Com as mãos trêmulas e inquietas, Dionísio vasculhou toda mesa atrás dos cigarros. Embaixo das revistas, dentro dos jornais, apoiados sobre as contas e nada. Onde estariam aqueles bastonetes cancerosos, pensou. Não era à toa que dizem que o cigarro mata. Mata o sujeito de raiva porque sempre somem na hora que mais se precisa deles.
Desistindo momentaneamente, ligou a televisão e aumentou bem o volume. Pela hora, já estava começando.
– Aqui está... porcaria! – comemorou com sarcasmo ao encontrar o maço.
No mesmo instante a musiquinha de abertura anunciava o telejornal que começava. Ele ainda tinha tempo. Era por isso que estava ansioso por fumar, somente por causa do tempo. Hábito mesmo de fumar Dionísio nunca teve, mas os sentimentos fazem miséria na cabeça das pessoas.
Enquanto o apresentador anunciava as manchetes de dia, as mãos pouco delicadas tentavam abrir o maço. Retirando um cigarro meio torto, tentou produzir uma chama para acender o isqueiro apoiado sobre a boca. Após duas ou três tentativas, percebeu que os cigarros não acendem isqueiros, mas ao contrário, os isqueiros são que...
– Porcaria! – praguejou atirando tudo para longe e cuspindo o isqueiro.
Ele estava transtornado. Copos e garrafas tilintavam perigosamente na cozinha. Ele precisava beber, era isso, ele precisava beber. Acalmar os pensamentos amansar os nervos, ele precisava beber. E beber qualquer coisa, desde que fosse forte, pensou olhando para as garrafas de uísque.
Em um dia como esse, Dionísio desesperado avançou sobre o armário em busca de uma garrafa esquecida ou algo do gênero. Mas ele não tinha nada disso, estava aí o grande mau de ter tido uma droga de uma vida saudável. Nunca se tem um tarja preta quando se mais precisa.
Antes que pudesse se dar por vencido, seus olhos se encheram quando avistou pela fresta do armário algo esquecido. Rapidamente apanhou o frasco e bebeu seu conteúdo em um trago só. Suas papilas gustativas quase se emocionaram ao captaram aquele sabor inesquecível. Não que fosse qualquer bebida alcoólica, na verdade era apenas um frasco de Biotônico Fontora que Dionísio tinha guardado há décadas.
Momentaneamente, ele pareceu se acalmar até que da cozinha fosse chamado pela voz delicada dela.
– O tempo não está muito promissor para o final de semana – ela começou.
– Então você... resolveu aparecer – Dionísio respondeu.
– O final de semana será marcado por dias nublados no litoral.
– Você acha que... – ele procurava as palavras certas
– Tempo seco apenas no interior do Estado.
– Então é só por isso que resolveu aparecer?
Era verdade, ela não tinha aparecido à semana inteira. Nesse meio tempo, Dionísio tinha se perdido por completo. Não sabia mais quando era chuva ou quando fazia sol. E agora que aparece fica aí falando esse papo furado.
– Acha mesmo isso relevante para nós dois, Rosana? – foi direto ao assunto. – Só uma coisa eu te digo: não pense que fiquei aqui me remoendo só por causa de você todo esse tempo.
Enquanto Dionísio expunha seus mais profundos sentimentos, Rosana parecia indiferente, falando com se não o escutasse. Tagarelando em assuntos impessoais, como naquelas conversas bobas de elevador.
– Escuta aqui, escuta aqui! – perdeu de vez a paciência. – Para mim já chega, é o fim da linha! Acho que não vale mais a pena levar esse relacionamento adiante!
– A zona de convergência vinda do Pacífico sul deve passar em poucos dias, voltando tudo ao normal a partir de quarta-feira.
– Nada disso, nada disso! – negou prontamente. – Não vai mais voltar ao normal porque eu já encontrei alguém... – disse meio sem jeito.
Apesar do coração machucado, ele falava a verdade. Dionísio tinha encontrado Pollyana Abritta, uma atraente repórter do mesmo telejornal. Ela apareceu do jeitinho que ele gosta, falando sacanagens de mansinho, isto é, as notícias de Brasília. Desde então, a previsão do tempo deixou de ser o ponto alto do Jornal Nacional para Dionísio. É bem verdade que ele nunca mais acertou bem os dias que chovem ou fazem sol, o que já lhe custou um início de resfriado. Por outro lado, sabia de cor os nomes dos líderes da base aliada e dos partidos de oposição, por exemplo. Tomara que agora dê tudo certo, embora me contaram que tem uma apresentadora do programa esportivo do outro canal...
– Mínimas de 18o em Curitiba, máximas de 34o em Manaus – ela se despediu.
12 de abril de 2007

