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Tudo em nome da emoção

Mesmo passando uma infância carente, o atacante Neleleco sempre acreditou no seu potencial e encarou todos os desafios de frente.

Devia ser algum desses programas esportivos que trazia uma matéria sobre o mais novo astro do futebol nacional.
– Nele-o quê? – estranhou Carlos.
Não que fosse um desses jogadores muito conhecidos, que ganham rios de dinheiro. Na verdade ainda não tinha atingido esse status, era só um desses ídolos que provavelmente será esquecido no próximo semestre.

Quando criança, o pequeno Neleleco ensaiava seus primeiros dribles com uma bola de meias, aqui na comunidade de Tamandaré Soares.

Tudo bem, a matéria não se destacava pela originalidade. Aliás, cobertura de futebol não tem muito espaço para isso. Além dos gols e dos juízes, não sobra muita coisa interessante para se falar. De vez em quando aparece um peladão que invade o campo, mas isso não é comum por aqui, além de ser esteticamente pouco atraente...

Dona Filomena, antiga babá do astro, hoje com 82 anos, faz questão de lembrar daquela época.

Seu Carlos deu um passo a frente se aproximou do televisor. Sempre achou interessante essas entrevistas com pessoas fora do comum. Aliás, os telejornais têm um estranho fascínio por entrevistas bizarras: velhinhas caquéticas, trabalhadores desdentados ou crianças monossilábicas. Carlos até levantou o volume do aparelho para escutar.

– Dona Filomena, é verdade que a senhora trocava as fraudas do astro Neleleco quando era criança?
– Dona Filomena trocava...


Tudo bem que o entendimento era meio dificultoso, mas de qualquer forma ele se sentiu tocado. Lembrou-se que quando era criança também foi cuidado por uma dessas babás de idade avançada. Não se chamava Filomena, mas seu aspecto lembrava muito a senhora da televisão.

Então dá pra dizer que a senhora foi a primeira pessoa que levou drible dele, não é, Dona Filomena? – perguntou o repórter tentando ser engraçado.
A antiga babá do seu Carlos também era velhinha, mas o mais parecido era o jeito que falava, quase que repetindo as mesmas palavras usadas na pergunta.
Dona Filomena... primeira... levava drible...

A única vez que sua velha babá não falou repetindo o que diziam foi no parque, ele nunca vai se esquecer. O dia estava ensolarado e ela falou bem assim: “a jaca, a jaca!”. Foi a última coisa que disse antes do acidente embaixo da jaqueira.

Aqui na comunidade do Tamandaré Soares, muitas histórias do astro Neleleco ainda sobrevivem. Muitas delas contadas por Florisvaldo Magalhães, amigo de infância e fiel escudeiro do jogador.

A televisão mostra a cara do tal sujeito. Uma figura estranha.
Florisvaldo conheceu Neleleco ainda no time infantil do Tamandaré Soarense, porém, ao contrário do colega, seguiu um rumo diferente do jogador.

A reportagem foi ficando mais séria, o que ficava claro pelo tom de voz de repórter. Nas imagens, a história vitoriosa de Neleleco foi contada em paralelo com os desencontros do amigo Florisvaldo. Enquanto o craque assinava contratos com os times da capital, o amigo seguia outro caminho, entrando no mundo das drogas, começando a vender seguros, viciando-se em Fanta Uva, depois trocando de sexo duas vezes e, enfim, voltando a ser um homem.

– Duas vezes?! – repetiu sem compreender.

E agora, para terminar, o programa Tv Sport vai proporcionar um encontro emocionante. O ídolo Neleleco vai encontrar o velho amigo de infância Florisvaldo!
A música aumentou, clima de emoção, as cortinas se abriram, de onde sai o astro do futebol em direção a Florisvaldo.

E aí, beleza? – pergunta o ídolo com um leve aceno.
Beleza – respondeu o amigo antes de um longo silêncio.

O público aplaudiu de pé, foi emoção para todo lado.
Mas as coisas não vão ficar assim – disse o repórter. O ídolo Neleleco trouxe um presente para o velho amigo.

Olha aqui, ó... pra você.
O que é? – perguntou o amigo com olhos grandes, antes de receber uma bela bola autografada.

A música dos momentos emocionante começou a tocar e os velhos amigos se abraçaram. Brevemente, apenas o tempo dos letreiros subirem e encerrarem o programa. Seu Carlos aquela noite foi dormir arrepiado. Como a vida poderia ser tão generosa com uns e pouco com outras, ele poderia pensar. Mas na verdade não, na sua mente só existia espaço para um questionamento:
– Como assim “duas vezes”?

12 de abril de 2007

 
 




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