“Din-don” fez a campainha em resposta ao polegar insistente. Nem sabia ao certo se seria atendido, não avisei Clédisson Craveira que viria. Uma visita surpresa, é verdade, coisa não muito comum de se fazer em Curitiba, mas me senti na liberdade de fazê-lo após algumas aparições repentinas do colega. Colega este que andava meio sumido, pelo menos em casa parou de dar desfalques na geladeira.
— Oi? É vo-você? – disse abrindo a porta.
— É claro que sou eu, Clédisson, comprei umas cervejas e resolvi passar aqui – mostrei a sacola para evitar ser barrado.
Rapidamente fui convidado a entrar. O interior de seu apartamento estava a mesma bagunça de sempre, assim como da última vez que vim visitá-lo. Aliás, acho até que estava igual porque desde então ele não tinha sido arrumado.
— Poxa vida, Clédisson, está na hora de você arranjar uma mulher para te botar na linha – retirei uma meia do sofá para me sentar. — Ou pelo menos uma diarista...
Mas a bagunça em si não me preocupava, estranho mesmo estava o próprio Clédisson. Sua cara estava pálida, cansada, isso sem falar no seu visual, enrolado num roupão e com uma faixa estilo Karatê Kid na cabeça.
— Essa faixa na cabeça, essa cara... você está bem?
— Sã-são só exer-exercícios.
— Exercício? – perguntei incrédulo.
Ele explicou que estava tentando entrar em forma. Para mim aquilo era novidade, já que o Clédisson nunca pareceu ligar pra isso. A coisa mais próxima de atividade física que ele se interessava era o campeonato de chopp em metro. Mesmo assim nunca vi ele ganhando, dizia participar só pelo amor ao esporte.
— Mas Clédisson, como você teve essa mudança repentina?
Prontamente ele me passou uma revista com uma matéria assinalada com caneta. Era uma enquete com várias mulheres dizendo o que achavam de mais nos homens. E entre todas as respostas, a que ficou em primeiro lugar dizia a respeito dos homens com barriguinha.
— Sim, mas o que isso tem a ver?
— Con-continue le-lendo.
A matéria prosseguia dedicando mais umas cinco páginas destruindo a tal da barriguinha. Elas falavam o quanto era deplorável, o quanto era ridícula, o quanto as mulheres achavam repulsivo no sexo oposto.
— Tudo bem, já entendi. Mas o que você tem a ver com isso, Clédisson? Você nem tem essa barriga toda!
— Vê-veja no fi-final.
A matéria terminava com um teste para saber se a pessoa tinha propensão a adquirir uma barriga avantajada. No caso do Clédisson estava assinalada a opção “C – Bolo Fofo em Potencial: ainda não tem, mas deve iniciar o quanto antes o tratamento com AbdoPower”.
— Espere aí, Clédisson, você só pode estar brincando. Não me diga que você acreditou nisso?
— Is-isso.
— Então foi por causa dessa matéria chulé que você começou a fazer esses exercícios? Começou a fazer esses exercícios e está aí todo pálido, gaguejando. Ainda mais você que nem tem ainda essa barriga toda – dei um tapinha na barriga, que soltou um ruído metálico. — O que é isso aí?
— Me-meu exercício – respondeu abrindo o roupão e exibindo o aparelho.
Quando cheguei mais perto, vi o nome “AbdoPower” gravado na placa de metal. Era uma dessas maquininhas de abdominais que funcionam dando choque na barriga do cidadão. Imediatamente forcei-o a tirar esse negócio, onde já se viu achar que isso funciona.
— São mais de 90 abdominais por minuto – se defendeu agora sem gaguejar.
— Conversa pra boi dormir. Deixe eu levar embora, isso não está te fazendo bem – disse me despedindo.
Chegando em casa, analisei mais calmamente o tal aparelho e percebi que havia um anuncio bem ao lado da matéria da revista. Puro golpe, pensei. Sem mais demora, comecei a ler a reportagem enganadora e os depoimentos tendenciosos que induziam o leitor a comprar a máquina de choques. Em poucos instantes, a leitura começou a ficar interessante e sem perceber acabei ficando a tarde toda aprendendo sobre com evitar a tal barriguinha. Era tarde da noite quando o telefone tocou:
— Alô, André? Sou eu, Clédisson. Estava pensando melhor e vi que você estava certo, esse negócio de perder a barriga é tudo besteira. Não sei como pude cair nessa história e... alô, André, você está aí?
— O-oi... po-pode falar...
— André, você está me ouvindo? Aconteceu alguma coisa?
— Nã-não, só exer-exercícios...
12 de abril de 2007

