Bárbara ajeitou o lençol uma última vez. Talvez faltasse alguma coisa. Mas estava tudo ali, como sempre. Os brinquedinhos eróticos, lubrificantes, filmes pornôs para todos os gostos. Receber casais sempre lhe dava essa sensação de que faltava alguma coisa. Não que fosse raro. Era apenas bem menos comum do que homens sozinhos. Mas sempre sentia-se assim.

Raro mesmo era receber mulheres. Ou homens em dupla. Ou uma dupla de mulheres. Aí estava algo que nunca tinha visto.

Olhou pela janela. Colocou a cabeça para fora. Lá embaixo os carros se espremiam pelas ruas. Um meio de tarde nublado, quente, que prenunciava chuva. Eles marcaram para as quatro. Tomara fossem pontuais.

O elevador
Ele e ela cumprimentaram o porteiro, discretamente. Sem saber muito bem como agir, ele achou melhor se anunciar.

- Viemos encontrar com a Bárbara.

Mas o sujeito certamente já sabia dos esquemas da moradora, pois nem interfonou. Indicou o elevador tão somente. Talvez para que o cliente soubesse que, nas próximas vezes, não seria necessário tal protocolo.

- Décimo segundo - disse - No apartamento 1203.

Ela por sua vez não sentiu sua privacidade devassada, pois aquele cara sentado atrás do balcão, guarnecido por três telas de circuito fechado de tevê, pelo menos para sua vida não era ninguém. Ela, para ele, também não era ninguém.

Chegaram adiantados. A tarde abafada fazia com que os dois suassem um pouco.

Ela mesma apertou o botão e ainda outras duas vezes como se isso fizesse com que o elevador, lento, andasse mais rápido. A porta se abriu e os dois entraram.

Carreira
Bárbara chamava-se Luísa. Também atendia por Helen. No site anunciava-se, entre tantas outras garotas, por estes dois nomes. Bárbara para programas comuns e Helen para aqueles que envolvessem fetiches, dominação e afins. Isso ajudava na hora de atender o telefone, um celular que comprara só para esse fim. Se o cara quisesse falar com Bárbara ela, desde aquele momento, vestia-se desse personagem. Se o cara quisesse falar com Helen, paramentava o espírito de botas e chicotinho.

Começou com essa vertente da dominação aos 23 anos. Nessa idade uma prostituta tem vasta experiência. Quatro ou até cinco anos no ramo dão um enorme conhecimento da psicologia masculina, mais do que qualquer faculdade poderia. Então, alguém na agência sugeriu que ela atendesse também os clientes com essas predileções. Dois anos nisso, tomou gosto. Tomou gosto desde a primeira vez.

Fazia papel de submissa se fosse o caso. Mas não gostava.

Porém, para os dois que já estavam para chegar ela seria Bárbara.

Faça-se a luz
Assim que se viram sozinhos no cubículo rodeado de espelhos ela apertou o doze.

- Será que ela é bonita como na fotografia do site? - disse ela.

- Acho que sim. Mas nessas fotografias elas sempre fazem uma produção especial e tal. - ele procurou mostrar conhecimento de causa - Mas deve ser bonita sim.

- Tomara.

- … - olhou-a e ajeitou-se dentro da roupa.

- Você está louco pra me ver chupar uma bucetinha… eu sei… - e, para dizer isso, ela buscou um tom de desafio na voz. Um tom que misturava uma insolência libidinosa e o seu próprio desejo. Ela já tinha chupado bucetinhas antes, na adolescência. Embora a experiência toda tivesse sido boa, não se interessou. Sempre achou homens mais excitantes. Agora, porém, a perspectiva era uma novidade, pois faria isso com uma mulher tão somente para vê-lo louco. Só isso bastaria como motivação, mas a experiência com uma mulher não deixava de ser tentadora em si, a oportunidade disponível, acessível.

Ele ia responder que sim. Mas nesse instante um baque, um som seco seguido de um engasgo, e o elevador estava preso entre os andares. Lá fora um relâmpago cortara a energia elétrica. No escuro do pequeno elevador, o que era uma imensa expectativa transformou-se, de um segundo para o outro, em uma pequena decepção.

