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<title>O Salamandra</title>
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<copyright>Copyright 2005</copyright>
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<title>E o &quot;au-au&quot;?</title>
<description><![CDATA[Estava segurando a porta do elevador enquanto a mãe buscava a criança na escada do prédio. A mãe em questão não era a minha. Na verdade, apenas uma simpática vizinha com quem divido umas viagens de elevador. Eu estava segurando a porta enquanto ela pegava sua filhinha pequena.<BR><BR>Por fim, entrou com a criança no colo e começamos a viagem. Na distância que separa o 13º andar até o térreo, conversávamos qualquer coisa até que a mãe segura a mãozinha da criança e diz:<BR><BR>- Pergunta pro titio o que aconteceu com o "au-au".<BR><BR>O "titio" no caso era eu.<BR><BR>- Que acon... o "au-au"? - repetiu a menina com aquela vozinha de criança.<BR><BR>A frase não saiu perfeita. Também pudera, a menininha era bem pequena. Devia ter aprendido a falar há pouco tempo, estava naquela fase em que tudo que diz soa engraçado. Não sei exatamente quando é isso, aliás, no que diz respeito a idades de crianças eu realmente me perco por completo. Saber a diferença entre recém-nascido e pré-adolescente, por exemplo, é claro que eu sei. No primeiro caso eles aparecem recobertos de sangue, o que ajuda na diferenciação, mas saber distinguir as idades intermediárias sempre foi um problema.<BR><BR>Uma vez&nbsp;minha mãe disse uma coisa interessante. Que quando somos criança sabe-se distinguir facilmente quem é mais velho de quem é mais novo que a gente. Podemos estar numa festa repleta de crianças que a gente consegue separar os pequenininhos das crianças mais velhas. Depois que ficamos velhos parece que as crianças todas são jogadas dentro do mesmo balaio. Pode ter 10 meses ou 10 anos que iremos tratar sempre da mesma forma, isto é, apertando a bochecha e falando "Coisinha linda do titio!".<BR><BR>- Que acon... com o "au-au"? - a garota voltou a perguntar.<BR><BR>Mesmo não sendo muito fã de criancinhas, tenho que convir que elas conseguem ser bem engraçadinhas às vezes. Pelo jeito que já ensaiava as frases, ela devia ter seus&nbsp;dois anos, não sei. Talvez mais, aliás, com certeza mais. Com&nbsp;dois anos as crianças ainda devem estar na chupeta e sujando fraudas, falar deve ser uma coisa que só aprendem bem depois. Na escola elas só entram com uns&nbsp;cinco anos, certo? Se começassem a falar com os&nbsp;dois anos, enlouqueceriam a família por&nbsp;três anos. "Eu quero isso, quero aquilo. Não gostei disso. Não quero cenoura, cadê o chocolate?", o dia inteiro.<BR><BR>- "Au-au" - a menina interrompeu meus pensamentos.<BR><BR>- O "au-au"? - perguntei bobamente.<BR><BR>- Sim, o "au-au" do titio - confirmou a mãe, vendo minha dificuldade em responder.<BR><BR>Ah sim, como poderia me esquecer, para a garota eu era o titio. E olhe que eu já fui muita coisa, mas tio é uma coisa que ainda não consegui. Para a menina, eu era um titio como tantos outros, a única coisa que eu tinha que chamava atenção da garota era o "au-au".<BR><BR>"Au-au" não era bem o nome dele, mas taí uma denominação não estava muito longe do que ele representava. O "au-au" era o Quincas, o caçula de quatro patas da casa. Dentre a dezena de apelidos que ele já ganhou em sua existência, "au-au" ele ainda não conhecia. Só podia ter vindo da criança da vizinha, que não deve tê-lo visto muitas vezes, mas com certeza o ouviu muitas tantas latindo aqui em casa.<BR><BR>- Poxa vida - abri o jogo -, é que o "au-au" não está mais com a gente...<BR><BR>- Mas por quê? - estranhou a vizinha.<BR><BR>- Sabe como é, ele não se adaptou. Um cachorro sozinho no apartamento, a gente ficava um tempão fora de casa...<BR><BR>- Que pena... <BR><BR>- Nem fale - desabafei no momento que a viagem chegava ao fim..