Antes de você começar a ler a história propriamente dita, preciso dizer que ela é antiga, apenas a tinha tirado do ar. Apenas mudei alguns nomes que preferem não ser identificados. A reedição tem alguns motivos. Uma tarde quente cheia de trabalho no jornal e uma estratégia de ficar com uma crônica na manga e dar tempo para o trabalho de um eventual ilustrador. Então vamos à história.

Alessandro diz:
Então… minha ex-namorada é “garota de programa”…

Rubra diz:
Sério?

Rubra diz:
Então acho que posso contar um negócio que eu e meu marido vamos abrir aqui em Curitiba…

Rubra diz:
Vamos começar no ramo de prostituição masculina… tipo garotos para senhoras…

Rubra diz:
O que acha? Quer entrar nisso? Acho que você tem o perfil…

Alessandro diz:
… na verdade eu quis dizer que minha namorada trabalha com informática.

Alessandro diz:
… ela faz programas de computador…

Alessandro diz:
… eu tinha dito antes… achei que já soubesse…

Eu teclava com Rubra há algum tempo. Uns dois meses mais ou menos. Não lembro como ela me adicionou na sua lista de contatos ou se fui eu que o fiz. O fato é que nunca tínhamos conversado sobre assuntos muito íntimos. Banalidades. No máximo, ela mostrou-me algumas coisas que havia escrito. Contos curtos sobre vampiros, vampiras e afins. Era fã da personagem Vampirella.

Eu não quis que a situação ficasse chata. Então mostrei que por mim tudo bem ela estar nesse ramo da economia.

Alessandro diz:
Mas fale mais sobre isso de… garotos para senhoras… esse assunto me interessa…

Alessandro diz:
… você disse que eu tenho o perfil… diga mais…

O deslize atiçou-me a curiosidade realmente. Sou do tipo que não deixa de dar satisfações a esse tipo de impulso. Quis mais informações, claro.

Mais tarde eu soube que ela já tinha cuidado de uma casa de prostituição feminina. Explicou-me que era muito complicado. Ela e o marido acreditavam que trabalhar com homens poderia ser muito mais simples, pelo menos enquanto a discrição do negócio escapasse dos pedidos de propina da polícia e outros tipos de taxas informais.

Rubra diz:
Caras são menos complicados.

Rubra diz:
Já temos até lugar…

Rubra diz:
Vai ser num apê antigo do Centro. Vão ser lá os encontros.

Rubra diz:
Os maridos executivos e brochas viajam com seu stress e as madames vão relaxar.

Para mim, pareceu um negócio simples, na verdade. Comecei a me interessar. Você sabe. Nenhuma profissão é indigna desde que se ganhe bem e tenha-se apreço pelo que se faz. É claro que fiquei preocupado se afinal o serviço seria apenas para mulheres. Nada contra, mas ao contrário deles sempre achei que trabalhar com mulheres fosse menos complicado que trabalhar com homens. Tanto que, como amador, até hoje só trabalhei com mulheres.

Eu estava com ela - a minha ex-namorada que era “garota de programa” - em outra janela do Messenger. Expliquei que estava prestes a aceitar aquele trabalho para as horas vagas. Entende, não? Um homem precisa ter um passatempo. Melhor ainda se ele for bem remunerado.

A garota diz:
Putoooooo!

Lisonjeado, resolvi perguntar sobre aquele detalhe para Rubra.

Alessandro diz:
E eu só vou….

Resolvi corrigir antes de dar o enter.

Alesandro diz:
E os caras só vão trabalhar com mulheres? É isso?

Rubra diz:
Isso. Queremos nos especializar.

Ela ainda não tinha respondido sobre a história do perfil, que eu me enquadrava nele e tal. Por algum motivo ela se abriu tão rapidamente comigo, a ponto de nem ter percebido que eu tinha dito muito tempo antes durante a conversa que a minha ex-namorada era programadora. Ela deve ter acreditado que eu, tendo me relacionado com alguém que ela acreditou ter sido puta, não tinha qualquer preconceito quanto ao assunto. Também já devia estar atrás de caras há algum tempo. O marido de Rubra havia deixado o emprego. Com o dinheiro do fundo de garantia, que não tinha sido pouco, começaram a planejar a história toda. A coisa estava em vias de sair. Mas ainda assim achei que foi excessivamente impetuosa quando teve a oportunidade de tocar no assunto comigo.

