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Desvio de vocação

O carro atravessou a rua a toda velocidade madrugada adentro. O ruído cortante da sirene ecoava na pista de asfalto deserta. Pode parecer bobagem, mas até hoje esse tipo de coisa mexia muito com ele.
- O que o garotinho vai querer ser quando crescer? – vovó costumava lhe perguntar quando era pequeno
- Polícia.
- Como é, Leandrinho?
- Polícia! – gritava irritado.

A certeza do garoto deixava todos contentes. Papai até fazia um carinho na sua cabeça discretamente. Não que Leandro soubesse realmente o que o futuro lhe reservava, nessa época só falava isso para despachar vovó, que vinha sempre com aqueles beijos molhados.
- Polícia? Mas que gracinha! Então, vem pra cá... – e puxava o garoto pela bochecha e aplicava uma daquelas beijocas que só as avós sabem dar.

Apesar da resposta assim, na lata, nunca funcionava. Qualquer coisa que ele dissesse sempre acabava com as bochechas lambuzadas. Talvez se respondesse “drag queen” causasse estranheza na vovó, mas ele era ainda jovem demais para ter essa idéia.

Contato com os policiais ele só foi ter mais tarde, quando foi trabalhar num carrinho de cachorro-quente. Os homens de uniforme sempre iam lanchar por lá e Leandro ficava escutando as conversas animadas deles, que eram comparáveis às histórias de pescadores, só que com prostitutas e tóxicos no enredo. Nessa época ele tinha na cabeça o plano de se tornar policial.

Porém, não era qualquer tipo de tira, Leandro queria seguir outros rumos na profissão. Briga, violência, armas e morte nunca fizeram parte do seu imaginário. O mais próximo disso que podia pensar era a luta livre de mulheres, que era feita em um ringue de lama. Por outro lado, sempre acho que isso talvez fugisse da alçada do departamento de polícia.

Mas o que, afinal de contas, poderia atrair uma pessoa como ele em usar distintivo e uniforme?
- Atenção, atenção, aqui é da polícia! – a voz grossa invadiu o esconderijo dos meliantes. - A casa está toda cercada, sugiro que se entreguem imediatamente.

Para Leandro, o poder não estava na luta física ou nas armas de grosso calibre. A força, segundo ele, estava nas palavras, principalmente quando bem usadas.
- E agora? – cochichou um dos ladrões.

Sem outra opção, os foras-da-lei se entreolharam notando que tinham chego à reta final. A partir daí, lentamente foram se entregando com as mãos erguidas.

Leandro sempre achou o momento mais extraordinário aquele que o policial decretava a prisão. Era o fim de tudo, quando declarava que a prática criminosa tinha sido descoberta e que não tinha mais escapatória. Tudo porque, é importante lembrar, a justiça sempre prevalece e o castigo pode até tardar, mas não falha.

- A casa caiu, amigo. A casa caiu... – disse num tom irônico. - Os dias de crime e contravenção acabaram.
Por outro lado, não demorou que a vida lhe ensinasse que as coisas não eram tão simples assim. O momento da prisão estava longe de ser o fim da história ou a resolução dos problemas. Logo percebeu que os caminhos que se seguem ao flagrante eram muito mais tortuosos, passando por advogados, escrivões, juízes e uma série de leis tortas. Foi quando desistiu de se tornar policial e acabou indo para o outro lado.

- Vocês têm o direito de permanecerem calados e tudo que disserem poderá ser usado contra vocês no tribunal – a autoridade fez questão de dizer.
Embora já conhecesse de cor e salteado todos esses dizeres, Leandro não se preocupou sequer um minuto. O número do celular do Dr. Gonçalves ainda estava bem fresco na memória e o Habbeas Corpus estava pronto sobre a mesa.

- Só uma coisa, senhor. Só uma coisa – Leandro se atreveu a dirigir-lhes a palavra.
- O que foi? – o policial sentado no passageiro perguntou irritado.
- Tem como... o senhor poderia... poderia desligar a sirene?
- Como é?
- A sirene, você sabe, a sirene...
- O que tem ela? – perguntou ainda mais irritado
- O senhor teria como... desligar só um pouco e... – notando a má vontade do guarda. - Deixe pra lá...

12 de abril de 2007

Realmente, o bem e o mal fazem parte da mesma moeda, apenas em faces opostas...
Ótimo texto, vocês deveriam ser presos, nos dão algo que vícia, nesse site...
Abraços.

Por: Ricardo (solitary) | novembro 28, 2006 05:20 PM

¨¨¨

Uau, nunca fiquei feliz por colaborar com algo tão ruim!
Sobre o bem e o mal, muitas vezes a distinção das duas coisas são muito sutis, um lado ou uma farda. Ainda bem. Ou ainda mal...

um abraço!

Por: andré sala | novembro 29, 2006 03:32 PM

¨¨¨
 
 




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