<BR><BR>- É que quando a gente se acostuma é difícil, né? <BR><BR>A porta se abriu e nos separamos, eu para o terminal pegar o ônibus, ela carregando&nbsp;a filha até a garagem. Não precisa dizer que a lembrança do Quincas ficou martelando na minha cabeça o dia inteiro. Eu realmente sentia muita falta daquele menino de 4 patas, mas cachorro em apartamento era uma coisa inviável, estava certo de que fizemos o melhor para ambos. <BR><BR>- Alô, é do Pet Shop?<BR><BR>Mas para tudo na vida, sempre há uma última saída, uma forma de conciliar as coisas, uma maneira deixar tudo no lugar. Pode até dar um pouco mais de trabalho, mas para quem quer chegar a uma solução nada é impossível.<BR><BR>- Eu já comprei um cãozinho de vocês e estaria interessado agora em comprar uma criança.<BR><BR>- Uma criança?<BR><BR>- É sim, pode ser um menino desses de 2 patas... ]]></description>
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<pubDate>Fri, 24 Jun 2005 10:08:25 -0300</pubDate>
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<title>Refeições baratas</title>
<description><![CDATA[<IMG style="WIDTH: 350px; HEIGHT: 212px" height=212 alt="Nham, nham, nham!" hspace=5 src="http://www.cracatoa.com.br/2005/salamandra/archives/hotdog.jpg" width=350 align=right vspace=5 border=0> 
<P>Algumas pessoas podem me chamar de louco, outras de corajoso, mas fato é que eu adoro me esbaldar nos cachorros-quentes do centro da cidade. Vocês sabem, aqueles cachorros-quentes cujos estabelecimentos só abrem à noite, inexistindo durante o dia. A partir de uma determinada hora, onde antes não havia nada, de repente, surge um carrinho de cachorros-quentes. É desse tipo de comida que estou falando. </P>
<P>Esse hábito eu adquiri há pouco tempo, quando os horários apertados e os compromissos noturnos diminuíram minha freqüência em casa para o jantar, a solução passou a ser comer pelo caminho. Foi então que os cachorros-quentes ganharam uma posição de destaque nas minhas refeições.</P>
<P>Passada a resistência inicial que tinha àquele ramo culinário, resolvi um dia experimentar. Lembro-me do momento em que a fome me trouxe a uma determinada praça do centro da cidade. Sentia as forças do corpo se exaurindo a cada passo e, quando dei por mim, estava esperando o preparo do cachorro-quente. Pouco depois, o senhor estendeu o braço me passando o precioso alimento.</P>
<P>Devo confessar que naquele momento não consegui distinguir qualquer gosto, o maxilar mastigava quase que sem o meu comando. Somente no final é que recobrei a percepção e pude sentir o sabor. Na verdade, aquela sensação não me tranqüilizou, ao contrário, um certo gosto permanecia na minha boca. Um sabor químico, não sei explicar, um gosto de coisa velha.</P>
<P>Obviamente aquilo não poderia ficar daquele jeito, quando o senhor se virou para o meu lado resolvi me pronunciar, mas a fome foi mais rápida:</P>
<P>- Pra mim mais um, ok?</P>
<P>Comi aquele segundo cachorro-quente com a percepção ainda mais presente, mas ainda assim devorei sem pestanejar. À medida que comia, tentei decifrar de onde poderia ter surgido o gosto inconveniente, parecia alguma coisa na batata-palha, nitidamente um gosto de veneno de barata.</P>
<P>Terminei a refeição pouco depois e paguei o senhor sem qualquer alarde, jurando nunca mais retornar àquele lugar.</P>
<P>Depois dessa primeira experiência nada feliz, fiquei um bom tempo sem me arriscar nos carrinhos de cachorro-quente, porém, a necessidade me fez optar por esse serviço novamente. Como ainda estava fresco na memória o sabor químico do primeiro lugar, procurei outro estabelecimento dentre os muitos que existem à noite. Escolhi um deles, cuja mulher sorridente passava uma certa confiança.</P>
