Os primeiros pingos caiam ligeiros no pára-brisa do ônibus. Sem conseguir lugar para sentar, observava as nuvens carregadas invadirem o céu sem pedir licença. Se de manhã o sol que dava as cartas, o fim de tarde nos revelava algumas surpresas. Como estamos só no começo de janeiro, deve ser o que chamam de “chuva de verão”, aqueles torós que ocorrem o ano todo.
Enquanto lá dentro as janelas são fechadas com pressa, na rua os primeiros guarda-chuvas são abertos em sincronia. Pelo menos os precavidos que lembravam de trazê-lo, aos outros resta as marquises. Enquanto o congestionamento das seis começa a se formar, o aguaceiro aumentava, deixando a paisagem ainda mais caótica.
Com o coletivo plantado no trânsito, procuro alguma coisa para distrair nesse meio tempo. Olhando ao redor não se via muita coisa divertida, apenas trabalhadores que tentavam voltar para casa depois de um dia de trabalha. Talvez seja por isso que ficar olhando o tumulto lá fora foi a coisa mais interessante a se fazer.
Na rua todos andavam apressadamente, as pessoas de guarda-chuva se molhavam e os sem se encharcavam. Os mais corajosos que enfrentavam o pé-d’água sem se cobrir faziam careta de frio. No chão, as primeiras poças se formavam tornando o percurso cheio de obstáculos. Ufa, ainda bem que estou aqui dentro. Vendo daquele jeito, o ônibus pareceu o lugar mais confortável que existia no mundo. Pelo menos pela bagatela de R$ 1,80.
Pois é, com o tempo daquele jeito ficava claro que lá dentro nós até que estávamos bem, mesmo com o ônibus lotado e o oxigênio de segunda mão. As ruas começavam a alagar e as calçadas um sabão. Não demorou muito o primeiro escorregão fez um sujeito apressado molhar o traseiro. Enquanto todos olhavam preocupados, achei uma pena não ter trazido a máquina fotográfica.
O congestionamento deu uma folga e conseguimos andar mais um pouco. Só um pouco, pois logo paramos em um sinaleiro. Na calçada, um grande buraco se escondia em forma de poça. Só deu para perceber depois que uma senhora encaixou o pé fazendo cara de nojo, deu pra sentir que molhou o joanete. Mal pude esperar para ver outra pessoa cair no truque da falsa poça.
Aquela viagem estava começando a ficar divertida. Escorregões, tropeços e quedas em meio ao chão molhado até que tinham graça, pelo menos quando é com os outros. De tempos em tempos o ônibus trocava o cenário, mas sempre acabava parando em dessas ruas congestionadas do centro. Em cada cenário, novos obstáculos que os pedestres tinham que enfrentar. De tão interessado que estava, a todo instante desembaçava o vidro da janela para ver melhor aquele espetáculo úmido.
Próximo a uma dessas esquinas, uma mulher carregada de compras voltava do supermercado. Deve ser das corajosas, fazer compras com um tempo daqueles ou então foi pega de surpresa com a chuva enquanto pesava um pacote da laranja em promoção. Coincidência ou não, foi ela que me tirou a maior gargalhada daquele dia, quando um carro daqueles apressadinhos passou em uma poça dando um banho na senhora. A graça não tinha sido o banho propriamente dito, é que quando o ônibus passou por ela percebi que era a cara da minha sogra.
Refeito das risadas, comecei a me preparar para descer, a viagem tinha então acabado. É uma pena ainda estar chovendo, aquela simples chuva de verão estava se prolongando demais. O ônibus abriu a porta e eu saltei imediatamente. Como era o trajeto de casa sabia onde se escondiam os maiores riscos. Dando a volta pelo canteiro, fiz um desvio para fugir de uma parte que sempre alaga. Voltando à calçada, fugi de uma daquelas pedras soltas que sempre jogam lama na canela. Dei uns pulos com cuidado evitando um escorregão. Atravessei a rua de olho nos carros e cheguei na frente de casa sem problema. Até que não tinha sido tão difícil, tinha até parado de chover.
Enquanto buscava o molho de chaves para abrir o portão, o som de uma buzina me chamou a atenção. Quando me viro, uma onda de lama vindo da poça pula da rua e me pega de frente, como num beijo melado. Refeito do susto, tento ver o fdp que me aprontou aquela. Com os óculos sujos não consigo ver muita coisa, apenas me chama atenção uma mulher rindo dentro do carro. A mulher me parece familiar, aquela mesma de instantes atrás. Aquela com a cara da minha sogra.
12 de abril de 2007

