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Imprevisto atuando nos bastidores

Com um movimento rápido puxou a camisa do cabide, ele ia sair. Decidiu isso de última hora, como de costume. Reinaldo tem sempre essa mania de sair de casa quase como por um sopro. Foi tão depressa que nem notou o calor que está fazendo lá fora, mesmo agora de noite. Essa história de aquecimento global está tirando uma das melhores coisas de Curitiba...

– Está vendo? – falou um deles - Ele está pondo aquela camisa por cima. Camisa, nesse calor...
– Xii... vai ficar carregando isso à toa...

Enquanto esperava o elevador, as mãos vasculhavam os bolsos atrás de moedas. Ele estava em cima da hora e não tinha tempo a perder contanto troco. O elevador chegou vazio e Reinaldo aproveitou para ajeitar o cabelo desarrumado. Antes que a porta fechasse, os dois acompanhantes se juntaram a ele.

– Qual vai ser hoje?
– Cinema, ora bolas...
– Eu sei, mas qual? Cine Luz ou Cinemateca?
– Luz, a Cinemateca está fechada.

Enquanto os dois especulavam o roteiro desta noite, Reinaldo estava entretido no espelho do elevador sem participar da conversa. Não demorou ele estava ganhando a rua a passos rápidos. Atrás dele, os dois o acompanhavam no caminho até o ponto de ônibus.

– Calma lá! Pra que tanta pressa? – exclamou um deles.
– Não precisa correr! O ônibus não vai passar no horário, vai dar tempo de pegá-lo – o outro previu.
– Já acertou tudo com o motorista?
– Sim, está tudo encaminhado – deu uma piscadinha.

Mas Reinaldo, que não podia escutá-los, continuava andando acelerado. Não podia ser diferente, eles conheciam essa reação. Sempre que ele estava chateado, escapava até o cinema para se distrair. Geralmente funcionava, pois ele voltava diferente de como tinha saída. E o sucesso dessa estratégia não estava relacionado à qualidade dos filmes, mas ao trabalho dos dois.

– Obrigado pela parte que nos toca, mas na maioria das vezes não precisamos fazer quase nada.
– Não mesmo! – o outro reforçou.

O trabalho dos dois colegas é cuidar para que Reinaldo consiga restabelecer o humor e ânimo ou, como eles preferem dizer, fazer sua “lampadazinha” brilhar. Embora sejam modestos demais para concordar, o sucesso tem a ver com o trabalho bem sucedido dos dois nesses anos todos.

Por outro lado, Reinaldo ainda estava aborrecido por essas razões terrenas que tão bem conhecemos. Dar um passeio e tomar um ar talvez não fosse o suficiente, foi por isso que os dois amigos bolaram uma daquelas viagens de ônibus inusitadas, que Reinaldo tanto gosta.

O coletivo encostou no ponto e a trupe de apoio entrou em ação. Lá dentro, um arsenal de curiosidades o cercavam, desde executivo capitalista, garotinho piadista, velhinha trapezista, cozinheiro paraquedista e revolucionário zapatista.

– Revolucionário zapatista? Onde foi que arranjou esse aí?
– Um guerrilheiro espanhol que comprou um fuzil israelense em um shopping no Afeganistão e foi sorteado para uma viagem ao Brasil.
– Uau! Nunca pensei que esse tipo de coisa acontecesse...
– Nem eu. Mas naquele dia acordei inspirado...

Apesar do encontro com o inusitado, Reinaldo ainda parecia inalterado. Sequer deu atenção a velhinha do circo ou ao cozinheiro aviador, desceu do ônibus como entrou.

– Xii... acho que hoje... – um deles disse preocupado.
– Espere aí, veja só isso!

O andar chateado e apressado de Reinaldo possibilitou uma jogada imprevista. Aquela camisa que tirou por causa do calor escorreu do braço deitando mansamente no chão. Reinaldo ainda andou alguns metros até que notasse sua falta. Quando se virou, deu de cara com um cachorrinho brincando com a vestimenta. A cena pareceu tão pitoresca que não teve como passar despercebida. O inusitado se transformou em riso quando Reinaldo tentou apanhar a camisa do bichano de volta. Do outro lado da rua, os dois colegas olhavam satisfeitos.

– Ufa! Achava que hoje seria difícil! Ainda bem que numa hora dessas sempre podemos contar com uma ajuda do imprevisto. – disse enquanto o velhinho dono do cãozinho acenava discretamente. – Ele é um cara legal.
– Quem, o Imprevisto? Nem sempre – ponderou o colega. – Mas volte e meia ele tem os seus momentos... – disse devolvendo o aceno.

12 de abril de 2007

 
 




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