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A vida imita a fofoca

Amarrei o cadarço com um movimento rápido. Não tinha tempo a perder. Abrindo o portão com cuidado, atravessei e ganhei as ruas da Francisco Beltrão. Não sei se já contei, mas estou morando aqui agora. “Professor”, é como dizem, embora não faça muita questão de atender quando sou chamado assim.

A rua estava calma, sem muitas pessoas para dividir a calçada. De longe ainda se ouvia o cacarejo. Um galo atrasado. Os pássaros cantavam uma melodia suave e o céu azul dava uma confortante sensação de paz. A vida pacata do interior, não é o que dizem? Respirei fundo, não pude me conter e falei baixinho:

— Grande porcaria!

No começo eu era daqueles que admirava a vida pacata e fácil do interior. Também acreditava nas belezas corriqueiras e na gente simples que compõe esse lugar. Não que seja tudo falso, como em uma cidade cenográfica, mas é que a calma nos dá uma falsa impressão de liberdade, como se pudéssemos fazer tudo. No final das contas, as coisas não são bem assim.

— Sabe o que andaram me contando por aí, André?

— O quê? – perguntei intrigado.

— Fiquei sabendo que o Rafa está beliscando umas meninas por aí... – revelou a mais nova fofoca com um sorrisinho maroto.

Não sei bem como isso funciona ou quantas pessoas estão envolvidas, mas é de uma eficiência invejável. Fofocas, você sabe, são delas que estou falando. As fofocas parecem ser um ponto alto da vida nas cidades pequenas. Não adianta tentar ser discreto, nem mesmo pedir segredo. Aqui, mais cedo ou mais tarde, todo mundo acaba sabendo.

Por mais que seja na surdina, longe das vistas, não adianta. Sempre alguém descobre e tudo acaba caindo na boca do povo. Eu disse “tudo”, principalmente se for sujo, ilícito ou picante.

Tudo bem, tudo bem, sei que isso não é nada de extraordinário. Fofoca não é a pior coisa do mundo. Perde feio para o cheque-sem-fundo, por exemplo. Mas, de qualquer maneira, uma coisa ainda me afligia: eu não tinha feito nada que fosse digno de uma boa fofoca. Isto é, não havia aprontado nada que pudesse me comprometer desde que cheguei.

— Grave... muito grave – analisou um amigo. — Se eles ainda não viram nada de errado que você tenha feito, eles terão que inventar.

Era verdade. Se eu não tinha nenhum podre que pudesse virar fofoca, ficaria a cargo deles pensar em algo. Mas daí, já viu, sabe Deus o que se passa na imaginação dessa gente? Vai que numa dessas eu não caio nas mãos de um Nelson Rodrigues da vida? Sendo assim, só me restava uma única saída: eu precisava aprontar alguma coisa que virasse fofoca. E isso logo, antes que eles criassem algo para mim.

— Como é? – perguntou a moça intrigada.

— “Josuel e a flauta mágica”.

— Nossa... eu nunca ouvi falar nesse filme...

Fofoca, eu precisava virar fofoca. Qualquer coisa, de preferência algo de sujo, ilícito e picante.

— Espere só um pouquinho, vou olhar na lista dos filmes que acabaram de chegar – disse antes de adentrar numa salinha da locadora.

“Natanael e a flauta mágica”, esse filme vai demorar para ela encontrar.

— Como é mesmo o nome do filme que você pediu? – perguntou trazendo uma lista.

— “Jesebel e a flauta maluca”.

— Humm... não tem nenhum filme com Jesebel aqui...

— Jesebel? Eu falei Jesebel? Desculpe, eu me enganei. O correto é Isabel, “Isabel e a flâmula mágica”.

— Só um momento – começou a correr listagem novamente.

— Escuta... – comecei a pôr o plano em prática. — Eu estou com umas compotas de batata doce lá dentro do carro... O que você acharia de experimentar algumas lá em casa...

— O que disse?

Dei um passo para frente e sussurrei de forma insinuante.

— Eu... você... “Beneleleu e a arca perdida” e as compotas de batata doce...

— E-eu não... eu não po-posso...

— Eu tiraria esse seu uniforme da locadora... – chegando mais perto. — E jogaria nesse seu corpinho umas compotas de batata... – completei ao estilo Wando. — doce!

— Na-não... o meu marido não ia gostar – se defendeu constrangida.

— Não tem problema, docinho – disse com a voz rouca fazendo tranças no seu cabelo. — Você também pode chamá-lo... tem muita compota lá em casa – concluí com uma piscadinha.

12 de abril de 2007

acabei de ver o fernado pessoa nesse texto, e no andré luiz melo. Quem é voce, André Luiz Melo? Que pessoa é Você?

Por: Pablo | outubro 18, 2006 07:37 PM

¨¨¨

eh ehe heh he hehe h e, também lembrei dele quando estava escrevendo... eh eh h ehe heh heh he heh eh eh... maldade falar assim das cidades pequenas, que também têm seu encanto, mas... algumas coisas não mudaram, desde a época dele para cá...

um abraço!

Por: andré sala | outubro 20, 2006 12:01 PM

¨¨¨

Vc está vivo? Mandei emails e você não respondeu. Preciso do seu endereço para começarmos aquela troca de correspondências. Dê sinal de vida.

Abs

Por: Paulo Polzonoff Jr | outubro 21, 2006 10:06 PM

¨¨¨

claro, se não fosse assim, a primeira coisa que iriam dizer era que você era gay. É a fofoca mais fácil, uma "mão na roda" para os fofoqueiros. :p

Por: marie. | outubro 23, 2006 01:15 AM

¨¨¨

putz... não me diga que eu posso estar correndo esse risco??
Acho que preciso dar uma corrida na locadora de verdade!

um abraço

Por: andre sala | outubro 23, 2006 08:27 PM

¨¨¨

É sempre assim: fazendo ou não fazendo, todos sempre vão falar. É por isso que me tornei adepta do "falem mal, mas falem de mim".

Por: Fernanda Lizardo (Cooper) | novembro 8, 2006 04:51 PM

¨¨¨
 
 




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