<P>Quando ela começou a preparar, comecei a notar uma diferença nos ingredientes. Ao invés das maioneses estranhas e molhos bizarros de sempre, ela adicionava um cardápio mais natural, com direito a tomate, cebola, pepino, entre outros. Quando me entregou, analisei o aspecto e me certifiquei que não apresentava qualquer cheiro inadequado. Na primeira mordida veio a surpresa, o gosto era muito bom, diferente dos sabores habituais dos cachorros-quentes, mas muito saboroso. </P>
<P>Terminei a refeição e paguei com satisfação. Conclusão: desde então, sempre faço minhas refeições noturnas naquele lugar.</P>
<P><STRONG>Segunda história</STRONG><BR>Já era noite quando despertamos naquele dia. As ruas estavam se esvaziando lentamente, é nessa hora que começamos a nos preparar para atacar.</P>
<P>Em pouco tempo, nos organizamos em vários grupos, todos com os seus locais definidos. Alguns iam para as lixeiras, outros para as lanchonetes e assim por diante. Eu fui designado para um carrinho de cachorro-quente, eu e mais 17 irmãs.</P>
<P>Estávamos numa praça do centro da cidade, quando avistamos o alvo, tudo como planejado. Aproveitamos o pouco movimento e entramos sem levantar suspeitas. O dono parecia distraído ouvindo rádio, o que nos deixou livres para efetuar a degustação.</P>
<P>Eu mal tinha começado o serviço quando fui interrompido pelos gemidos de algumas irmãs. Rapidamente me virei e vi Samantha, Dolores e Sisi agonizando balançando as patinhas. Elas tinham sido envenenadas!</P>
<P>Saímos de lá jurando nunca mais retornar àquele lugar. Com algumas irmãs ainda cambaleantes, seguimos em direção ao bueiro quando avistamos outro carrinho. O sorriso aberto da moça que atendia nos pareceu um bom presságio, fomos então para lá.</P>
<P>Subimos pelas rodas do carrinho sem chamar atenção. Ao chegarmos, notamos um cardápio diferente do habitual, mais natural. Embora não seja essa nossa preferência, a refeição nos caiu bem, pois não havia venenos nem coisa do gênero. Como a mulher só se preocupava em sorrir para a clientela, acabava não reparando no que acontecia em cima do carrinho. Resultado: fizemos a festa. Conclusão: desde então, sempre fazemos nossas refeições noturnas naquele lugar.<BR></P>]]></description>
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<pubDate>Fri, 17 Jun 2005 09:30:15 -0300</pubDate>
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<title>Espetinho horroroso</title>
<description><![CDATA[Um passageiro do fundo vai descer, opa, lugarzinho à vista. Objetivo: sentar no banco antes que alguém o faça. Princípio: uma pessoa e uma cadeira se unindo com auxílio da lei da gravidade. Obstáculos: um idoso perto da porta e uma gestante próxima do corredor. <BR><BR>Sem perder mais tempo, sigo em direção ao local em questão. Mais à frente, noto as pessoas abrindo espaço para a gestante, um espaço que só consigo usando meu corpanzil. O senhor idoso também ganha trânsito livre mesmo sem mostrar a identidade. Droga, com solidariedade vira covardia. Depois de muitos "com licença" e pisões no pés, consigo chegar antes. Nessa hora ainda dei uma mancada simulando alguém que precisa sentar. Não quero parecer uma pessoa sem escrúpulos que deixa mulher grávida e velhinho de pé. Me acomodo fazendo expressão de dor para completar o papel. Falando assim parece crueldade, mas logo logo o ônibus chega na Rui Barbosa e boa parte dos passageiros descem. Só faltam... oito pontos.<BR><BR>Tudo bem, sei que é uma atitude um tanto rude de minha parte, porém, como a viagem é muito demorada, fazer o trajeto de pé fica quase desumano. Esse caminho na hora do almoço é ainda mais complicado. O ônibus fica lotado, o trânsito infernal e a fome pra piorar. <BR><BR>A viagem segue, ainda tenho tempo de pensar em outras coisas até que a entrada dos passegeiros é marcada por um cheiro diferente. Não me refiro ao odor dos ônibus ao meio-dia ou a fragrância do perfume de alguém, mas é de comida que estou falando. Rapidamente, sou surpreendido com uma passageira tirando da bolsa algo para comer, um espetinho de frango é o que parece.