Crônicas e contos de Alessandro Martins
14 May 2007
Parecia ironia, mas aquela pequena reedição de bolso com algumas das melhores fotografias e ilustrações da fetichista Bizarre, revista lançada pelo inglês John Willie na década de 40, estava sobre o missário ganho por minha avó de uma freira. O livro, cheio de orações e responsórios em latim e já com seus quase oitenta anos, foi encapado com pano, tecido grosseiro saÃdo do hábito da então noviça. E, afinal, na prateleira, depois da limpeza feita por minha mãe na biblioteca onde muitos de meus livros ainda ficaram quando fui embora da casa de meus pais, ali estavam os dois.
A reedição feita pela Taschen - minúscula como um bombom, cheio de gravuras tentadoras e pervertidas - repousava sobre o pano que, quem sabe, ficou entre a madeira do genuflexório e a pele macia do joelho de uma jovem casta. Era como se meus desejos mais sombrios se materializassem na forma daqueles volumes.
Não pensei nisso naquele instante. Apenas guardei Bizarre na jaqueta de couro e fiquei a imaginar se meus pais, a essa altura, sabiam de minhas preferências um tanto excêntricas no que diz respeito ao que poderÃamos chamar de, digamos, estética sexual.
Willie
John Willie é um dos banbanbans no que diz respeito a fetiche. Nas páginas da Bizarre o leitor poderia encontrar desenhos e fotografias de mulheres amarradas ou amordaçadas até mesmo na clássica e inocente cena do vilão que prende a mocinha nos trilhos do trem, garotas em atitude dominadora, roupas de couro, de borracha - vanguarda, digamos assim, para a época -, espartilhos, meias de seda com aquela costura na parte de trás, botas de canos de variados comprimentos e, acima de tudo, saltos altos, saltos altÃssimos.
Houve até uma ocasião em que Willie ensinava a fazer o improvável: um sapato com um salto de seis polegadas, aproximadamente dezoito centÃmetros, possÃvel de ser usado. Isto é, a idéia dele era que uma mulher calçasse aquilo e saÃsse por aÃ. Tomara que não fosse um passeio muito longo. Com tal sapato, melhor seria que as garotas evitassem as perigosas calçadas de Curitiba.
Antes que alguém diga que um salto de dezoito centÃmetros é possÃvel se for usada uma plataforma, devo acrescenter que não, isto não estava incluÃdo no projeto.
O colecionador de cenas
Colecionava cenas. Não fazia questão de que elas perdurassem ou se repetissem durante a sua vida. A simples lembrança delas era suficiente para que o deleite invadisse os seus nervos. Tinha muitas. Uma das preferidas era a jovem loira, nua, sentada sobre seu corpo a lhe estapear as faces. Havia inocência demais naqueles olhos azuis que observavam o rosto que ela cobria do mais estranho prazer, inocência que jamais voltaria a ser a mesma.
Lembrava também da outra menina que, só para satisfazê-lo, de surpresa roubara as luvas negras de pelica da avó, vestira a calça de couro mais apertada - é a moda, disse para a mãe - e até mesmo conseguira um quepe do exército para fingir autoridade. Ela compusera um personagem dos mais vis apenas para fazê-lo ter prazer. E sob aquele quepe, a segundos havia uma cabeça supostamente pura. Como saber?
Na outra ocasião, dentre as que guardava com carinho, teve que torcer muito as costas pois estava preso por correntes à cabeceira da cama. E o que viu foi um chicote pendendo de uma mão e de um braço muito brancos. Mas a lembrança que ele mais guarda dessa ocasião não é a imagem, mas um som que consistia das palavras “cala a boca” após ele ter dado o primeiro e único gemido daquela noite. A espontaneidade da frase, inesperada, quase uma sonata improvisada, viera da boca que há poucos dias lhe pedira um chocolate no cinema.
Não, não colecionava cenas. Colecionava inocências.
Stanton
Aproximadamente na década de 50 surgiu Eric Stanton - ele nasceu em 1926 e morreu em 1999. Claramente influenciado por Willie, também é publicado atualmente pela Taschen. A especialidade dele eram garotas, em geral fortes e violentas, que gostavam de espancar homens tÃmidos e chorões. Pode-se observar em suas histórias que elas são sempre maiores em estatura, com um rosto em geral severo, com as sobrancelhas arqueadas naquele formato caracterÃstico que lhes confere um ar rÃgido. Mais uma vez é possÃvel encontrar elementos caros para Willie como botas e espartilhos, mas não necessariamente.
