O relógio marcava 3h32 da manhã e eu estava de olho porque a qualquer momento um novo minuto nasceria. Um novo minuto nessa madrugada quente em Francisco Beltrão. Até eu, que sou friorento e costumo dormir bem agasalhado, confesso estar quase abrindo mão do par de meias. Um calor doido, desses que não nos permitem pregar o olho. A roupa gruda no corpo, os lençóis ficam desconfortáveis, as cobertas sufocantes. O relógio continuava marcando 3h32.
Sem outra saída, sou obrigado a levantar da cama e abrir a janela. A esperança de um sopro gelado é o que me move. Um vento frio perdido, vindo do Rio Grande, ou uma daquelas frentes frias vindas da Argentina, como nas previsões do tempo. Porém, nada acontece. Só isso me bastaria para justificar uma noite perdida. O calor aterrador não permitindo o sono, fonte de preguiça e olheiras. Por outro lado, eu sabia que não era só isso. Aliás, não era nada disso.
Com a janela aberta, me atento alguns instantes. A brisa não veio, mas os pensamentos não paravam de soprar. Eu sabia que o calor era o de menos nessa história. Quem estava ditando as regras eram os problemas, eles sim estavam me tirando o sono.
Problemas, vocês sabem, problemas e problemas. Desses que não valem a pena contar de tão terríveis e corriqueiros. Problemas cruéis e baratos, incluindo a unha encravada, a geladeira vazia e a carteira quase. Isso sem falar em tanta coisa ruim que não aconteceu ainda, mas que virá inevitavelmente, como o imposto de renda, só que num dia bastante chuvoso.
Subitamente, o vendaval de pensamentos amargurados foi interrompido por um som vindo de fora. Como eu estava bem de frente para a janela notei o movimento e paralisei sem reação. O que poderia ser, numa hora dessas? Me virei para o relógio, mas a distância já me separa das horas. O estranho ruído vindo do mato persistiu e comecei a temer um ladrão ou algo do gênero, coisa que já chegou até aqui. Mas quando a pessoa se revelou, quase caio para trás tamanha surpresa.
– Clédisson Craveira? Você, por aqui??
– Sim – disse tentando se desvencilhar da vegetação. – Esperava quem? “Priscila, a rainha do deserto”?
Pois é, isso não fazia o menor sentido. O Clédisson Craveira é um amigo que havia deixado em Curitiba e isso há bastante tempo. Aliás, fazia tempos que não tinha qualquer notícia dele. Cheguei até a cogitar a hipótese de botar sua foto nas embalagens de leite longa vinda.
– Mas Clédisson, o que você está fazendo aí? Ainda mais aqui, em Francisco Beltrão?
– O que estou fazendo aqui? E você ainda pergunta? Me convide logo para entrar porque esse mato está me dando uma coceira danada!
Imediatamente chamei o comparsa e tratei da preparar uma xícara de café, embora soubesse das suas preferências alcoólicas. O Clédisson Craveira, muito delicado que é, aceitou meu gesto de generosidade com a sua cortesia peculiar.
– Só um cafezinho mequetrefe? Tudo bem, até aceito. Porém, você vai ter que explicar o porquê dessa cara de purgante.
Cara de quê? Purgante? Poxa vida, era verdade, era bem assim que estava me sentido. Não sabia que os problemas me deixavam com esse aspecto pouco convidativo. Aproveitando a deixa, tratei de botar tudo pra fora, desabafando pesadamente. Falei do trabalho ser decepcionante a maior parte do tempo, das pessoas que me decepcionam cada vez mais, da decepção em lembrar do meu cachorro o tempo todo e até do pão francês cobrado agora por peso, uma medida que decepciona mais a cada dia. Contei tudo, não me esqueci de nada. Por outro lado, contrastando com a minha insatisfação, o Clédisson ouvia tudo atentamente sem dizer uma palavra. Algumas vezes apenas sorria, como se dissesse para não levar a vida tão a sério. Não sei bem como explicar, mas a tal tática do amigo acabou surtindo efeito, pois ao término da ladainha eu estava me sentindo bem melhor.
Pouco depois, eu estava me despedindo do Clédisson, que voltou pelo mato de onde havia saído. Foi só nesse instante que me dei conta do quanto era estranho encontrá-lo assim, perdido mato à dentro. Aliás, se eu não estivesse com tanto sono veria que tudo isso não fazia o menor sentido, mas como já eram pontualmente 3h33 da manhã nem tive tempo pensar em mais nada e pude dormir pesadamente.
Não muito longe dali, Clédisson Craveira seguia pela rua com o mesmo sorriso sereno de sempre, só interrompido quando tirou dois pequenos fones de ouvido das orelhas.
– MP3 player, taí uma grande invenção!
12 de abril de 2007