<BR><BR>Espetinho de frango, êta troçozinho asqueroso. Mais uma dessas iguarias de boteco da esquina. Frito sei lá quando, com um óleo perverso do tempo do "êpa". Isso sem falar da carne, que se bobear nem é frango, com tanto pombo por aí dando sopa. Definitivamente, um negócio que eu nunca encararia.<BR><BR>— Xii... olha lá - exclama um passageiro apontando para a janela.<BR><BR>Lá fora, um acidente parece bloquear a rua com carros da polícia de trânsito e ambulância. A viagem que já era demorada prometia prorrogação e pênaltis. Estou vendo que o almoço vai ter que esperar mais. O descontentamento tomava conta dos passageiros. Só não acabava com o ânimo de um deles, um não, uma. A mulher de pé à minha frente continuava a saborear o tal do espetinho horroroso. Tem gosto pra tudo nesse mundo.<BR><BR>A cena do trânsito interrompido persistia. Os guardas sinalizando o lugar, o motorista bolava rotas alternativas, o ônibus manobrando lentamente e os populares dando palpites. Dentro do coletivo, alguns passageiros reclamavam como de costume, outros desceram preferindo seguir a pé. Eu não tinha opção, ainda estava longe de casa e da cozinha. Passei, então, a distrair a mente pensando na morte da bezerra evitando ao máximo os outdoors com propagandas de comida, que parecem se multiplicar nessas horas.<BR><BR>Por fim conseguimos driblar o tumulto e com ônibus bem mais vazio continuamos o itinerário. A viagem ainda ia durar um bom tanto, a fome, ao que parece, também. Com o ônibus vazio, me senti à vontade para levantar a camiseta expondo a barriga que não parava de reclamar. Lembrei daqueles milhões de toneladas de alimento para as vítimas do tsunami, sendo que há fome bem aqui, dentro do Centenário/Campo Comprido. Esse mundo é injusto mesmo.<BR><BR>O ônibus ia chegar no terminal quando notei a mulher do espetinho de frango se levantado para ir embora. Ela tinha comido quase tudo, faltando só o finalzinho perto da base do palito. Ainda dava pra ver um bom talho de carne, que parecia bem frita. Por fora, uma casquinha espessa marcava presença, mostrando que o petisco estava bem torradinho, daquele jeito que quando a gente morde...<BR><BR>— O senhor quer me dizer algo? - a moça perguntou estranhando meu olhar insistente.<BR><BR>A julgar pelo cheiro, também devia estar bem temperadinho. Talvez com um leve sabor apimentado ou talvez com um sabor mais para vinagrete...<BR><BR>— Você está servido? - perguntou oferecendo o espetinho.<BR><BR>Só então despertei da hipnose com os olhos vidrados e a boca aberta para o salgado. Aceitar o restinho de um espetinho do boteco da esquina, oferecido dentro do ônibus por uma pessoa que nem conheço?<BR><BR>— Obrigado! - agradeci sorrindo.<BR>]]></description>
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<pubDate>Sat, 11 Jun 2005 09:44:42 -0300</pubDate>
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<title>As polêmicas do novo pontificado</title>
<description><![CDATA[<P>— Que foda, isso – uns tapinhas na orelha interrompem a leitura do jornal. – Muito foda!</P>
<P>De acordo com o linguajar refinado e maneira inconveniente de cumprimentar, não tive dúvidas de quem seria.</P>
<P>— Clédisson Craveira, o que foi dessa vez?</P>
<P>— A última notícia, eles foram botar logo aquele cara...</P>
<P>— Como é que é? </P>
<P>— Você ainda não está sabendo da notícia? Poxa, cara, você está precisando se informar melhor, viu...</P>
<P>— Estava tentando antes de ser interrompido – mostro o jornal fazendo cara de poucos amigos.</P>
<P>— Eu estou falando da escolha do novo papa, sabe o papa?</P>
<P>— Eu sei, eu sei – interrompo impacientemente. Se essa era a última notícia que ele conhecia, acho que daqui uns meses ele vai comentar dos tsunamis.</P>
