No chão sujo do ponto de ônibus, ela ficava batendo os pés de impaciência. Esperando o bendito, claro, que mais uma vez não chegava apesar do contingente que o esperava. Ainda mais num dia como hoje, em que a patroa estava atacada, matando cachorro a grito. Mas tudo bem, quem se importa com cachorro? Ela gostava mesmo era dos gatos que tinha, três ao todo, pelo menos se o seu gato mais velho voltasse. Essas fêmeas de hoje em dia não são fáceis, ela pensava, não podem ver um gato sério que vão logo atrás. Dá pra imaginar que a conversa aí já não estava tratando de gatos, na verdade ela pensava no marido, aliás, ex-marido.
— Ele sempre demora assim? – perguntou para a moça que estava ao lado no ponto.
Quando chegasse em casa teria preparar a comidinha deles, não era fácil não. Pelo menos não te deixam na mão, era o que sempre dizia quando alguém se surpreendia com a trabalheira que esses bichos davam. Mais uma vez ela não falava de gatos, sim do marido, aliás, ex-marido.
Olhando para o relógio, percebeu que o atraso do coletivo superava os dez minutos, um absurdo, claro. E o ponto de ônibus parecia ficar menor a cada instante, cheio de pessoas entulhadas. Na maioria mulheres, ela notou. Os poucos homens que havia não a interessavam. Uns velhos demais, outros muito novos. Os que sobravam... Mas quem se importa, ela estava esperando mesmo era o Grande Amor. De todas as mulheres que ali aguardavam, ela era quem mais precisava do Grande Amor, ao menos foi o que pensou, precisava encontrar logo seu gato.
E no meio desses pensamentos que davam voltas, ela mal pode perceber que o ônibus estava dando uma volta na esquina, finalmente iria parar. À medida que o ônibus foi chegando, pôde notar com maior clareza o motorista que guiava o veículo. Apesar do uniforme que padroniza a todos, algo lhe disse que aquele rosto era conhecido. Aquele braço forte, segurando o volante, sem falar da franja que caía levemente sobre o rosto. É claro que já o conhecia de outras viagens. Aquilo só poderia ser um sinal: estava diante do Grande Amor.
Devido à quantidade de pessoas dentro do ponto, percebeu que não seria nada fácil conseguir o seu lugarzinho no ônibus. E realmente não foi. Na verdade ela teve que esquecer os “com licença” e saiu distribuindo cotoveladas para os mais apressados. Nada mal para quem só tem dois cotovelos. Quando deu por si reinava absoluta no interior do coletivo. Abrindo a carteira, foi tratando de pagar a passagem sem esconder a satisfação de viajar com o Grande Amor. Nos assentos que ainda estavam vazios, sentou-se pensando no gato e quando ele voltaria (refiro-me ao felino).
Não é que em meio a esses pensamentos ela acabou mal percebendo o itinerário que o ônibus fez. Como estava com o Grande Amor, sabia que tudo daria certo. Mas não foi isso que aconteceu. Quando caiu em si, notou que estava num lugar desconhecido, diferente do habitual, sabe Deus onde. Atordoada, se dirigiu até o motorista para tomar satisfações, obrigando o moço a parar o ônibus fora do ponto. Ao explicar o engano, a moça foi saindo cabisbaixa pela porta da frente mesmo. Antes que se foi, ainda falou as últimas palavras:
— Eu pensei... eu pensei que você fosse o Grande Amor! – já com os olhos cheios d’água.
— Grande Amor? – pensou o rapaz – xiiii dona, o Grande Amor não passa por aqui. Esse daqui é o alimentador Mossunguê. O Grande Amor você só pega lá no terminal.
“Droga!”, foi o que conseguiu pensar. Mais uma vez ela tinha pego o ônibus errado. Agora pôde se lembrar de onde que conhecia o motorista, foi da outra vez que tinha errado o ônibus. Essa linha Grande Amor sempre se atrasava, não tinha jeito. Coitados dos gatos, que iriam passar fome mais uma vez. Talvez os outros fossem fugir agora. Se ao menos encontrasse o Salvador da Pátria. Pena que essa outra linha também não passava por esses lados...
12 de abril de 2007

