Então o cara olhou para o chão do box e viu aquele líquido vermelho, mistura de água e sangue. Percebeu que seu pau ainda pingava algumas gotas que, ao tocar os azulejos, faziam desenhos abstratos bastante interessantes.

- Merda. Acho que vou morrer de hemorragia até o amanhecer.

Exagero, claro. Mas quando o chão do box do banheiro está coberto com algo que lembra muito aquelas cenas de matanças de baleias e golfinhos, ainda que em menor escala, começa-se a pensar nessas coisas.

Isso além de que, no lixo, já estavam as gazes com que o body-piercer embalou a coisa toda, junto com as luvas de borracha com que envolveu tudo aquilo a fim de que a hemorragia não manchasse as calças do cliente. Esse material, portanto, no cestinho, empapado naquilo que a medula óssea teve tanto trabalho para fabricar.

Saiu do banho e o pinto ainda respingava.

- Merda. Acho que vou morrer de hemorragia em dez minutos.

Envolveu tudo com uma cueca velha branca. Velha, porém limpa. Vestiu uma outra por cima do curativo improvisado. E foi para sala pensar em outra coisa.

Certa vez, o cara sonhou que teve a garganta cortada. Foi uma sensação muito clara, no sonho. Não tanto a dor da carne rompida pela lâminha, no pescoço. Mas aquele torpor que fez com que seus joelhos se dobrassem e ele caísse sentado em uma poltrona, sem forças, a perguntar o porquê ao assassino, e sentir a lassidão angustiante da morte, enquanto se esvaía. Como se a vida murchasse.

Verificou se havia essa sensação naquele momento. Não.

- Talvez eu sobreviva.

Colocar um piercing no pau é algo assim. No caso da modalidade conhecida como príncipe albert há algumas particularidades. Este tipo de piercing consiste em uma argola que entra pela uretra e sai pela parte frontal inferior da glande. Para saber a medida mínima do diâmetro da argola, o body piercer, usualmente, precisa medir o pênis ereto do cliente, a fim de que a jóia não estrangule a glande durante as ereções. Outra característica é que quem recebe o piercing precisa urinar sentado durante um tempo até que aprenda a controlar as novas e aleatóreas direções em que o jato de urina insiste em sair.

Porém, o body piercer garantiu que não precisava medir. Iria colocar uma argola com medidas mais que suficientes para que não desse problema algum.

Nesse momento, o cara concluiu que nunca tinha visto uma agulha - na verdade, um catéter - de quatro milímetros de espessura. Foi o que ele pensou ter observado sobre a mesa dos equipamentos que seriam usados. Depois disso, deitou-se na maca e tentou relaxar como sempre fazia quando deparava agulhas com quatro milímetros de espessura. Eu já disse que ele nunca tinha ficado frente a frente com coisas assim?

O sujeito começou a fazer a limpeza do lugar a ser perfurado. Iniciou pela glande. Passou um líquido, talvez álcool, mas provavelmente não. O ardor, no entanto, era de álcool. Não contente com a prudente e minuciosa limpeza que fez por fora, enfiou um cotonete dentro da uretra com o mesmo produto. Segundos intermináveis. Depois, outro cotonete, para garantir uma assepsia completa.

Aí, o furo. De fora para dentro. A agulha, oca, passa até encontrar o canal uretral. Nesse tubo é colocada a jóia. Tira-se o catéter e já está. Encaixa-se a esfera que fecha o anel e pronto.

Não vou descrever a sensação, para não cair em lugares comuns. Basta dizer que, perto daquilo, a colocação dos piercings nos mamilos, que o cara já tinha, foi indolor.

Ele verificou que o furo só doeu para ser feito. Depois apenas uma sensação de estranhamento, de cuidado para andar. Pegou um táxi, passou na farmácia para comprar sabonete líquido anti-séptico e foi para casa, onde ficou. As recomendações: limpeza duas vezes por dia, muita água - para urinar bastante - e vitamina c para ajudar na cicatrização.

Ansioso esperou até as 22 horas, momento recomentado pelo body-piercer para retirada do curativo. Tirou. E foi aquilo. Matança de baleias e golfinhos.

No dia seguinte, verificou que não havia morrido. Percebeu também que a hemorragia havia diminuído bastante, praticamente parado. Gostou do resultado. Usou os pensamentos para provocar uma ereção. Achou bonito.

Bonito.

Mas lembrou que teria de dar um mês de férias ao bonitão. Bonitão, como sempre, e, agora, de brinco.

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