Garnizé não quer mais nada comigo. Nadinha. Não me procura, não quer conversar, está agindo como se eu nem existisse. E veja que até fui atrás dele, cheguei toda feliz cumprimentando, me sacudindo inteira. Ele nem se dignou a me olhar. É que nem o pessoal diz, esses caras de hoje são todos iguais.
— Terça-feira. Terça-feira está bom para você?
— Só terça-feira? Não tem como ser antes disso, doutor?
— Espere só um pouquinho...
Ele ficou o tempo todo distante, ciscando pra lá e pra cá. Comigo não queria nada, passava por mim sem dizer uma palavra sequer. Cheguei até a encará-lo uma vez, tentando dizer “o que foi agora?”, mas ele nem deu bola. Já quando ele chegava perto daquelas cocotas, ficava todo aceso. Devia ver o jeito dele, todo falador, esbanjando simpatia. Nunca pensei que ele faria isso comigo.
— Vou estar viajando nessa semana e só retorno na outra segunda-feira.
— Poxa, mas que pena...
— Vou te deixar o cartão com o número do celular. Se houver qualquer alteração você pode me ligar.
— Posso mesmo, doutor?
— Se ocorrer algo que ache relevante, não se acanhe e ligue. A nossa consulta ficaria marcada então para terça-feira, ok?
E olhe que não sou lá de se jogar fora. Dentre todas do galinheiro sou, sem sombra de dúvida, a mais vistosa. Uma galinha de grande porte, padrão exportação. Coxas torneadas, calda plumosa e pescoço esguio. Graças a espécimes como eu, as galinhas caipiras são sinônimo de saúde e sabor. Tudo porque não temos uma vida sedentária, como as outras.
Eu, por exemplo, só me alimento de coisas naturais que vêm da terra, não fico ciscando qualquer coisa que aparece. Para tanto tive que aprender a usar o bico com habilidade, só assim consigo chegar aos melhores petiscos existentes. Sim, estou falando das minhocas!
— Caso não dê resultado, o senhor acha que talvez seja necessário medidas mais drásticas, doutor?
— É muito cedo para falar nisso ainda. Vamos aguardar mais um tempo e ver como o organismo reage.
Ahn, as minhocas... Eu as adoro, principalmente aquelas suculentas e rosadas. De todas, elas são as mais apreciadas, isso é uma unanimidade entre nós. Além do sabor inigualável, o desafio é outro atrativo. É difícil tirá-las da terra, isso sem falar de quando começam a se debater no nosso bico, “Upa, fique quietinha bichana!”.
Aqui no galinheiro, todos conhecem minha destreza lidando com esses petiscos e fariam qualquer coisa por uma daquelas rosadas. Todo mundo menos o Garnizé, outro dia eu ofereci e ele nem quis pegar. Estúpido, isso que ele é, onde já se viu ficar recusando comida. Eu tentando agradar e ele nem me dá pelota. Será que não percebe que eu faço qualquer coisa por ele?
— Doutor, só me diga mais uma coisa: ele está correndo riscos?
— Riscos? Que tipo de riscos?
— Riscos, doutor. Que risco ele está correndo ficando nesse estado?
— Risco? – o médico deu um sorrisinho. — Olhe, eu não iria falar nada, mas já que perguntou...
— Diga, doutor.
— Pra ser bem sincero, acho que a pior coisa que poderia acontecer com ele seria... seria... botar um ovo!
— Como é?
— Botar um ovo... eh he heh eh eh... botar um ovo seria a pior coisa! Ehehehe he he heh h...
— Doutor, eu não vejo graça nenhuma.
— Eh eh eh eh heheh... eu sei, eu sei… desculpe, eheheh ehe hhe desculpe, mas em todos esses anos atendendo eu nunca tinha visto um caso desses, com um marido que pensa ser uma galinha, onde já se viu eh eh he he... o marido pensar que é uma galinha!
— Já chega, doutor, por favor, já chega!
— Tudo bem – disse se recompondo. — É porque você me perguntou dos riscos e daí eu... deixa pra lá.
A mulher saiu brava do consultório sem saber se um dia retornaria. O doutor voltou a rir sem saber se acreditariam nessa história na próxima reunião da categoria. O marido continuava acreditando ser uma ave e sem saber por que as outras galinhas o olhavam com tanta estranheza. Só o Garnizé estava seguro de si, sabendo que jamais cogitaria a hipótese de corresponder aos olhares maliciosos daquele humano. Eu, hein?
12 de abril de 2007