<P>— Devia ver, André, fiquei sabendo que o novo papa é um cara da pesada.</P>
<P>— Como é? – perguntei surpreso, não surpreso pela notícia, surpreso em ouvir o Clédisson discorrendo sobre esse tema. Nunca pensei que seus interesses fossem além da mesa do bar e do banheiro feminino.</P>
<P>— O cara é linha dura mesmo, não aceita as novas tendências da igreja.</P>
<P>— "Novas tendências"... – repeti enquanto tentava formar uma opinião a respeito. Esse assunto em específico nunca foi meu forte, mas vendo que o Clédisson estava disposto a uma conversa mais elaborada, eu não podia fazer feio. </P>
<P>— Pois é, ouvi dizer que o Bento é da ala mais conservadora... – continuei.</P>
<P>— Conservadora o caramba! Ele é da linha dura!</P>
<P>— Calma aí, também não é assim. A igreja não é mais tão linha dura, a inquisição já acabou faz tampo...</P>
<P>— Sim, mas o novo papa tem opiniões muito radicais. Aqueles cultos com música, por exemplo, ele é contra.</P>
<P>— Cultos com música...</P>
<P>— Missas animadas com o pessoal dançando, ele também é contra.</P>
<P>Bem, pelo visto ele estava levando a causa a sério, o que não acontecia desde aquela vez que a prefeitura estava querendo fechar o inferninho onde o Clédisson bate cartão nas sextas-feiras. Como é mesmo que se chama aquele lugar?</P>
<P>— Pessoas saindo de dentro do bolo – continuou –, isso o papa também não vai deixar!</P>
<P>— Saindo de dentro do...</P>
<P>— Passar chantilly no corpo também não!</P>
<P>— Chantilly... Peraí, você disse "chantilly"? Gente saindo de dentro do bolo? Você diz do padre saindo de dentro do bolo? Depois passam chantilly nele?</P>
<P>— Não, claro que não. Falo das dançarinas, o chantilly a gente passa depois...</P>
<P>— Sim, mas o que isso tem a ver com o papa? Não me diga que na igreja que você freqüenta tem isso?</P>
<P>— Eu, igreja? Claro que não, não costumo ir a esses lugares. Estou falando do Perversa’s Night Club.</P>
<P>— "Perversa’s Night Club"? Mas... mas o que isso tem a ver com o novo papa?</P>
<P>— O que tem a ver? Nada!</P>
<P>— Nada?</P>
<P>— É, nada! Cê tá ficando louco? Querer botar o papa no Perversa’s, era só o que faltava...</P>
<P>— Não, é que você começou a falar de uma coisa e depois já foi misturando...</P>
<P>— Por favor, né, André. Controle melhor seus pensamentos, essa história de ficar querendo passar chantilly no papa...</P>
<P>— A culpa foi sua, que fala de uma coisa e logo muda para outra.</P>
<P>— Olhe aqui – disse passando um papelzinho –, esse daqui é pra você.</P>
<P>Quando fui olhar, nada mais era do que um convite do tal Perversa’s Night Club, coisa que nunca faltava na sua carteira. Foi somente nesse momento em que entendi porque o Clédisson estava preocupado com o novo papa, sendo que nunca teve o perfil católico apostólico romano. Ele misturou essa história de papa e Perversa’s Night Club por uma razão bem simples: ele ia para lá toda sexta-feira, religiosamente toda sexta. </P>]]></description>
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<pubDate>Sun, 05 Jun 2005 07:37:40 -0300</pubDate>
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<title>Comemorações do Dia de Finados</title>
<description><![CDATA[<p>— Rápido, vamos logo com isso! – disse puxando o garoto pelo braço – Seu Isidoro, o senhor não vem? <BR><BR>— Espere um pouco, estou colocando o paletó. <BR><BR>— Colocando? Poxa, não dá pra ser mais rápido? <BR><BR>— Prontinho, prontinho – disse, saindo do quarto e&nbsp;estufando o peito – Elegante, eu sei, pode dizer... <BR><BR>Seu Isidoro tinha colocado o paletó azul marinho, como sempre fazia todos os anos. Aposto que também iria contar a história do paletó, que foi presente de sei lá que tia e que trouxe de sei lá qual lugar. Ele adorava repetir essa história cada vez que vestia o traje. <BR><BR>— Não sei se eu já te contei, mas esse foi um presente