Como a fita não estava rebobinada, a primeira coisa que vi foi uma língua passeando por um tipo de pele que meus olhos nunca antes conheceram de tão perto, nem de longe, creio. Tão detalhadamente, surpreendeu-me aquela consistência macia do diálogo entre as mucosas rosadas. Sexo oral era duas plantas de carne que se movimentavam como se estivessem sob a água. A partir dos doze anos, quando assisti ao filme, embutida na vontade de conhecer o que seria minha boca entre as pernas de uma mulher, veio a vocação inequívoca e irrealizada para ser diretor de filmes de sexo explícito.

Uma das coisas que aprendi desde então é que indecente é a cara. Na verdade, trata-se de uma observação atribuída a Nelson Rodrigues. Mas, de fato, a vulgaridade maquiadíssima das atrizes constitui o que de mais fino há nos filmes pornográficos. Aqueles que privilegiam closes genitais resultam ritmicamente monótonos. Evidente a possibilidade de se usar apenas closes faciais. Resultados mais lascivos seriam facilmente obtidos.

Soube de um fotógrafo que a partir desses filmes produzia imagens de mulheres santas. Nos segundos do orgasmo, fingido ou não, ele registrava o momento em sua câmara. Separava apenas a face da madalena e, através de alguns truques fotográficos, transformava a devassidão em beatitude. Documentava, assim, a existência de uma tênue linha entre o êxtase religioso e o sexual. Ainda que um se atinja ao se exacerbar a sexualidade e outro ao retraí-la, difícil olhar para as imagens nas catedrais da mesma forma.

Mas isso foi depois. Nos tempos da catequese, as freirinhas ainda não faziam parte de meus segredos.

Filmes pornográficos costumam ser facilmente repudiados. Muitos são os argumentos, dos moralistas aos sociais. Transformam o sexo feminino em objeto, banalizam a sexualidade, fazem uma caricatura de algo que em uma mente mais romântica deveria ser exclusivamente poético.

Um sofisma
Vamos encarar as coisas da seguinte maneira. Nas artes cênicas existe o naturalismo, que procura, como sugere o nome, reproduzir o real com o máximo de naturalidade. Mas também existe, por exemplo, a Commedia dell’Arte, que se afasta da naturalidade para expressar o real de uma outra maneira. As duas formas de atuar têm a possibilidade de provocar reações diversas nos espectadores. Mas não quer dizer que os que preferiram a Commedia dell’Arte saiam por aí com máscaras, a imitar os salamaleques de Arlequino e Pantaleão, dois dos personagens mais recorrentes do gênero celebrizado por Goldoni. E, cá entre nós, nada mais explícito que aqueles narizes horrendos.

Admito, não convenci
Mas, finalmente, o repúdio. Nada a dizer aos que já estiverem a condenar-me com o abanar da cabeça. Somente que já vi curiosidades científicas a respeito do tema convertidas em entusiasmo lúbrico logo nas primeiras cenas.

Olhem só. Um cidadão que lê Drummond, Fernando Sabino e, sinceramente, se emociona, e que se deleita com a poesia dos romances de José Saramago, acha a voz de Chet Baker o máximo e Noite Transfigurada a mais bela música de todos os tempos, tem direito a ver um pornozinho de vez em quando, acompanhado ou não.

Mas, se ainda assim quiserem me condenar, ao menos dividam meu ônus com a Xuxa, os seus xortinhos apertados, suas botinhas lascivas e suas paquitas sorridentes.

Uma história
Aos 17 anos fui a um cinema pornô na Praça Rui Barbosa, destes em que sentar em qualquer das poltronas é um gesto arriscado. Como em todo cinema pornô, claro. Para os que não tiveram a pitoresca oportunidade de visitar este tipo de lugar, hoje em extinção, descrevo. As sessões eram corridas, isto é, dois filmes intercalavam-se sem intervalos a partir do meio-dia. A sala, portanto, sempre escura, era o lugar ideal para prostitutas e michês em seus encontros nada pudicos de ocasião. Lugares como esse devem ter sido a motivação para o inventor do vídeo-cassete e a posterior migração dos filmes de sexo explícito da grande tela para os quartos das casas de família.

Se eu pudesse hoje advertir aquele jovem de 17 anos, diria a ele para que não fosse ao banheiro. No entanto, não o fiz, pois não estava lá. Logo, ele foi ao banheiro. Onde deparou com olhares atentos de homens a observar cada uma de suas ações. E que ficaram sem rosto, encobertos pela vista incrivelmente superficial e oblíqua das vítimas de intimidamento. E, sem rosto, ganharam feições monstruosas.

Que nada. Apenas um exagero dramático.

Sentei-me ao lado de meu tio que, soube mais tarde, levara uma meia velha, da qual fez discreto uso a fim de não ficar sujo. Eu, pouco experiente nesses assuntos, não portava meia nenhuma e fiquei quieto no meu canto enquanto a fita era exibida. Realmente, nem me passou pela cabeça e seria esquisito abrir o zíper em um lugar que não fosse o banheiro. Aposento, aliás, ao qual não pretendia voltar. Ainda que tivesse que urinar nas calças não pretendia enfrentar novamente as feições monstruosas.

Que nada. Apenas um exagero dramático.

Achei estranho quando, com tantos lugares vagos, um sujeito sentou justamente ao meu lado. A mão furtiva sobre o braço da poltrona estendia o dedo mínimo em direção à minha perna, visivelmente com intenção de contagiar suas outras extensões digitais com o movimento. Infelizmente eu não portava nenhum machado. Nem uma meia velha eu havia trazido, quanto mais qualquer objeto afiado o suficiente para suprimir-lhe o dedo miúdo. Imagino como iria se virar em suas abordagens sem ele. Mudei de lugar e comentei a história com meu tio, que deu risada. Eu até então nunca tinha visto um tarado de perto.

Dos dois filmes, só consigo lembrar de um deles. Era a história de uma tímida japonesa que herdava de um tio radicado nos Estados Unidos o que ela imaginava ser um hotel. Ao chegar no lugar que deveria administrar, descobre tratar-se de um bordel. Uma loira lhe conta toda a história e lhe explica as coisas. Ela escuta, relutante. A loira se aproxima e beija a garota na boca que, então, fica entre indignada e assustada. Então, a outra vinha com uma conversa mole muito sedutora que, não lembro em que termos, acaba por convencer a japonesinha de que aquilo tudo pode ser interessante, lucrativo e, por que não?, prazeroso. A cena tocou em outro tema caro, a sedução e a transformação da inocência naquilo que as mentes mais moralistas chamariam de perversidade.

Houve um filme, do qual não recordo o nome, na minha infância, em que fadas boas enfrentavam bruxas malvadas. Uma bobagem, enfim. Mas há o o auge da coisa. O momento de tensão acontecia quando a heroína era, graças a uma mágica malévola, transformada em uma integrante do bando do mal. Continuava bela, mas de outra forma, uma forma que confesso, me atraía.

Em A Lenda, filme típico dos anos 80, lamentei quando a princesinha tornou-se boa novamente.

Mas o tema vem de mais longe. Basta ler Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade, para entender o que eu quero dizer.

Isso me faz acreditar que se pode fazer um filme pornográfico sem nenhuma cena de sexo, mas apenas com as de sedução. Dirão alguns que, então, seria um filme erótico. Eu contra-argumento dizendo não haver nada mais pornográfico, no entanto, que a sedução. Por vezes as intenções que precedem qualquer ato são mais eloqüentes e explícitas que o próprio ato. Por isso, penetrações e quetais eu deixaria para os amadores e para os momentos menos profundos de minha produção cinematográfica.

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