Com auxílio do banquinho da cozinha, conseguiu alcançar a prateleira mais alta do armário. Se equilibrando lá do alto, desceu trazendo aquela grande valise azul de couro. Era a velha mala com estampa do seriado mexicano, mas que ironia...
— Pronto, agora vai caber tudo! – comemorou.
Ele estava se referindo a todos apetrechos que carregaria e que seriam muito úteis naquele dia. Era tanto coisa que não seria qualquer mochilinha que daria conta de acomodar tudo. Tinha faixa, corneta, apito, cartaz, todo tipo de coisa, de preferência barulhenta e chamativa.
Sem perder mais tempo, tratou de abrir a mala e atirar todas aquelas coisas, ele estava atrasado. Enquanto preenchia o espaço, esticou os olhos e procurou o relógio no topo da sala. O relógio, que trazia como tema o mesmo seriado mexicano, apontava 10h30, exatamente a hora marcada que sairiam para o aeroporto.
— Ai, meu Deus... – disse ajeitando a faixa vermelha amarrada na cabeça.
Por conta disso, se lembrou das outras faixas que tinha mandado fazer que deveriam ser usadas hoje. Tinha saído uma nota preta, aliás, ainda mais porque teve que pagar um extra. Todas as gráficas estavam rodando material para a Copa, ninguém queria saber de protesto.
Ano de Copa é sempre assim, as pessoas esquecem de tudo e nem pensam em coisas mais importantes. Sim, ele estava falando de política, ninguém se preocupa com política em ano de Copa. Ele até ficava chateado, mas não podia culpar os outros quando lembrava do seu passado. Assim como muitos brasileiros, também não tinha muitas preocupações a cada quatro anos que não fosse a escalação da amarelinha. Porém, depois da última desilusão no campo político, foi obrigado a mudar o modo de pensar.
— Já desço, já desço!! – gritou da janela aos primeiros chamados de buzina.
“Uma decepção, uma decepção!”, era como definia o momento político atual. Ele nunca tinha tido uma desilusão tão grande com uma pessoa como teve nesses últimos anos. Ainda mais ele que acompanha até o hoje seriado mexicano que começou tudo...
— Ariba, Marcos, nosotros estamos muy atrasados!
— Desculpe, Juan, perdi tempo por causa do material do protesto e...
— Si, si, bamo-nos!! – disse apressado.
A kombi que eles estavam saiu atravessando o canteiro e seguiu avenida a baixo perigosamente a toda velocidade, ou seja, uns 65km/h. Não tardou muito fizeram mais uma parada para pegar outros manifestantes. Aos poucos o carro foi enchendo e pelo rádio eles ficaram sabendo que o avião do presidente atrasaria alguns minutos. Foi a um golpe de sorte, eles não conseguiriam chegar a tempo de qualquer jeito.
Era realmente uma grande coincidência a visita do presidente a cidade no exato instante em que sua indignação chegava a níveis mais altos. Não lhe restava outra opção a não ser se juntar a massa e mostrar sua revolta. Ele não era do tipo que acreditava muito em políticos, mas jamais esperava que a chegada à presidência pudesse transformar tanto uma pessoa, desde os tempos do seriado mexicano.
Durante a viagem ao aeroporto, os manifestantes tentavam ensaiar músicas de protesto. O Marcos repassava o material guardado na mala, ao mesmo tempo que tentava decorar alguns gritos de protesto. Logicamente o idioma não facilitava, já que era o único brasileiro do grupo. Decidiu então se contentaria apenas em estender a faixa.
Chegando ao salão de desembarque, avistaram logo o esquema de segurança destinado a visita de chefes de Estado. A imprensa também marcava presença, registrando a chegada do presidente. Logo em seguida, notou-se um burburinho, que denunciava a vinda da autoridade. Os gritos de protesto começaram a ser lançados e somente o Marcos permanecia em silêncio.
— Fuera Hugo Chaves, fuera Hugo Chaves! – gritavam os manifestantes.
“Hugo? Então o primeiro nome dele é Hugo?”, pensou. Os manifestantes venezuelanos ainda persistiam no protesto enquanto a faixa estava sendo armada, embora ninguém tenha entendido direito seu significado.
“Chaves, volte para o seu barril de onde nunca deveria ter saído!!”
Para a sorte dele, o seriado mexicano em questão não foi lembrado na hora, o que o salvou de um constrangimento quase diplomático. O presidente Hugo Chaves acabou passando pelo aeroporto sem que Marcos acabasse sequer notando. Se ao menos ele estivesse usando o chapeuzinho característico...
12 de abril de 2007