da minha tia Cotovina, que trouxe o paletó lá da Catalunha! <BR><BR>— Sei, sei... Tia Cotovina da Catalunha... agora que terminou, podemos ir? <BR><BR>Os três enfim estavam prontos. Iam repetir a tradicional cerimônia de 2 de novembro. Como toda família que se preza, os Souza Passos também iriam homenagear seus antepassados, deixando uma lembrança e fazendo umas orações. Sendo assim, seu Isidoro, dona Salete e o pequeno Basílio não podiam faltar. Para isso, se produziram à altura, com direito a trajes escuros e cabelos lambidos. Eles não podiam fazer feio frente ao resto da família, embora os parentes nunca tivessem reparado muito neles. <BR><BR>Andando calmamente para não amassar os trajes, eles chegaram à entrada do cemitério abarrotado de gente. Mesmo com toda dificuldade em transitar naquela confusão, no fundo eles estavam se divertindo muito. Os cemitérios se tornam um ambiente bem vivo nessa época do ano. Sem qualquer indicação, eles sabiam como chegar ao lugar certo. Quando se aproximaram, notaram que quase todos estavam lá. <BR><BR>O seu Isidoro ficou animado em vê-los depois de tanto tempo. Dona Salete ficou impressionada como todos estavam mudados, parece até que o tempo voa. Só o pequeno Basílio estava indiferente, pois tinha ido para tantos Dias de Finados que nem se surpreendia mais. Vendo a família em silêncio ao redor do espaço dos Souza Passos, os três conversavam discretamente. <BR><BR>— É impressão minha ou a Lucia está mais cheinha dessa vez? – disparou dona Salete. <BR><BR>— O quê? <BR><BR>— Engordando, você sabe, ela está ficando cada vez maior. <BR><BR>— Pelo amor de Deus... – Isidoro reprovou o tom fuxiqueiro da conversa. <BR><BR>— Calma, só estou comentando. <BR><BR>— Numa dessas ela tá grávida – Basílio embarcou na especulação. <BR><BR>— De novo? <BR><BR>— Se isso for verdade, você ganha mais um sobrinho, Basílio. <BR><BR>— Legal! <BR><BR>— Legal, é? E a conta bancária do seu irmão, onde é que fica? <BR><BR>— Dona Salete, dona Salete, sempre procurando o lado trágico das coisas... <BR><BR>— Isso porque não é com você. Mas também ninguém mandou o Antônio ficar aí, fazendo filho ao atacado. <BR><BR>— Esse meu irmão caçula não tem jeito mesmo... <BR><BR>As orações pareciam ter cessado no túmulo dos Souza Passos, aos poucos os familiares se preparavam para ir embora. Com cumprimentos sutis, a parentada se despediu e abandonou o cemitério movimentado. Os três ainda permaneceram lá um tempo, curtindo as flores novas. <BR><BR>— Cada ano parece que ficam menos tempo – disse Salete desgostosa. <BR><BR>— Pelo menos vieram. <BR><BR>— Você tá feliz porque sempre é o mais festejado, olha só quantas flores você ganhou, Basílio!<BR><BR>Seu Isidoro estava certo, o túmulo de Basílio era sempre o mais homenageado. Eram tantas flores que até tampavam a foto do menino que foi atropelado quando corria atrás da bola de futebol. Dona Salete também tinha razão de estar chateada, suas irmãs não vieram visitá-la novamente. Qualquer hora vai descobrir que elas morreram há algumas décadas. Três para ser mais exato. <BR><BR>— Estão vendo aqui? – dizia seu Isidoro mostrando a foto colada na lápide. – Esse sou eu alguns anos mais moço vestindo esse paletó. Não sei se já contei, mas ele foi um presente da tia Etelvina, que comprou na sua viagem pela Sicília. <BR><BR>— Sicília? <BR><BR>— Sicília. </p>]]></description>
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<pubDate>Sat, 28 May 2005 13:29:44 -0300</pubDate>
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<title>Trocando a gordura por um enfizema</title>
<description><![CDATA[<p>A idéia surgiu num domingo, desses que não têm futebol na televisão. É só nessas horas que grande parte dos homens começa a procurar o espelho, ver os estragos do tempo, exercitar a vaidade. As unhas dos pés, por exemplo, como elas crescem!</p>

