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Uma lembrança picante de carnaval

Estacionou o carro com bastante calma, desviando dos veículos que ocupavam o estacionamento da repartição. O senhor Araújo não estava acostumado a ter que fazer isso, normalmente era o primeiro a chegar e não tinha problemas para guardar o carro. Hoje, porém, não parece ser um dia como os outros.

— Como foi o carnaval, seu Araújo? – se arriscou um subalterno.
— Tudo tranqüilo... – respondeu de passagem.
O senhor Araújo não era muito de manter conversinhas com os funcionários, na verdade só falava o que era estritamente necessário. E estando ele na condição de chefe, o colóquio apenas se resumia a ordens. Era o tipo de pessoa que parecia ter nascido para ser chefe.

Mas naquele dia ele não parecia assim tão correto, pelo menos no tocante ao horário. Ele estava chegando pouco depois das 10h, algo até então jamais visto. Andando a passos lentos e calmos, Araújo seguiu até a sua sala sob os olhares atentos de seus subalternos.
— O que ele tem? – cochicharam.
— Pfu? – respondeu a secretária abrindo os braços.

Em pouco tempo, o caminhar cadenciado levou o seu Araújo ao escritório. Lá ele depositou sua pasta e pendurou seu paletó na cadeira, como faz todos os dias. Sem mais demora, logo entrou o primeiro problema, isto é, funcionário.

— Senhor, os relatórios que o senhor me pediu antes do carnaval...
— Carnaval... – murmurou de olhos fechados.
— Pois então, aqui estão eles – mostrou a pilha de papéis. — Sei que o senhor precisava deles antes do carnaval, mas eu... eu...
— Carnaval... tudo bem, Anacleto, pode ir...

“Posso ir?”, estranhou o funcionário antes de aproveitar a brecha e dar no pé. Pela quantidade de “senhor” empregado na frase, deu pra notar que Anacleto esperava ser trucidado como de costume, mas havia algo diferente com seu Araújo.

Vendo a pilha de papéis, o ele até pensou em mergulhar no trabalho, mas foi só se inclinar para pegar os relatórios que as lembranças do carnaval brotassem em sua mente. Lembranças essas que desde então o perseguem e encantam. Nessa hora ele se lembrou dos momentos que passou ao lado dela, quando agarrou-a pela primeira vez e a trouxe para junto de si.

Oh, o carnaval... durante toda vida o seu Araújo sempre ouviu histórias acaloradas sobre encontros de carnaval, mas ele nunca imaginou que um dia fosse sucumbir a uma delas. Ainda mais ele, um cara responsável, pai de família, exemplo de dignidade. Mas que nada, pensar que todos esses anos de conduta séria foram a baixo a partir do instante que colocou as mãos naquele corpinho esbelto, de pele macia. E como era macia...

— Seu Araújo – interrompeu Neide, a secretária. — O Otávio da sucursal de Catanduva ligou dizendo que não vai poder vir à reunião porque o carro deles ainda não ficou pronto do conserto.
— É... oi?
— O Otávio da sucursal de Catanduva não poderá vir porque...
— Tudo bem, pode ir, pode ir, Neide...

Reunião, relatório, problemas, ele estava farto disso tudo! Estava claro que ele não conseguiria trabalhar hoje. Por mais que se esforçasse, era só nela que ele pensava. Desse jeito não daria certo, ele tinha que achar uma saída. Rapidamente, apanhou as chaves do carro e saiu em disparada ao estacionamento. Vendo o transtorno do chefe, os funcionários foram logo abrindo caminho. Dentro do carro, seu Araújo se recordou de quando a acolheu no banco de passageiro, ela tinha acabado de sair do mar. Estava lá, toda molhada, selvagem, linda...

Sem mais titubear, deu a partida e saiu manobrando perigosamente no estacionamento. Por sorte, saiu ileso e quando respirou aliviado sentiu a sua flagrância ainda impregnada no banco do carro. Novamente seus pensamentos navegaram pelo seu corpo, degustando cada centímetro de sua beleza incontestável, aquela pele rosada, aquele rabo...

— Meu amor, você por aqui a essa hora? – perguntou a esposa.
— Sim, Irene. Só queria saber se ela está pronta.
— Está, mas vai ter que esperar até...

Araújo nem terminou de ouvir a resposta e já foi se dirigindo até a cozinha para enfim encontrá-la.
— Mas o que é isso, meu amor? – perguntou Irene. — Custava esperar até a hora do almoço?
O pescador nem conseguiu responder, estava apenas com os olhos arregalados devorando a tilápia de mais de 3 quilos que havia pego no feriado.
— Também essa foi a última vez que você passa o carnaval no pesque-pague...

12 de abril de 2007

Aêeee!
Parabéns, genial como sempre.
E imprevisível também...

Beijos

Por: Isabela | março 5, 2006 12:02 AM

¨¨¨

Aêeee!
Parabéns, genial como sempre.
E imprevisível também...

Beijos

Por: Isabela | março 5, 2006 12:03 AM

¨¨¨

valeu!
Pelo jeito funcionou... você já estava pensando besteira, né?

um abraço!

Por: andré sala | março 6, 2006 12:18 AM

¨¨¨

É eu também caí nessa tb. Já esta esperando um daqueles finais "quentes", mas vc me surpreendeu. Parabéns. ótimo texto, muito bem bolado...

Por: Carlinhos | março 14, 2006 09:13 PM

¨¨¨
 
 




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