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Depois do “Boa noite”

O jornal vai acabar, está quase na hora. Me aproximo da televisão e aumento o volume, tudo deve acontecer a qualquer momento.
— Boa noite e bom final de semana.
— Boa noite – ela completa.

A musiquinha do telejornal começa a tocar e observo atentamente enquanto os apresentadores relaxam. O Heródoto Barbeiro ajeita aquelas folhas que carrega à mão. Folhas com as última notícias das agências internacionais, acredito eu, a Maria Julia sorri discretamente. É pelo sorriso dela é que desconfio que em vez de notícias o Heródoto tem nas mãos uma coletânea de piadas da internet. Tudo porque ele sempre acaba o telejornal sorridente, volte e meia faz algum comentário que arranca risadas dos colegas de trabalho, os outros apresentadores do Jornal da Cultura.

Se chegam a ser risadas eu não sei, não dá para ouvir. Sempre fico atento nesses instantes finais dos jornais para tentar escutar algum comentário extra, fora do script, mas nunca consegui ouvir nada. Eles sempre apagam os microfones dos apresentadores nos deixando com uma curiosidade danada.

Foi assim que um dia comecei a tentar ler nos lábios. Ler nos lábios, vocês sabem, aquela coisa de entender sem ouvir, só a partir dos movimentos faciais. Já que nunca consegui ouvir nada da conversa deles, eu poderia descobrir através da leitura dos lábios. O segredo estava em ficar atento, perceber as sutilezas. No começo é difícil, mas aos poucos vai se aprendendo. Eu finalmente descobriria o que acontece no encerramento dos telejornais.

Muito embora nunca tenha feito parte da KGB ou do serviço secreto norte-americano, acredito que as técnicas de espionagem sempre fizeram parte de mim. Nunca precisei estudar muito, sempre foi uma coisa intrínseca. Quando pequeno me lembro de certa vez tentar salvar a vida de uns amiguinhos da escola. Num ato de heroísmo, tomei todo suco que eles tinham trazido de casa para o recreio. Tive medo que algum deles fosse envenenado pela própria mãe e, sendo assim, não hesitei em arriscar a vida para salvá-los. Por sorte foi uma suspeita em vão, não foi naquele dia que tamanha desgraça se sucedeu. Porém, por via das dúvidas, na manhã seguinte repeti a operação.

Sobre os apresentadores, acho uma etapa importante para se entender as mensagens labiais é saber o contexto da vida de cada um. Por exemplo, o Jornal Nacional é apresentado pelo casal Fátima Bernardes e William Bonner. Outro dia observei conversas típicas de casal, tipo:

— O que tem pra janta? – ele pergunta.
— Abobrinha refogada.
— Acho que vou comer na casa de mamãe... – William Bonner responde.

É isso e logo acaba, não podemos esquecer que essas conversas duram poucos segundos. Geralmente é só uma frase solta, isso quando dizem alguma coisa. Mesmo assim faço marcação serrada, nunca perco esses momentos finais dos telejornais. Com o passar dos tempos, aos poucos a gente começa a perceber que os apresentadores têm perfis diferentes. O Carlos Nascimento, do Jornal da Band, tem um jeito mais irônico, às vezes termina comentando a situação política com o Joelmir Betting. A Ana Paula Padrão é mais séria, embora quando dê um sorriso até a audiência melhore. E por aí vai, cada jornal carrega um pouco o perfil do respectivo apresentador.

Mas de todos jornais televisivos que vejo, o Jornal da Cultura é o que mais me agrada. Talvez pelo fato de reservarem mais tempo para discutir mais a fundo os temas. Ao contrário do Jornal Nacional, que passam por eles de avião a jato. Além disso o Heródoto Barbeiro é um cara de bagagem, historiador que de manhazinha já está trabalhando na CBN. Acima de tudo é um cara sério.

— É impressionante como só soltam isso em cima da hora – vejo ele falando enquanto os créditos sobem.
— A reunião do COPOM? A taxa de juros Selic? – a Maria Julia pergunta.
— Não, falo da escalação do Corinthians!

12 de abril de 2007

Vejo que seu dom para investigação é extremamente apurado. Quem sabe a ABIN não te contrata? ;)

Por: Islane | janeiro 29, 2006 04:32 PM

¨¨¨

Um dos melhores. O Heródoto adoraria lê-lo.

Por: Fernanda | janeiro 29, 2006 06:22 PM

¨¨¨

Abin? Associação dos Bisbilhoteiros Intrometidos Naturistas? Acho que não, eles sabem que eu morreria de vergonha...

Por: andré sala | janeiro 30, 2006 03:12 PM

¨¨¨

legal que tenha gostado, fernanda. Talvez nunca descubra o que eles falam quando sobem os créditos, mas pelo menos já rendeu alguma coisa.

Por: andré sala | janeiro 30, 2006 03:14 PM

¨¨¨

Realmente um texto divertido. Ótimo para aqueles que adoram jornalismo, telejornais e afins, como eu. Ótimo para ler no trabalho e sorrir, como fiz :)

Por: Mark | fevereiro 10, 2006 11:01 AM

¨¨¨

legal que tenha gostado, assim como você também sou um adorador do assunto, tanto o bom quanto o mau telejornalismo. Sobre ler e sorrir, fico contente, pois é mais ou menos isso que faço quando escrevo.

um abraço!
andré

Por: andre sala | fevereiro 12, 2006 12:07 PM

¨¨¨

Excelente texto. Quanto ao Heródo é indiscutível sua capacidade em se tratando de jornalismo sério. Tanto você quanto ele e todos nós, ficaremos imbatíveis se descobrirmos o sentido da vida através da leitura do livro "Uma Vida Com Propósitos", com seus textos básicos. E com certeza não perderemos o bonde da vida. Eu! Já estou no vagão.
Forte abraço!
Moysés

Por: Moysés Alves | março 28, 2006 10:28 AM

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