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Condenado a inocência

Era tarde da noite, madrugada de clima agradável. O silêncio imperava no bairro residencial e nas casas não se ouvia qualquer ruído. A grande vantagem de se morar por aquelas bandas, Otávio Augusto sempre dizia. Vizinhança conceituada e educada. A tranqüilidade, o silêncio...

— Nããããããããããoo!!!! – foi o grito desesperado que rompeu a escuridão.
Otávio Augusto estava tremendo de pavor. Ele tinha acabado de ter um pesadelo e o olhar apavorado fez com que a esposa logo percebesse a gravidade.

— O que foi isso, Otávio? Fale comigo, que cara é essa?
— A ca-ca-casa... as as crian... no-nos-nossas coisas-sas...
— Calma, Otávio, respire primeiro. Isso... tome alguma coisa – pegou um copo sobre o criado-mudo. — Foi só um sonho, fique calmo.

Otávio tentou virar o copo enquanto respirava ofegante, não demorou a se engasgar. Ele estava intranqüilo e sabia que não haveria copo d’água no mundo que apagasse da memória o sonho que tinha tido.
— Calma, Otávio, beba devagar. Fique tranqüilo, não aconteceu nada.

Nada? Não aconteceu nada pra ela, Otávio tinha passado a pior noite da sua vida. E tudo isso num único sonho, aliás, pesadelo. Nesse pesadelo ele deu de frente com seus maiores temores e teve que responder por todos seus atos. No sonho, ele não pôde contar com os seguranças que o acompanham e nem com os muros altos que protegem sua casa. No sonho ele estava só.

— Isso não pode ficar assim, tenho que fazer alguma coisa enquanto ainda é tempo.
Rapidamente Otávio saiu do quarto em direção ao escritório. A mulher até pensou em segui-lo, mas as cobertas lhe pareceram mais atraentes.

— 17... 31... 88... 14... – Otávio cantava em voz alto a senha do cofre.
Depois de aberto, ele retirou uma grande pasta verde repleta de documentos. A papelada continha provas contundentes sobre todos esses anos de vida pública. Não que Otávio Augusto atuasse diretamente nos cargos políticos, mas integrava aquela porção público/privada menos visada e onde tudo acontece. Otávio estava disposto a contar tudo e evitar as catástrofes vividas no sonho enquanto ainda podia.

— Aqui está – disse entregando em mãos a pasta ao juiz. — Aqui estão as provas de tudo que eu lhe contei.
— Com licença, meritíssimo, eu peço licença para me apresentar – entrou na sala reservada da autoridade. — Dr. Elisberto Tavares, advogado do senhor Otávio Augusto.
— Dr. Tavares? Quem lhe chamou? – Otávio perguntou surpreso.

— Meritíssimo, o meu cliente não está em condições de depor. Ele está sofrendo um stress muito forte, aqui está um parecer médico confirmando – disse repassando um atestado.
— Stress? Não, isso não! Eu estou muito bem! Nunca estive tão bem! Estou tão bem que vou contar toda verdade!
— Meritíssimo, como dá para perceber pelo nervosismo e euforia, o meu cliente está sob forte medicação, anti-depressivos para ser mais exato. O que justifica que não seja realizado um depoimento agora... – apresentou uma receita médica prescrita.

— Sendo assim... – o juiz acatando aos argumentos do advogado.
— Medicamento? Claro que não, isso não é verdade! Eu reintegro minhas afirmações sobre o envolvimento de meu grupo empresarial com o governo e...
— Meritíssimo, o meu cliente se encontra num estado de confusão mental devido ao trauma gerado pela última gravidez de sua esposa.

— Gravidez? É mentira! Eu e minha esposa sequer temos filhos!!
— Justamente, meritíssimo, sua esposa Shirley Miranda Fonseca sofreu um aborto após 8 meses de uma gravidez complicada e dolorosa. Aqui estão os laudos...
— Minhas condolências... – o juiz se mostrou tocado. — Você deve estar sobre forte emoção, o que explica...

— O quê? Isso nunca aconteceu! Dr. Tavares, quem foi que chamou você por aqui? Eu estou querendo tornar púbico todo esquema!
— Fique tranqüilo, senhor – disse cochichando. — Esses momentos de honestidade costumam ser breves e passageiros. Pode deixar que eu cuido de tudo – terminou com uma piscadinha.

— Bom, já que o senhor Otávio Augusto se encontra em um momento tão complicado de sua vida pessoal, acho conveniente esquecermos todo o ocorrido – o juiz disse devolvendo a pasta verde.

Vendo a reação do jurista, que acatou os argumentos mentirosos do advogado, Otávio perdeu a paciência e sacou um revólver escondido na cintura.
— Assim você não me dá outra alternativa, Dr. Tavares. – carregou o trabuco. —
Esse é o único jeito de você me deixar contar toda verdade – disse antes de efetuar três disparos a queima roupa no advogado.

No escritório, todos parecem paralisados de terror pela cena chocante. O Dr. Tavares ainda cambaleou alguns passos em direção ao juiz enquanto os guardas cercaram Otávio Augusto.

— Meritíssimo – o advogado disse com dificuldade. — O meu cliente é réu primário... tem moradia fixa... e curso superior completo. Solicito que... que possa responder o inquérito... em liberdade – disse antes de cair morto.

O juiz sensibilizado, acenou para os guardas que cumpriram os últimos desígnios do advogado, liberando Otávio Augusto.

12 de abril de 2007

xii... priscilla, não devolva a bola pra mim que isso eu também não
sei responder. Talvez seja um pouco das duas coisas, não dá pra rir
nem pra chorar. Juntando-se a isso, você também deve estar meio
sensível hoje.
Um abraço!

Por: andré sala | novembro 23, 2005 12:43 PM

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