Crônicas e contos de Alessandro Martins
22 May 2007
Por vezes sobra razão e falta emoção. Outras, o contrário.
Não, não é como o vinho que azeda ou que fica doce por demais, pois as duas coisas, razão e emoção, não são sabores opostos, como costuma-se imaginar. Elas convivem naturalmente, tal a cor vermelha ?? caso trate-se de um vinho tinto ?? e a natureza aromática da bebida.
O vinho, dizem, foi criado pelo deus grego Dionísio. Os romanos o conheciam como Baco. Todo mundo sabe porém que o vinho foi criado, na verdade, pela necessidade que o homem tem de, por vezes, se embriagar seja lá com o que for, com álcool ou batendo a cabeça na parede. Seja para se encher de razão, seja para aplacar a emoção ou ainda para abafar as duas coisas e desaparecer até das próprias vistas.
Baco, ou Dionísio, hoje é franco atirador. Mora no prédio mais alto da cidade.
O nome do personagem central deste texto, porém, é Hermes. Que também é nome de um deus grego: Mercúrio, para os romanos. Nome de um planeta tão veloz por sua proximidade ao Sol que não seria exagero dizer que ele tem asinhas nos pés, se tivesse pés. A natureza de Hermes é curiosa e polivalente. Uma espécie de padroeiro dos larápios, também entende de comunicações e, porque não, de música. Há aquela canção que fala de um deus sonso e ladrão que faz das tripas a primeira lira que animou todos os sons. Pois é, é ele.
Ele tem como símbolo o caduceu ?? que também representa a medicina ??, aquele bastão encimado por asas e circundado por duas serpentes em espiral, em uma forma muito parecida com as cadeias de DNA ou com os principais canais energéticos do corpo humano, como no Yôga, que sobem da base da coluna até a cabeça ao longo da coluna vertebral, ou ainda com a árvore da vida da Cabala. ? até possível fazer uma comparação com o Santo Graal, para uma visão e uma imaginação mais apurada. Mas deixe pra lá, pois fazer tantas analogias é perigoso. Acaba levando aqueles mais influenciáveis a crer que todas essas coisas são uma coisa só. E não são.
? noite, Dionísio, o deus, comprou uma garrafa de vinho e, de sua sacada observava o movimento lá embaixo. Hermes atravessava a rua ?? não o deus, mas o homem ?? quando, de repente, foi tomado por uma súbita vontade de se embriagar, intento no qual obteve êxito facilmente depois de alguma horas dentro de um bar.
Garoto conhece garota. Hermes, movido mais por Dionísio que por Eros ?? Cupido para os romanos ?? vai em direção da garota que o observa.
Garoto conversa com garota.
Idéias meio sem nexo e palavras meio engroladas, pois, como se disse, Hermes obteve êxito em seu intento.
De qualquer forma, ele entende de comunicação.
Garoto beija garota. ?s vezes, um beijo é só um beijo. Outra canção.
Hermes deixa um telefone com a garota.
?? Pra você ligar, a gente combinar e tal.
Pequeno interlúdio de três dias
Três dias se passaram.
Panificadora, fim de tarde
A moça do balcão traz para mim o pingado e o pão com manteiga. O telefone, lá dentro, toca.
?? Panificadora Verdes Mares, bom dia.
? o que ouviríamos eu, ao vivo, e ela ?? a pessoa do outro lado da linha ??, pelo fone, caso um certo número três não tivesse sido cuidadosamente sobreposto a determinado número dois naquele pedaço de papel: a anotação com um telefone e um nome em letra de forma. O segundo dígito, como se disse, rabiscado. O três sobre o dois e a primeira perna do h um pouco mais comprida que a segunda.
?? Panificadora Verdes Mares, bom dia.
Por hipótese, diga-se que o algarismo errado não foi corrigido.
?? Não, não tem ninguém com esse nome.
Certamente, o telefone tocaria ainda mais uma vez dali a segundos, com nova confirmação do engano e, ainda outra, não sem antes que a pessoa do outro lado da linha lesse mais duas ou três vezes todos os algarismos e decorasse-os.
?? Devem ter dado o número errado pra você.
? o que ouviríamos, então, eu e ela.
Mas não ouvimos por algumas razões.
Primeira razão
O dígito foi corrigido.
Segunda razão
Seria muita coincidência ela, meu personagem, ligar por engano para uma panificadora que normalmente não freqüento justamente no momento em que lá me encontro. De qualquer forma, não me ocorreria perguntar ao homem que atendeu ao telefone sobre quem afinal ligara tantas vezes por engano. Em princípio, não é da minha conta.
Terceira razão
Ela não telefonou para o número errado e tampouco para o certo.
Ela não telefonou.
Vênus
A natureza do que excita uma mulher é diferente da natureza daquilo que excita um homem.
Com aquele pedaço de papel entre os dedos da mão esquerda com o nome daquele garoto feio e seu telefone, na ânsia que havia entre o telefonar e o não telefonar, entre o que poderia ser feito e a volúpia de não fazê-lo, como quem guarda um tesouro sobre infinitas camadas de areia no deserto, algo aconteceu. Algo nem errado nem certo.
E Afrodite, Vênus para os romanos, conduziu os dedos da garota, os da mão direita, aqueles que não seguravam o pedaço de papel, para lugar distante das teclas do telefone.
Intento no qual logrou êxito com facilidade.
Um comentário para "Deuses, telefonemas"
Em aulas de Estudos Clássicos se aprende
alguma cultura inútil…queria dizer que amei o
texto (como tudo que você escreve, é ótimo),
mas adiciono ao comentário que o deus é DIONISO, sem
o “I”; DIONÍSIO é alguém que recebe esse nome em
homenagem ao deus (como Apolônio para Apolo, por
exemplo).
Resposta: Graças a você eu dei uma pesquisada, Ana. Encontrei as duas formas. Como só pesquisei apenas na internet e desde criança escuto a forma com i, vou pesquisar em uma enciclopédia de verdade assim que deparar uma.
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