Foi por volta de 2020. A grande procura por dispositivos de castidade masculina fez com que se atingisse o “estado da arte”, como costumavam dizer os marqueteiros semi-analfabetos do início do século. Foi rápido o caminho até que se chegasse ao que os casais podem desfrutar hoje em termos de tecnologia de controle sexual.

Por volda de 2005 já era possível através da antiga internet adquirir um equipamento como o CB-2000, constituído de uma discreta - se comparada aos sistemas medievais -, eficiente, higiênica e confortável gaiola de plástico em que as mulheres enclausuravam o pênis de seus parceiros, de acordo com suas intenções.

Tais aparelhos ainda podem ser vistos na página www.cb-2000.com, que hoje consta das chamadas páginas ciber-arqueológicas da Teranet, ainda em sua versão 2D, acessível apenas para os colecionadores e saudosistas que tenham um equipamento capaz de visualizar sites nesses padrões defasados.

O funcionamento de um CB-2000, e de seu similar CB-3000, era simples. Uma vez ali fechado com um cadeado cujas chaves ficavam de posse da mulher, o homem se via habilitado a usar seu pênis ou a tocá-lo plenamente somente quando ela assim o quisesse, fosse para penetrá-la, fosse para simplesmente masturbar-se. O design das peças impediam inclusive que ele tivesse uma ereção completa, o que fazia que dia a dia ele ficasse mais excitado sem, no entanto, poder dissipar, por assim dizer, sua energia. A facilidade de limpeza permitia que seu uso se prolongasse durante semanas, meses até.

Rapidamente as vantagens dos dispositivos se disseminaram entre os casais. Para melhor ilustrar como a mentalidade da época foi atingida, pinço alguns testemunhos de usuários para que, assim, os que não puderem visualizar a página em 2D, tenham idéia de tal impacto cultural (1).

“Eu acho que a sensação de usar minhas calças está se tornando mais normal. Estou mais acostumado a cada dia. Não é desagradável. Ao contrário, é muito prazeroso para mim. Eu devo dizer que meus sentimentos por minha mulher se tornaram mais intensos. Eu tenho sido mais carinhoso com ela. E com isso ela me permite ter orgasmos”. Detlef, Alemanha.

“Finalmente trancafiado! A sensação que eu tenho agora é inacreditável. Meu pênis está em um CB-2000. Eu espero por minha maravilhosa mulher que saberá que eu estou usando um. Ela ainda não sabe sobre isso. Mas eu tenho certeza de que ela entenderá que é amor”. Anthony, Estados Unidos da América.

“Nós amamos este incrível CB-2000. Sempre tivemos problemas com outros dispositivos que tentamos usar. Ã? maravilhoso ter tal conforto. O único problema é aprender a não dormir de bruços”. Had, Bélgica.

“Obrigado pelo grande trabalho. Minha mulher fechou o CB-2000 em seu lugar. Ela amou e ele permanece fechado. Nós vivemos uma relação sólida agora e as viagens a negócio não são mais uma preocupação ou fonte de ciúmes”, Jean-Pierre, França.

“Não tenho palavras para dizer como estou feliz com o novo CB-2000 de John. Foi uma grande idéia enviar cinco anéis, porque nós finalmente encontramos um do tamanho certo que se encaixou perveitamente. Ele começou a usar na quinta-feira, quando ele chegou e não tivemos nenhum problema. Eu o deixei no aeroporto esta manhã. Eu sei que ele estará feliz por me ver de volta”, Mariah, Estados Unidos.

Obviamente, nestas duas últimas declarações se encontram grandes questões relativas ao surgimento e à praticidade dos dispositivos de castidade. A primeira diz respeito à desconfiança das esposas com relação às viagens ou mesmo ao que os maridos faziam entre o momento em que eles saíam de seus trabalhos e o instante em que chegavam em casa, período em que garantiam ter passado no bar com os amigos. Isso era comum naquela época.