Stanton adorava luta-livre, greco-romana e congêneres praticadas por mulheres. Sinceramente, eu acho de mau gosto e vulgar. Mas não do ponto de vista esportivo, naturalmente. Esporte é esporte, sexo é sexo.
Na ausência do desejo
Permita que eu desapareça na ausência de seu desejo. Como se minha existência dependesse dele, seu querer daria sentido à minha carne. Eu não seria um fantasma, eu não seria vento, eu não seria coisa alguma nas horas em que suas vontades mais lúbricas estivessem distraÃdas. Mas nos momentos em que elas estivessem atentas, eu me materializaria pronto pra você e só pra você. Somente a eterna danação de um desejo consistente iria dar a mim o pleno existir. E que, nesse pleno existir, eu pudesse dar a você não a tristeza da satisfação rápida e frustrante, mas o prazer de algo que aumenta a cada segundo e não tem pressa de se consumir. Que eu seja assim, uma vÃtima de seus caprichos sejam eles os mais doces, sejam eles os mais perversos. Não importa.
De outra forma, que eu seja evanescente como as sombras dos últimos segundos do entardecer, que aos poucos se misturam umas às outras e finalmente se tornam aquilo que costumeiramente chamamos de noite.
Eric Kroll
Muitos vão ligar o fotógrafo Eric Kroll à pin-up Betty Page. Ele foi o responsável pelas eventuais fotos em que ela aparece em situações de spanking - sim, a bater na bunda alheia com a mão ou uma escova de cabelos ou qualquer outro objeto que sirva para isso enquanto a outra pessoa está de bruços sobre suas coxas - ou em que havia um sugerido lesbianismo.
Autor de alguns livros conhecidÃssimos dos fetichistas, ele nasceu em 1946 e atualmente vive em São Francisco. Ã? o tipo de sujeito que vive enfurnado em brechós em busca de itens do gênero de cintas-ligas antigas, espartilhos, sapatos femininos estranhos, botas e afins.
Em suas fotografias demonstra que gosta do que faz e transparece cumplicidade com os modelos. Costuma viajar pelo mundo e anunciar na sua página na internet onde estará nos próximos dias para que pessoas, casais, afins e interessados em seu trabalho possam procurá-lo e serem registrados por sua lente.
Eu e uma namorada chegamos a aventar a possibilidade de chamá-lo para vir a Curitiba, mas foi delÃrio.
De carne e outros materiais
Uma mulher, neste momento, secretamente, crava poesia em minha carne. E a poesia, feita não da emocionalidade, que turva a vista, mas da matéria pulsante que move a roda do mundo, enche a minha vida agora, como a palavra penetra o papel. Essa mulher eu aguardo. Não sei se vai chegar. Porém a ausência de ansiedade, faz de mim não um platônico ou um idealizador. Sou, pela graça deste instante, um ser cheio de antecipações que podem concretizar-se ou não, indiferentemente, pois o que importa é o presente. Apenas isso. E não preciso ser mais nada. Se eu fosse uma boca, salivaria. Porém, sou um homem e, como tal, a receberei.
Sardax e Crepax
Deixei os que rimam para o final. Sobre dois grandes volumes com obras de Crepax, a propósito, é que neste momento aquela pequena edição dos melhores momentos da revista Bizarre repousa agora, longe das anáguas da freirinha - o que estou dizendo?… era um pedaço do hábito. Que encapa um missário, cheio de responsórios em latim, lembra?
Mas deixarei para falar mais deles em outra ocasião de maneira que não pensem que sou um viciado em ilustradores e fotógrafos eróticos ou coisa assim.
Não. Não esquecerei de Manara, Roy Stuart e Tomi Ungerer. Aliás, a Taschen lançou um livro de Ungerer, Erotoscope, prefaciado por Michel Houellebecq. Se alguém quiser dar, aceito.
3 comentários para "Bizarre"
deixo meus doce beijos para voce
te adoro do fundo do meu coracao de sua fã bjs
eu encho as parades com teu nome eu sempre fico mal esse e meu normal louca . isso foi um pedaso de uma musica. gostou. bay bay dani muitos bjs
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