— Celular? – perguntei incrédulo.
— Sim, só vou pegar o celular aqui...
— Celular?
— Só tenho que descobrir onde é que deixei... – disse revirando os objetos que costumeiramente entulham seu apartamento.
— Celular, Clédisson? – perguntei pela terceira vez de tão surpreso que fiquei.
E põe surpreso nisso. Desde que o mundo é mundo nunca tinha visto o Clédisson de celular. Ao que me lembre, ele nunca tinha cogitado essa idéia. No começo até pensei que ele fosse avesso à tecnologia, mas aos poucos percebi que ele até usava celular. O nosso. Ele não tinha celular de tão pão duro que era.
— Poxa, Clédisson, nunca pensei que você gastasse dinheiro com isso.
— E bota dinheiro nisso. Eu gastei uma nota preta nesse aparelho, é tanta prestação que nem nas Casas Bahia eles fazem!
— Caramba! Então deve ser daqueles de última geração, com câmera fotográfica, rádio FM, coleira anti-pulga...
— É... bom... mas ou menos... deixa só eu achar que te mostro...aqui! – exclamou ao encontrá-lo dentro de um pacote de Doritos Pizza. – Aqui está!
Muito cuidadosamente ele passou na camiseta tentando disfarçar o cheiro de pizza, mas o cheiro era o de menos. Na verdade o celular que ele comprou era um daqueles antigos, enormes, pesados, da primeira linha que saiu, esses que são até raros de se encontrar. Uma quinquilharia, pra ser bem sincero.
— Espera aí, Clédisson. Este é o seu celular novo?
— Esse mesmo. Paguei uma nota preta, mas acho que fiz um bom negócio.
— Mas Clédisson... – não me segurei. — por que você não me disse que estava querendo comprar um celular? Não sou um grande entendedor, mas não deixaria você comprar isso!
— Qual é? Isso é jeito de falar?
— Clédisson, tá na cara que te passaram a perna. Esse celular é dos antigos, peça de museu, não vale nada. O cara que te vendeu te enganou!
— Claro que não. Você que não sabe nada, André. Esse daqui é da nova companhia: a Morto-Tem-Tchau.
— Como é que é? Morto tem o quê?
— Morto-Tem-Tchau, uma operadora de telefonia que não presa pelo aparelho, mas pela qualidade dos serviços.
— Serviços? Mas o que pode ter... – sou interrompido pelo som estridente do celular do Clédisson, que atende.
— Alô... sim, é o Clédisson. Oi, Samantha, como vai você? – ele levanta as sobrancelhas para mim. — Pode falar, Samantha... se estou livre hoje à noite? Cinema? Poxa, Sá, é uma boa idéia, mas essa noite não vou poder, tenho que... que estudar, tenho uma prova na segunda...
“Caramba!”, pensei com os meus botões, o cara mal arranjou um celular e já colhe os frutos. Por que isso nunca acontece comigo?
— Como estava dizendo – disse após desligar o celular. — a Morto-Tem-Tchau possui o diferencial dos serviços e... – o telefone o interrompe novamente.
— Alô, é o Clédisson falando. Oi, Renatinha, como vai? Resfriadinha? Ai que pena... se eu toparia uma pizza na sua casa? Ia ser legal, mas hoje eu não posso, estou uma vovó aqui em casa – disse olhando para mim. — Ela está doente, coitada... quem sabe outro dia, né?
Assistir aquela cena do Clédisson Craveira dispensando duas moças em menos de 2 minutos me deixou profundamente irritado. Onde já se viu uma coisa dessas, pra uma ele diz que está estudando, coisa que não faz desde a época do Mobral, pra outra ele fala que está cuidando da vovozinha! Como é que ele faz uma coisa dessas?
— Calma, deixa eu explicar. Todo mundo paga uma nota preta comprando um celular super-moderno, com câmera, gravador, rádio e etc, mas se esquecendo de que vai falar com as mesmas pessoas desinteressantes de sempre, o patrão, o tio mala, o cunhado chato. A proposta da Morto-Tem-Tchau é um aparelho nada especial, mas com pessoas bem interessantes para conversar.
— Como é?
— Essas moças que eu atendi agora, por exemplo, elas nem me conhecem mas ficam me ligando o dia inteiro, me convidando pra sair. Não sei mais o que dizer...
— Não sabe? Ora bolas, aceita logo!
— Aceitar? Como assim?
— Aceita! Quando elas te convidarem aceite e as conheça pessoalmente!!
— Conhecer pessoalmente? Puf... – disse com desprezo. — Acha mesmo que se quisesse conhecer alguém pessoalmente eu teria comprado um telefone?
12 de abril de 2007

