Aquele carrão branco seguia devagarzinho de encontro à moça.
— Por gentileza, sabe me dizer onde fica a Rua Otávio Néridas? – perguntou esticando o pescoço para fora.
— Como disse?
— Otávio Néridas, estou procurando há um tempão...
— Poxa, me desculpe, mas não sou daqui...
— É de Santa Catarina?
— Não!? – estranhando a pergunta.
— Geralmente as mulheres bonitas da cidade vêm de lá.
— Que é isso... – disse encabulada.
— Então do Rio Grande do Sul, onde as mulheres são bonitas e de personalidade forte.
— Errou de novo, sou de Goiânia, conhece?
— Como não conheceria se toda minha família vem da lá!
Daí por diante as coisas tomaram o rumo de sempre, não demorou muito a conversa saiu da rua e ganhou uma mesa de bar, era mais uma das conquistas de Jorge Maurício e essa ele fez sem ter sequer um parente em Goiânia. Na manhã seguinte, os transeuntes se aglomeravam para ler os jornais pendurados nas bancas, em um deles as páginas policiais estampavam “MORTA A GOLPES DE FOICE! Mulher atacada com golpes no pescoço sangrou até morrer esperando atendimento médico”.
— Rua Otávio Néridas, conhece?
— Otávio Méribas... não conheço. Tem certeza que fica aqui?
— Olha, certeza certeza eu não tenho – confessou desligando o motor do carro. – Só estou na cidade há três semanas.
— E logo que emprego foi arranjar, hein...
— Ainda não estou acostumado a essas ruas, essas árvores. Isso sem falar em olhos azuis como os seus.
— ai... obrigada, são verdes – agradeceu com o rosto todo corado, quando isso acontecia ele sabia que já tinha meio caminho andado.
Era só questão de tempo, em breve se tornaria mais uma na lista de Jorge Maurício. No dia seguinte, os jornais exibiam uma foto de embrulhar o estômago e letras garrafais explicavam tudo: “PUNHALADA PELAS COSTAS! Homem despacha amante que agoniza sem socorro”.
— Otávio o quê?
— Néridas, Rua Otávio Néridas – enfatizou puxando o freio de mão e estacionando o carro.
— Olha, moço, nunca ouvi falar. E olha que sempre morei aqui.
— Sempre morou aqui? – fingindo cara de surpreso. – Isso não pode ser, eu passei a infância no bairro e nunca te vi!
— Não, todo mundo me conhece pelas redondezas...
— E olhe que não me esqueceria de alguém como você.
— Como assim?
— E dá para se esquecer de uma morena de cachinhos como você?
— Ai, moço... – disse encabulado e ajeitando os cabelos.
Mais uma partida ganha, Jorge Maurício não perdia uma. O resultado disso era mais uma manchete no jornal: “MORTA COM TRÊS BALAÇOS NO PEITO! Acerto de contas termina com três disparos a queima-roupa. Vítima ainda rastejou duas quadras sem que nenhuma ambulância viesse”.
Chamado às pressas, Jorge Maurício entrou na sala do chefe temendo seu emprego. Sentado em sua mesa, o patrão fumava com um ar nada amigável. Esperou o Jorge sentar e atirou os jornais policiais no seu colo e comunicou com rispidez:
— Sabe o que isso significa? Você está despedido!
Sem qualquer argumento, ele não tinha o que alegar. Jorge Maurício agora estava desempregado. É claro que ele não tinha matado ninguém, mas um motorista de ambulância que se preocupa mais com as moças da rua do que com os infelizes das páginas policiais não serve pra muita coisa. Tomara que agora contratem alguém que chegue na hora certa e possa atender as emergências a tempo, até aquelas na Rua Otávio Néridas...
12 de abril de 2007