A segunda questão era relativa a possíveis embaraços causados em aeroportos no momento em que um dispositivo desses poderia causar no detector de metal de um aeroporto: feito de plástico resistente e não de ligas de aço e afins, o CB-2000 foi um dos primeiros a evitar esses inconvenientes em uma época em que esse assunto não era exatamente uma banalidade como o é hoje. Acredite ou não, um cidadão que fosse flagrado em tal situação restritiva era, no mínimo, considerado incomum e os amigos passavam a vê-lo de uma forma um tanto diferente.

Em cinco anos, no entanto, o tema se disseminou e as mulheres passaram a ver possibilidades inovadoras nesses aparelhos. Além da garantia da fidelidade, eles tinham outras vantagens. Menos desgastado - fosse pela masturbação excessiva, fosse pela fadiga causada por uma possível amante -, o usuário inevitavelmente tornava-se mais potente. Por outro lado, se a dona das chaves preferisse - com a promessa da permissão de um orgasmo em uma ou duas semanas -, poderia conseguir o que quisesse de seu homem, fosse uma melhor execução do sexo oral, fosse um vestido novo.

De fato, pesquisas observaram que indivíduos mantidos em tais condições tornavam-se mais dóceis e capazes de dar prazer de outras formas a suas parceiras que não somente com o seu pênis e, assim, acabavam por se tornar amantes muito mais completos.

Nessa perspectiva e com o incentivo do mundo da moda - que criou versões e designs ainda mais arrojados e estéticos -, artistas famosos que admitiram usar esse tipo de aparelho e a aprovação da Igreja Católica - por equívoco -, o que era um fenômeno sutil e pulverizado pelo mundo, passou a ser uma febre. Foram necessários apenas mais cinco anos para que junto com as alianças, um a cada dois casais escolhessem também o seu dispositivo de castidade. Aos poucos eles se tornaram ainda mais leves e discretos. Para que chegassem a ser um símbolo de status, de acordo com sua atualidade, tecnologia e material empregado, levou muito pouco tempo.

Foi em 2020, no entanto, que, com o auxílio da nanotecnologia, a mesma empresa criadora do CB-2000, agora com uma diretoria formada exclusivamente por mulheres, criou a grande novidade. Tratava-se de um protótipo de dispositivo endovenoso de castidade. Descobriu-se a possibilidade do uso de nano-robôs - ou moléculas-inteligentes - serem colocadas na circulação masculina. Esses nano-robôs possuíam características físico-químicas específicas que os orientavam a se instalar em estruturas sexuais e glandulares, particularmente corpos cavernoso e esponjoso do pênis. Feito isso, a portadora do controle poderia comandar as suas funções sexuais do indivíduo, provocando ou frustrando ereções e orgasmos. Mesmo em uma versão rudimentar, se comparada ao que se tem hoje, a experiência com 72 casais voluntários foi um sucesso. A possibilidade da cura de disfunções eréteis também foi levantada e, como é feito hoje, desenvolvida plenamente.

Depois disso foram criados inclusive sistemas de segurança, como a obrigatoriedade da manutenção na empresa de uma cópia da freqüência e do código de controle. Assim passou-se a evitar casos de inutilização sexual em fins de relacionamento, como foi constatado durante os primeiros anos em que os kits passaram a ser vendidos. Agora não há mais o risco de que, em uma separação, uma mulher possivelmente ressentida destruísse o controle e as anotações das complexas senhas. Caso isso aconteça, o único empecilho para o homem é enfrentar uma pequena burocracia - isso depois da criação da Lei Casta, em 2068 - para desativar os nano-robôs ou para entregar o controle a outra mulher. Obviamente, ele não está autorizado sequer a tocar no aparelho ou a ter conhecimento dos algarismos que dão acesso ao seu funcionamento.

Eu e minha namorada, depois de muitas pesquisas entre as diversas marcas disponíveis no mercado, escolhemos o nosso sistema preferido - um que pode ser desligado, se for o caso, dando ao homem o eventual controle da situação. Amanhã vamos fazer a instalação. Hoje vou me masturbar pela última vez antes de entregar-lhe totalmente meu sexo ao seu comando.

(1) Claro que este é um texto de ficção. Mas os testemunhos são reais, retirados do site CB-2000 e livremente traduzidos. Os nomes e os locais não correspondem à realidade no entanto.

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