<p>Talvez por isso ele estivesse com tantas meias furadas.</p>

<p>Tirando a camisa de frente pro espelho, percebeu que estava precisando de um regime de engorda, tipo gado confinado. Melhor acender um cigarro. Mas essa ilusão de engordar ele não tinha mais. O que ingeria nas refeições nunca se refletia em peso. Igualzinho sua conta corrente. O dinheiro que caía não dava nem pro alívio. Poxa vida, melhor acender outro cigarro.</p>

<p>Botou a camisa se despedindo do espelho. Na próxima semana deve passar um jogo na televisão e ele não teria mais que perder tempo com reflexões idiotas. De tênis calçado, foi até a panificadora ao lado de casa, mas, em vez de sair de lá com pães, uma carteira de cigarros foi o que ele trouxe. A outra já estava no fim, ele não tinha outra escolha. Só depois que chegou em casa é que percebeu o que tinha acabado de fazer, trocou o alimento pelo cigarro, como queria engordar desse jeito?</p>

<p>É de ficar chocado, pode acreditar, sair atrás de comida e voltar com cigarros. Aquilo não poderia ficar assim, devia ser um sinal ou algo do gênero. Rapidamente ele se sentou na cadeira, ligou o computador e só saiu de lá quando terminou de escrever, escreveu um livro. Mas não era qualquer livro, aquele iria abalar as estruturas.</p>

<p>- “O fim das dietas: emagreça fumando”, é esse o seu livro? - perguntaram na editora.</p>

<p>- Esse aí, “O fim das dietas: emagreça fumando”. O senhor leu? O que achou?<br />
	<br />
A resposta não foi positiva, não vou mentir para vocês, mas essa foi apenas na primeira tentativa. Não que as outras tivessem sido muito diferentes disso, na verdade todos acharam uma grande brincadeira de mau gosto. Onde já se viu um livro que propunha o vício do fumo como solução para os problemas de peso? As editoras repudiaram categoricamente, jamais publicariam uma coisa dessas.</p>

<p>Contudo, porém, sabe-se lá como, um dia desses uma cópia do livro caiu nas mãos de um desses altos funcionários da indústria do cigarro.</p>

<p>Preciso dizer mais alguma coisa? O livro não só foi publicado como o autor ganhou uma boa bolada logo de entrada. A publicidade também foi algo assombroso. Era só ligar a TV que lá estava o livro sendo comentado. O autor defendia suas idéias com unhas e dentes. Quando as mulheres perguntavam se o cheiro de cigarro não incomodaria os homens, por exemplo, ele dizia que no máximo causaria um desconforto, mas o que incomoda mesmo são gorduras e banhas. A platéia silenciava na hora.</p>

<p>Em pouco tempo suas teorias sobre emagrecer fumando ganharam as graças do povo, fumar passou a ser bem visto como uma forma de controlar o peso e até, pasmem, um benefício à saúde. De certa forma até que sim, pois se ajudava a emagrecer também evitava os malefícios da obesidade. Além disso, seria uma boa forma de promover encontros entre mulheres e homens bem sucedidos. Ele citava o exemplo de uma mulher que conheceu seu marido graças a uma consulta médica.</p>

<p>-É grave, doutor</p>

<p>- Se é grave? Um pouco - silêncio -, mas nada comparado ao que eu estou sentindo.</p>

<p>- Mas o que é, doutor?</p>

<p>-Você está com enfisema pulmonar, mas sou eu quem está morrendo de amor! — acabava o comercial com um beijo cinematográfico.</p>

<p>A propaganda até que era boa, especialmente quando o médico acendia o cigarro da moça usando um isqueiro em forma de estetoscópio, mas na realidade o comercial nem chegou a ir pro ar. A ciência já tinha bolado uma forma muito mais eficiente de emagrecimento. </p>

<p>Evoluída a partir das operações de redução de estômago, a solução definitiva para os problemas de peso e obesidade seguia o mesmo princípio. A diferença é que agora o estômago não era mais fatiado e diminuído, na verdade ele era retirado por inteiro e substituído por uma embalagem vazia de Tic Tac.</p>

<p>Foi o fim dessa história de fumar para emagrecer, ainda bem. As pessoas não precisavam mais desse artifício, a medicina tinha resolvido o problema. Por outro lado, isso não significou o fim da saga do fumo e seus adeptos, pois enquanto houver uma conversa depois do almoço, uma espera de 5 minutinhos ou um cafezinho na repartição, sempre haverá um fumante erguendo sua bandeira e acendendo seu cigarro. </p>]]></description>
<link>http://www.cracatoa.com.br/2005/salamandra/archives/2005/05/trocando_a_gord.php</link>
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<pubDate>Mon, 09 May 2005 10:23:15 -0300</pubDate>
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