Crônicas e contos de Alessandro Martins
26 May 2007
Perguntei se ela alguma vez tinha visto o sangue escorrer através de pele cortada.
- Alguma vez você já viu o sangue escorrer através da pele cortada?
Os olhinhos verdes cintilaram. Contou-me que, certa vez, mordeu o pescoço do namorado até machucar. A marca ficou por alguns dias, mas o ferimento não chegou a sangrar, se é que pode-se chamar de ferimento algo que não tenha sangrado.
Ela disse que lembrava claramente quando sentiu que o corpo dele, como se tivesse perdido os ossos que sustentassem os músculos, ficou como se estivesse pendurado por aquele pedaço de carne, preso aos seus dentes. Ele era a caça nas presas da caçadora. Lembra também de quando afrouxou a mandíbula e ele caiu a seus pés, de joelhos a beijá-los. E de como sentiu-se apaixonada e excitada naquela hora. Por um momento acreditou em entrega. Não na daquele homem que, no chão, a adorava. Mas na dela.
Nessa época ela costumava roubar uma faca antiga da coleção de seu pai. Fazia pequenos cortes em seqüência, paralelos, ao longo do braço. Também esse ritual não chegava a fazer a pele sangrar. Eram apenas pequenas marcas que, ao cabo de um dia, às vezes menos, ficavam tênues e, por fim, desapareciam. Ela se limitava a, quando isso acontecia, renová-los.
Calou por alguns instantes. Dois segundos talvez. Olhou-me nos olhos pela primeira vez desde que começou a contar-me essas coisas. Pensei que fosse pedir-me algo, mas olhou novamente para o tapete e continuou seu relato.
Claro que já tinha visto o sangue escorrer. Diversas vezes. Como não tinha lembrado disso? Desde a infância, como acontece a todo mundo, vemos sangue e, às vezes, até provamos. O colega de escola que cai da escada, abre a testa e aparece no dia seguinte com três ou quatro pontos a unir os dois lados do corte. A mãe que passa a faca no dedo na hora de preparar o almoço. A irmã que teve hemorragia nasal. Sim, já tinha visto sangue e não entendia porque não havia lembrado dessas coisas logo de início.
Eu lhe disse que essas coisas eram acidentes ou da distração, ou da agitação da pouca idade, ou da natureza. E ela, no entanto, o tempo todo pensava em atos intencionais apesar de a pergunta não restringir dessa forma a resposta.
- Essas coisas de que lembrou são acidentes. A pergunta não restringia a resposta a atos intencionais. Mas você teve dificuldade de lembrar desses acidentes porque, o tempo todo, você pensava em intencionalidade.
Ela concordou.
Foi então que coloquei-lhe o canivete na mão. O nome dela estava gravado nele. Ela pareceu não entender. Tomei-lhe novamente o canivete e o abri. Coloquei-o novamente na palma da mão que permanecia estendida como uma pergunta.
- A lâmina é afiada, mas não suficientemente longa para matar se for enfiada aqui.
Apontei-lhe o local, como quem contava um segredo.
Ela então pareceu compreender e a confiar em mim, não pela diferença de idade, mas pela confidência mútua e sem limites. E seus dedos fecharam-se ao redor do cabo. Segurei fortemente em seu punho prestes a lhe mostrar o caminho. Percebi, no entanto, que isso era desnecessário. Por isso, preferi abraçá-la delicadamente pela cintura.
O metal penetrou firme a minha carne enquanto seus lábios aproximavam-se dos meus. Senti uma tontura que tanto poderia ter sido causada pela dor como pela doçura daquela jovem boca.
Um líquido quente umideceu nossas roupas.
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