— Cidade pequena... – disse para mim mesmo na hora de pegar as malas na rodoviária. — Sei bem como isso é...
Mentira, é claro, o tipo de coisa que a gente fala por falar. O funcionário demorou um pouco para localizar minha bagagem, soterrada entre tantas outras tralhas. E olhe que quando falo tralha é tralha mesmo, pelo menos as minhas eram.
— É essa daí, a ros... roxa – orientei o rapaz que recolhia as valises do ônibus. — A mala não é minha, só peguei emprestada – justifiquei a cor escandalosa.
Verdade, isso era verdade. Como dessa vez eu chegava a Francisco Beltrão de mala e cuia, precisei de muitas malas para levar tudo, peguei até umas emprestadas. Nem sabia que teria tanto recheio pra bagagem assim. Algo só justificável em época de concurso de miss, o que não era bem o caso. Ainda mais por causa dessa mala ros... roxa. Melhor pegar um táxi.
A corrida foi rápida, cidade pequena tem essa vantagem. O preço, porém, nem tanto. Batendo palmas avisei dona Nair da minha chegada. É ela a dona da casa a qual ocuparei o porão. Porão é maneira de dizer, na verdade é apenas o andar de baixo de uma bela casa. Tinha ido para lá porque era perto do meu local de trabalho, aliás, nem contei que vim para cá por causa da oportunidade de trabalho, não é? Saí da capital para trabalhar no interior, eu que sempre me achei o mais “cidade grande” vim para cá conhecer a beleza interior.
— Pode ficar à vontade, Alexandre – dona Nair, que sempre erra meu nome, disse.
O lugar era uma beleza, todo mobiliado com tudo que tem direito: sofá, cama, geladeira e fogão. Tranqüilo e com espaço de sobra, estava começando a gostar daquele lugar.
O dia começava a clarear na cidade e o tempo prometia esquentar embora tivessem me alertado do contrário. Tirei o agasalho e procurei algo para beber, porém não vi qualquer filtro ou algo de gênero. Abri a geladeira e também nenhum sinal de água. Sendo assim, tinha que ser da torneira mesmo.
Guardados dentro do armário sob a pia, lá estavam os copos. Peguei um e abri a torneira para matar a sede, mesmo sabendo que isso era pouco indicado. Ao completar a metade, virei o copo e daí veio a maior surpresa.
— Humm... delicioso!! – exclamei animado.
Em vez do gosto característico da água torneira, aquele cheiro forte de cloro, a água trazia um sabor delicioso, um gosto de... um gosto de... água!
— Uau, aí está a primeira grande diferença da cidade grande com a cidade do interior, a riqueza dessa terra é bem outra.
Evidentemente disse isso tomado pela emoção de saciar a sede de uma forma tão gostosa. Imaginava todo caminho do curso d’água até culminar no meu copo, algo como os documentários sobre vida selvagem. O local da nascente, onde o rio aos poucos ganhava vazão, o percurso banhando os lençóis freáticos. E todo esse caminho, toda essa peregrinação até chegar a mais pura e cristalina água à torneira da minha pia. Poxa vida, André, agora eu posso te dizer: bem vindo ao interior.
No dia seguinte, levantei animado e preparei um café sabendo do trabalho que me esperava. Sem esquecer do dia anterior, fiz questão de pegar aquela água puríssima, que nascia em mananciais paradisíacos e atravessava matas virgens antes de chegar à minha torneira. Aquela, sim, era uma boa maneira de começar o dia.
Ao final da tarde, terminei o trabalho pendente e pude finalmente descansar do expediente. Nessas horas nada mais indicado do que beber um copo daquela água maravilhosa, que carrega consigo toda a pureza do sudoeste do Estado: a água da minha torneira.
O tempo passou e as coisas seguiam tranqüilas por aqui. Eu aos poucos me adaptava as realidades locais, conhecendo um pouco da vida pacata do interior. Entre um gole e outro daquela água abençoada que jorrava milagrosamente na minha torneira, eu agora entendia porque muitos caras da cidade grande queriam tanto vir para cá.
— Você ainda não comprou um filtro, André? – me perguntou incrédula uma colega na hora do almoço.
— Eu? – tentei responder frente aos olhares apontados a mim.
— Pois então compre imediatamente!
— Não porque a água daqui é...
— ...de cemitério! – ela me interrompeu. — A água daqui vem direto do cemitério!
— Cemi-cemi o quê?
— Cemitério. Todo mundo sabe que a água coletada passa pelo cemitério, por isso todos aqui tem um filtro. Você ainda não comprou um?
— É que... – tentei responder algo, mas na minha cabeça em vez do filme da vida selvagem era outro tipo de documentário que passava. Imediatamente perdi a fome e somente depois de alguns minutos consegui pensar em algo.
— Quer dizer então que os mananciais, eles...
— Sim, André, eles não são “bem” mananciais.
12 de abril de 2007

