“Preciso de um amante. Preciso urgentemente de um amante!”, era a única idéia que passava na cabeça de Soraia para resolver os problemas matrimoniais. Não que tivesse problemas matrimoniais. Na realidade um matrimônio seguro e estável era o seu maior problema. Definitivamente o que ela precisava era de mais emoção, a mesma emoção que ouvia nas histórias de suas amigas, todas tinham pelo menos um amante. Pode parecer exagero, mas naquela perfumaria onde trabalhava simplesmente todas as moças tinham uma vida paralela com outro homem. Nem todas eram casadas, mas enganar os parceiros era uma prática comum e aconselhada naquele grupo.
Chato mesmo era quando chegava a vez de Soraia dar o seu depoimento e, diante de todas colegas, era obrigada a dizer que não tinha outro além do Edvaldo, seu marido. Um silêncio de desapontamento interrompia aquela roda animada. É claro que ela se sentia culpada, afinal de contas estávamos no século XXI e a revolução sexual já era uma coisa tão antiga que suas militantes deviam estar todas num asilo tratando da osteoporose. Não demorou muito Soraia ganhou o apelido de Amélia, o que a fazia se sentir ainda mais diminuída.
Quando chegava em casa completamente arrasada e Edvaldo sempre muito companheiro vinha lhe consolar, Soraia nem sabia o que dizer, apenas o abraçava. Mas no seu íntimo tinha certeza que aquilo não poderia mais ficar assim, se era de uma amante que ela precisava era uma amante que ela iria ter.
Acordando ainda mais bela do que sempre fora, Soraia se despediu de Edvaldo carinhosamente prometendo chegar no dia seguinte a tempo de preparar o almoço. Ela arranjara um pretexto ideal para dar uma escapada de uma noite, iria ajudar uma velha tia que passava dificuldades num lugar onde nem o telefone chegava. O tipo de história estranha, mas que para Edvaldo soava plausível simplesmente por ter saída da boca de Soraia.
Chegando à perfumaria, tratou logo de avisar as amigas que aquele seria o dia em que arranjaria um amante. As moças pularam de alegria e vieram parabenizá-la pela iniciativa corajosa. Uma delas inclusive se prontificou a levar a amiga para uma casa noturna onde as coisas realmente aconteciam. Soraia aceitou e lembrou que teria que ser hoje. Estava tudo pronto.
Já passava da meia noite quando o táxi chegou ao endereço da tal casa noturna. As expectativas de Soraia eram tão grandes quanto a fila que dobrava a esquina. Pacientemente as duas amigas aguardaram até que pudessem entrar. Lá dentro, o som era altíssimo e a fumaça de cigarro não possibilitava enxergar muita coisa. Soraia se lembrou da última vez em que esteve num lugar desses mas se sentiu acanhada de dizer, pois já fazia vários anos. Para ajudar a novata a se soltar um pouco mais, a amiga se prontificou a trazer um drink mesmo sabendo que Soraia não bebia. Enquanto esperava, Soraia tratou de procurar um possível candidato a amante. Tarefa nada fácil, constatou decepcionada. Em contraste de alegria voltou a sua amiga, segurando um drink em cada mão e um sorriso maroto tratou de cochichar:
— Sô, te prepara! Conheci um rapaz fantástico lá no bar, o nome dele é Alex. E ele está com um amigo que achei a sua cara, o nome dele é Patrick. Ficou todo interessadinho em te conhecer!
As duas amigas riram descontroladas, Soraia por puro nervosismo, é verdade. E pouco depois os dois rapazes já estavam chegando. A amiga então fez as formalidades:
— Sô, esse aqui é o Alex... e esse o Patrick.
Ainda encabulada, cumprimentou o primeiro sem muita intimidade, por outro lado, quando os olhos de Soraia cruzaram com os de Patrick foi como se já se conhecessem há vários anos, a sintonia foi imediata. Não precisaram conversar muito para que fossem dançar a primeira música e em seguida dessem o primeiro beijo. Como não poderia deixar de ser, passaram o resto da noite juntos e no dia seguinte era só isso que se comentava na perfumaria. Soraia nunca mais foi chamada de Amélia e se tornou um exemplo de mulher independente e moderna. Freqüentemente alguma colega perguntava como ia o romance com o Patrick ou então se o Edvaldo desconfiava de alguma coisa. Soraia apenas ria.
É claro que ela ria, afinal de contas era a única a saber que na verdade Edvaldo e Patrick eram a mesma pessoa. Pura obra do acaso, pelo menos foi o que ela me disse. Quando lhe apresentaram o Patrick simplesmente deu de cara com o Edvaldo, jura ela de pé junto. Pessoalmente ainda tenho minhas dúvidas. A gente nunca sabe quando as mulheres estão falando a verdade, ainda mais quando são essas mulheres modernas.
12 de abril de 2007

