De frente para o espelho, ajeitava a roupa batida de sempre, estava pronto para sair. Como ultimamente tempo livre é algo que empesteia minha agenda, preparava uma visita ao amigo Clédisson Craveira, que andava meio sumido. Algo muito estranho, aliás, melhor conferir com os próprios olhos.
A última vez que o Clédisson apareceu em casa, ele estava contando sobre mais um dos seus planos mirabolantes que resultariam em uma fortuna eminente. Na empolgação a conversa se estendeu até altas horas, o que rendeu uma bagunça monumental, misturando pizzas com álbuns de fotografia. Isso antes dele desaparecer por completo, coisa que a prudência manda averiguar tudo bem de perto.
Cheguei ao seu prédio sem avisar para que não desse tempo dele se preparar, esconder o motivo do mistério ou tirar as algemas. Quando chego em frente a sua porta sou surpreendido por um cartaz gigantesco com uma foto de criança. Em baixo lia-se os dizeres “Happy Baby Publicidade”.
“Será que estou no lugar certo?”, pensei comigo mesmo olhando aquela figura do bebê. Nesse mesmo instante, o Clédisson estava saindo do apartamento, com algo diferente no ar.
— Clédisson, é você?
— E-eu... André!? – disse com surpresa. — Vo-você por aqui?
Disse para ele que estava estranhando sua ausência e resolvi fazer uma visita surpresa. Ele contou que estava finalmente alavancando o plano que prometia levá-lo a fortuna em poucos meses. Prontamente, me convidou a entrar e dar uma olhada no que tinha feito.
— Publicidade, Clédisson? É esse o seu plano?
— Exatamente. Não sei se sabe, mas publicidade é o negócio do momento. Ser publicitário é garantia de fama e muito dinheiro!
— Eh ehe he – não me contive. — Não diga um sacrilégio desses! Publicidade não tem nada disso. Pelo que eu sei, se trabalha muito e se ganha pouco.
— Ah é? Então que me diz desses caras aqui? – perguntou jogando duas revistas semanais que estampavam as figuras de Duda Mendonça e Marcos Valério.
— É... – tentei me explicar. — Mas nesses casos... – e não consegui.
Enquanto me distraia tentando encontrar as palavras, notei que o Clédisson tinha saído um instante para pegar alguma coisa. Voltou trazendo diversos cartazes e banners das tais campanhas que estava criando. Me animei em dar uma olhada, mas ele só concordou se eu jurasse que não roubaria a idéia ou fossa ligar para o senhor Washington Olivetto.
Concordei e ele me mostrou a primeira delas. Era a imagem do mesmo bebê feioso da porta de entrada e embaixo trazia dos dizeres: “Nenê quer papa”. Ao lado tinha a marca de uma comida dessas de bebê. Depois que mostrou o Clédisson ficou esperando que eu tecesse algum comentário.
— É... bom. Comida de bebê, “Nenê quer papa”, nada mal...
Depois que terminei, ele sorrindo puxou o cartaz e mostrou outro que estava logo abaixo. Era a mesma figura velha do bebê feinho com os dizeres: “Nenê quer mama”. Ao lado, via-se a logomarca de uma marca de leite integral. Novamente o Clédisson ficou me encarando esperando uma consideração.
— É... bom. Leite para bebê, “Nenê quer mama”, é isso mesmo...
Satisfeito, ele puxou o cartaz anterior e mostrou o que estava abaixo. Era a mesma figura do daquele bebezinho estrupiado com os dizeres: “Nenê quer abastecer”. Ao lado estava o emblema de uma empresa fornecedora de combustível. O Clédisson me olhava orgulhoso.
— É... bom... espera aí, “Nenê quer abastecer”??
— Calma, calma, esse último é o melhor. É o que vai ganhar todos os prêmios. Gramados, Cannes, o Oscar... todos eles...
Rapidamente, o Clédisson puxou o banner e mostrou todo faceiro o último deles. Era a mesma figura amarelada daquele bebê coxo, estrupiado e feioso com os dizeres: “Nenê não quer irmãozinho”. No canto podia-se ver uma dessas marcas de preservativo famosas.
— E aí, que tal? Genial, não é? – o Clédisson não conteve a satisfação. — Com essa campanha eu calculo tirar o pé da lama!
Diante de tanta alegria e entusiasmo do amigo, fiquei sem graça de contar a minha opinião sincera. Afinal de contas ele é uma boa pessoa e merece o meu apoio. Dei os meus parabéns e em pouco tempo deixava as dependências da “Happy Baby Publicidade” fechando a porta com a figura bizarra do bebê gigante.
Pensando mais calmamente, até comecei a achar que as campanhas do Clédisson tinham lá o seu valor. Eram criativas e até certo ponto engraçadas, talvez ele dê mesmo para isso. Apenas uma coisa permanecia na minha cabeça, de onde ele tinha tirado aquela figura com aquele bebê insólito? No final das contas, acabei ligando a televisão e esquecendo do assunto. Talvez um dia eu note que o álbum de fotografias ficou de repente um pouco mais fino...
12 de abril de 2007