Começou a chover. Forte.

Ã? luz de velas
Pensou que os dois, agora, iriam demorar um pouco mais. Esperariam a chuva passar e então viriam. Provavelmente ligariam para avisar do atraso. Tudo bem. Só tinha eles para essa tarde e, com esse temporal, não haveria outros clientes tão cedo.

Ficou tão escuro que, naquela hora mesmo, Bárbara - ou Helen ou Luísa - precisou acender uma vela. O quarto, com um espelho que cobria totalmente uma das paredes, ficava meio fantasmagórico com aquilo. Qualquer lugar fica meio fantasmagórico desse jeito.

Detestava, por isso, jantares a luz de velas. Não só por isso. Mas existe todo um estereótipo de que certas coisas são românticas. Sempre que um homem quer ser romântico adota certos comportamentos, como se não houvesse outras maneiras. Não existem homens menos românticos do que os que tentam ser românticos. Eles ficam todos afetados nessas situações e até suas vozes ficam diferentes. �nsia de vômito é o que ela sentia.

Detestava ganhar flores.

E agora?
- Será que demora voltar a luz? - ela perguntou.

- Não sei. Acho que vai ser rápido. Aperta o botão de emergência.

Ela, sem ver nada, tateou e experimentou todos os botões. Os mais de baixo, onde deveria estar o que acionaria a campainha salvadora. Tentou acioná-los várias vezes. Sem resultado. Defeito.

- Não acredito - disse ele rindo, para quebrar a tensão momentânea.

- Nem eu - concordou ela, numa mistura de suspiro e sorriso - Se eu fosse religiosa, diria que isso é castigo divino.

- Olha. Ã? melhor eu ligar para ela. Para avisar o que está acontecendo - ele tirou o celular do bolso e uma luz azul abençoou-lhe o rosto. Contemplou as teclas alguns segundos, apertou alguns botões e desistiu - O telefone dela não está aqui. Eu liguei de casa, a partir do número que estava na internet… se tivesse ligado do celular, teria ficado registrado… mas não… e agora?

Resignados, os dois escorreram para o chão, simultaneamente. Na escuridão, o som dos tecidos a deslizar pelo espelho, pés e pernas a se ajeitar.

- O jeito é esperar. - disse um dos dois.

Vontade
Bárbara sentia muita falta do cheiro da terra quando a chuva começava a cair depois de muito tempo. Em Curitiba, no verão, uma chuva dessas depois de algumas semanas de seca, fazia levantar um odor desagradável de pó. As ruas ficavam lisas e os números de acidentes aumentavam. Sentia falta também do cheiro do começo da manhã e dos fins de tarde causados pelas chaminés dos fogões a lenha. Foi tomada por uma nostalgia que não combinava com toda a sacanagem prometida para a seguir. Naquele momento, dispensaria o dinheiro que iria ganhar. Queria só ficar deitada naquela cama a ouvir a água caindo. De olhos fechados, a lembrar do ipê roxo que havia na frente de sua casa e da voz da avó que chamava para tomar café com bolinhos. Ela era puta. Mas foi criança um dia.

Tinha muita dificuldade para mudar o foco do pensamento dessa doce melancolia para a sintonia necessária a uma boa foda.

Não que não gostasse, e muito, de fodas.

Então
Então ela sentiu a perna dele roçar a dela. E ele sentiu a perna dele roçar a dele. Estava quente. Escuro naquele cubículo apertado. Tão cedo a luz não voltaria. E os dois não pensaram em nada. Estava tudo na cara.

Satisfação
De repente, uma hora depois, ou mais, a energia elétrica retornaria. Sem notícias dos dois, Bárbara abriu os olhos novamente e continuou com suas ocupações. Decidiu esquecer aquele programa. Na certa, ligariam mais tarde para marcar para outro dia. Arrumou a cama novamente, desta vez para quando fosse dormir e preparou-se para tomar um banho.

Quando sob a porta de entrada de seu apartamento ela viu.

Cento e cinqüenta reais. Três notas graúdas muito satisfeitas tinham deslizado pela fresta.

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  • Alessandro Martins