A experiência de ter um piercing no pau foi enriquecedora, mas o inconsciente segue caminhos muito mais sábios do que o consciente, que se acha tão esperto (pelo menos na hora de escolher a cor das cuecas e de assoviar a Bachiana Número Cinco). E, por isso, agora estou sem o tal piercing.

Acontece que, passado um mês com o brinco, nele - em mim, portanto - havia alguma urgência em tomar alguma, chamemos assim, atitude. Porém, essa, chamemos assim, atitude, tinha que ser tomada com algo que ia um pouco além da delicadeza com que atualmente me munia nessas ocasiões. Delicadeza insuficiente para evitar algum incômodo para meu pau e para mim.

Mais adiante eu falo sobre essa história de nós homens tratarmos o órgão sexual como uma segunda pessoa.

Durante a semana que passou, descobri que poderia tirar o piercing durante alguns instantes e recolocá-lo sem dificuldades. Não deixei de ficar bastante satisfeito com minha nova habilidade. Resolvi perguntar ao body piercer se, afinal, havia algum problema em retirá-lo nestes primeiros meses de adaptação nas ocasiões em que eu fosse  tomar alguma, chamemos assim, atitude. Pensei em explicar a ele que, habitualmente gosto de atitudes vigorosas, cheias de movimentações, ritmos fortes porém virtuosos e, também, de mudanças e viradas impetuosas. Algo mais para quinta de Beethoven que para Bachiana Número Cinco. Coisa que, no momento, o piercing, em seu devido lugar, me impedia.

Mas preferi não entrar nos detalhes.

O sujeito me explicou que, sim, eu poderia tirar o piercing, mas por apenas alguns minutos. De outra forma, a perfuração iria se fechar.

- Depois de bem cicatrizada, você pode ficar um dia ou mais sem ele sem que haja problema.

Fiz meus testes durante o banho. Durante meia-hora até. E, em todas as vezes, conseguia recolocar a jóia.

Antes, porém, que eu conte como isso terminou, é necessário citar o aprendizado que obtive sobre o comportamento humano, sobre mim e sobre meu pau nessas semanas em que ele esteve enfeitado com uma argola de aço cirúrgico.

Nós todos nos consideramos pessoas racionais. Eu sou muito racional. No entanto, entendi que a sexualidade fala muito forte a ponto de termos reações físicas e emocionais muito mais próximas do animal. Compreender isso, não é admitir uma fraqueza, mas adquirir mais conhecimento sobre si e, portanto, mais força.

Embora eu soubesse da necessidade de proteger a cicatrização de infecções e agressões causadas por pressões e movimentações excessivas, sobretudo nos primeiros 30 dias, logo na segunda semana, houve um impasse. Era sabido de ambas as partes da necessidade do, digamos, resguardo, mas carícias alternativas não se mostraram suficientes e, ao menos duas vezes, foi necessária a tomada de, chamemos assim, uma atitude, ainda que fosse uma atitude um tanto quanto estática. Para mostrar a ambos que, sim, estávamos ali, presentes. Um dentro do outro. Os animais que existem dentro da gente precisavam saber e, aparentemente, só havia essa forma de mostrar.

Você pode estar a imaginar o que isso tem a ensinar a respeito de relacionamentos. Para mim quer dizer que, se você tem um, preste muita atenção no quesito “sexo”. Carinho, atenção, dedicação e similares são sim importantes,  mas se você apresentar algum problema no que diz respeito ao desejo, os animais que há dentro de vocês dois - ou três, ou quatro, de acordo com a natureza da relação - vai começar a se sentir negligenciado e de mau humor, vai cobrar acontecimentos e não sossegará enquanto algo não acontecer. Será capaz inclusive de destruir o que há de carinho, atenção e dedicação. Importante não esquecer a natureza animal de um homem e de uma mulher. Temos pêlos, temos mamas, sexos - que diferentes dos das outras espécies não são feitos exclusivamente para a reprodução. Portanto, se há problemas nesse item, tome providências, não importa quais sejam elas.

Bem. Isso sem falar nos primeiros dias em que ele, o pênis, se mostrou mais incomodado com aquilo e eu tive uma pálida idéia do que, a partir do humor que se propagava do epicentro de minha virilha, seria uma tensão pré-menstrual. Nada estava bom, qualquer coisinha era uma tragédia. O mundo meio que perdia as cores nessas horas.

Na verdade, nunca me senti tão só com minha própria liberdade quanto no momento em que, pouco após a perfuração, eu sangrava no banheiro e deixava o chão do box vermelho com a mistura entre sangue e água. Eu não correria, não iria ao hospital, não chamaria pai, não chamaria mãe. Ficaria ali a escorrer, solitário com minha decisão e minha suprema autonomia de fazer o que quisesse com meu pinto, inclusive atravessá-lo de um lado ao outro.

Passados 30 dias com o piercing, notei que ainda era difícil uma movimentação mais vigorosa na hora de tomar, chamemos assim, atitudes. Eu e ela tivemos que ter mais paciência.

Até que, depois de dias, finalmente descobri a história de poder tirar e recolocar o brinco.

Resolvi continuar então essas experiências. Foi quando, acredito, fiquei tempo demais sem a jóia. Então me vi no banho a cutucar meu pau com uma argola de quatro milímetros de espessura sem conseguir atravessá-lo mais uma vez. Parece que diversas crises de minha vida acontecem debaixo da água.

Tentei a operação por diversas vezes. E, então, lembrei da história de nós homens tratarmos o pênis como uma segunda pessoa.

- Ele para lá.

- Ele para cá.

- Ele é impetuoso.

- Ele é cheio das vontades.

- Ele não está de muito bom humor hoje

- Ele precisa de uma nova cor de cueca

- Ele precisa assoviar a Bachiana Número Cinco.

Muitos de nós chegam a batizar o júnior. Joãozinho, Zelzinho, Amigão e tantos outros. O meu, devo dizer, não tem nome. � pagão o danado.

Foi quando, debaixo do chuveiro, coloquei-me no lugar dele. Se alguém estivesse a tentar perfurar minha cabeça daquele jeito, eu gostaria? Acho que não. Era assim que eu demonstrava o carinho por ele, que tantas alegrias me deu e me dá? Tive uma conversa séria e o resumo dela foi que nunca mais ele teria que passar por aquilo.

Eu, na adolescência, sempre me senti inadequado, como todo adolescente. Como sempre usava moletons, hoje na vida adulta considero essa peça de roupa um tanto inadequada também. Por isso, as evito. O piercing para ele era como um moleton.

Ele estava se sentindo inadequado, privado de suas atividades mais felizes. E eu entendi a mensagem que ele passava para mim naquele instante.

Então, sem maiores dramas, coloquei a argola sobre a pia do banheiro e fui dormir.

Eu feliz e ele, ainda bonitão, agora sem brinco.

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