pelos quais mulheres que ( como eu ) nem sempre querem um envolvimento emocional passam…
Homens, NÃ?O precisam ter tanto trabalho pra nos levar pra cama! Apenas prestem atenção em nós…e sejam bastante sinceros!
E por favor, conservadores, sem ofensas.
Resposta: Apoiada, Liberdade. Na verdade, eu sempre apóio a liberdade! Beijos.
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