Alessandro diz:
Você disse que eu poderia trabalhar com vocês?

Rubra diz:
Pois é. Acho que sim.

Rubra diz:
Tem uma aparência legal e tal…

Não lembro onde ela poderia ter visto uma foto minha. Talvez no meu blog ou no meu livejournal. Não importava. Ela explicou-me que além de carecas estarem na moda, havia gosto para tudo, fãs de Yul Brinner e daquele cara que fazia o Kojak. Achei esses atores meio velhos - acho que os dois estão até mortos - e tentei sugerir um mais recente. O Bruce Willis, por exemplo. Mas Rubra fez questão de salientar que no caso de acompanhantes para mulheres o importante era um bom papo, uma presença agradável, uma personalidade assim e assada, mais até do que aparência física. E ela achava que isso eu tinha. Resolvi falar que achei que ela tinha sido rápida comigo.

Rubra diz:
É que achei você legal.

Rubra diz:
É com gente assim que queremos trabalhar. Você é jornalista…

Rubra diz:
Tem cultura…

Rubra diz:
Boa procedência… assim não tem como dar errado…

Comecei a ver aquilo como uma perspectiva verdadeira. De repente, no meio da tarde, o celular toca e é Rubra, que avisa que no tal apartamento uma loira colunável da sociedade curitibana quer conhecer minha personalidade assim e assada. Dinheiro bom, dinheiro agradável, dinheiro fácil.

Por outro lado, começou a se desenhar um esboço de situações pouco interessantes. Era bem possível que uma boa parte dessas mulheres não fosse exatamente o meu tipo. Na verdade, considerei o fato de que algumas pudessem ser nada interessantes ou bonitas ou sexys. Uma parte da grana certamente seria gasta com Viagra. Não dava para arriscar. No caso das mulheres dessa profissão, basta fingir um pouco, afinal não é todo homem que vai fazê-las ter tesão. Acredito que, na maior parte dos casos, é o que acontece e isso é meio complicado, mas, de fato, basta fingir um pouco. Mas no caso dos homens, não há como fingir.

Rubra diz:
… a gente quer trabalhar com o melhor público…

Rubra diz:
… só com bucetinha cheirosa… você vai adorar!

Era a primeira vez que, em nossas conversas via Messenger, ela falava um palavrão. Confesso que aquilo me deixou de pau duro. Dinheiro bom, agradável, fácil, assim e assado e bucetinhas cheirosas. Muito, muito, muito tentador.

Ainda assim, foi inevitável pensar com o tipo de gente que eu me envolveria. Não há como garantir que eles só trabalhariam com pessoas, como ela disse, de boa procedência. Na verdade, eu ficaria feliz em saber que só havia gente com a sanidade mental em dia nesse tipo de negócio.

Foi muito rápido, mas também imaginei a chegada de um marido revoltado naquele apartamento. Pensei em um apê próximo a praça Carlos Gomes, não sei por quê. Assim, foi inevitável inventar a cena em que eu tentava convencê-lo a não me matar, tendo como trilha sonora a abertura de O Guarani. Tudo muito patético, mas eu acabava, de qualquer forma, morto. Bem morto. É ridículo, mas sempre que tomamos determinadas decisões abrimos um leque de conseqüências que podem ou não acontecer. O improvável se torna uma possibilidade. É insanidade não encarar isso. Portanto, ao enxergar de perto essa nova possibilidade, decidi parar de me abanar com o tal leque de conseqüências.

Alessandro diz:
Tenho uma reunião agora, Rubra…

Alessandro diz:
Amanhã a gente conversa mais sobre isso…

Coincidência ou não, nunca mais a encontrei on-line. Não faço a menor idéia sobre se o negócio dela vingou. Naquele mesmo dia, no entanto, ela me disse que as loiras colunáveis da sociedade curitibana e os seus maridos executivos brochas vingaram, vingam e vingarão. Mercado há.

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