Os passos rápidos denunciavam minha pressa, queria chegar em casa antes da chuva que se anunciava. Chegando no ponto de ônibus fora do horário habitual, noto que o meu coletivo já deve ter partido, o que me garantiria alguns bons minutos de espera. Isso que dá trabalhar até mais tarde.
Me distraio olhando ao redor sem notar a chegada de um ônibus. Não o meu, era uma linha que até então não conhecia. Fico intrigado por alguns instantes enquanto a fila de pessoas se forma. Mas o que chama atenção não é a fila, muito menos as pessoas, estranho era o nome do ônibus: “Terminal Paixão”.
Não agüento de curiosidade e pergunto a um senhor ao meu lado sobre essa nova linha até então desconhecida.
— Nova linha? – ele responde. — Não, eu pego esse ônibus há mais de 20 anos.
Que coisa estranha, pensei. Essa informação já serviria para me deixar confuso, mas o que o senhor disse em seguido me deixou ainda mais intrigado:
— 20 anos pegando esse ônibus e não consigo ficar sem! Um dia eu ainda morro disso...
Peraí? Que tipo de ônibus era esse? Como é que eu nunca tinha ouvido falar nele antes? “Terminal Paixão”, o ônibus que o velhinho disse que ainda morre pegando. Busquei uma explicação lógica, mas minha mente sofreu uma enxurrada de flashs nada católicos. Poxa vida, eu tenho que ver isso de perto! Antes que a porta se fechasse eu adentrei confiante. “Terminal Paixão”, esse era o nome da minha nova linha!
Porém, não demorou para a expectativa se for. Lá de dentro podia-se ver que era um ônibus normal cheio de pessoas normais. Trabalhadores ocupados, jovens do colégio, donas de casa e por aí vai. Como já tinha pago a passagem, me sentei num lugar vago desejando levar essa história até o fim. Mesmo assim ainda tinha a esperança de ver uma dançarina semi-nua entrando a qualquer momento.
Analisando o ambiente, mal pude perceber que o ônibus estava ganhando a auto-estrada. Lá dentro as pessoas continuavam impassíveis, com cara de paisagem. Comecei a sentir um estranho cheiro de fumaça, mas pelo jeito fui o único a perceber, pois lá todos pareciam preocupados demais com seus pensamentos.
O ônibus continuava se afastando e nenhuma dançarina semi-nua fez sinal para entrar. Já estava por demais decepcionado e lembrei que tinha um bocado de coisas para fazer em casa. Resolvi pôr um fim na viagem e conhecer o tal Terminal Paixão.
Me levantei e puxei a cordinha. O cheiro de fumaça estava mais presente, algo também percebido pelos demais passageiros. O ônibus continuava acelerando e quando vi acabou passado reto pelo ponto. Tornei a apertar o botão com raiva.
— Motorista, eu estou querendo descer!
Mesmo assim o ônibus continuava seu percurso. Ao mesmo tempo, a fumaça já podia ser vista saindo da parte traseira do coletivo, vinda do motor. Os passageiros se abanavam tossindo. Ao meu lado, mais e mais pessoas pareciam querer descer. Mas a velocidade do ônibus tornava difícil permanecer de pé.
— Motorista, pare esse negócio!
— Está saindo fumaça daqui de trás!
O ônibus já estava nitidamente descontrolado. Até o cobrado tinha caído do alto da cadeira enquanto contabilizava o dinheiro.
— Motorista, pelo amor de Deus!
Nesse instante sentimos um forte tranco e lá do fundo vimos o corpo do motorista se inclinando para o lado.
— O motorista está morto!
O pânico se instaurou. As pessoas tentavam gritar, mas a fumaça já dificultava até nisso. Me segurando firme para permanecer em pé, notei logo atrás aquele velhinho. Ele parecia ser o único se divertindo.
— O motorista está morto. Ele sempre morre na viagem. Uhu-huuu!! – urrou satisfeito
Como assim, quer dizer que então que isso sempre acontece? Pegar o “Terminal Paixão” é o mesmo que embarcar numa viagem descontrolada, onde o motorista morre no meio do percurso?
— Fogo!! – grita uma passageira lutando contra as labaredas.
Com o ônibus descontrolado, muitos pensavam em pular pela janela, mas a alta velocidade afastava até os mais corajosos. Permanecer lá também não dava, o fogo rapidamente se alastrava. Para piorar, o ônibus tinha atravessado o canteiro e corria agora na contra-mão. Uma batida parecia questão de tempo.
— Emerson? – um cutucão no ombro. — Você ainda está aqui?
— Dr. Bittencourt? – respondi de susto. — É que eu estava muito cansado e...
— Tudo bem, tudo bem. Vá para casa, meu rapaz, já passou de sua hora. Além do mais, não vou querer ficar pagando hora extra para funcionário cochilar.
Juntei minhas coisas e rapidamente saí do escritório do Dr. Bittencourt. Somente quando estava na rua me dei conta de que tudo não passava de um sonho. Cheguei ao ponto de ônibus e quem estava lá era o São Braz de se todos os dias. A viagem correu sem o pânico de instantes atrás. Tudo parecia tranqüilo sem as emoções descontrolado do “Terminal Paixão”. Parecia...
Cheguei na portaria do meu prédio e vi o elevador se fechando devagar. Para aproveitar a carona, dei um pique até alcançá-lo. Quando entrei dei de cara com ela, franja nos olhos, toda atrapalhada com as compras do supermercado. Nossos olhares se cruzaram num instante infinito, foi impossível não sorrir. Na verdade nunca tinha visto ela antes, eu tinha que fazer alguma coisa, puxar qualquer assunto.
— Você está... você está sentindo um cheiro... cheiro de fumaça?
— Hãã?
12 de abril de 2007

