— Malditos andróides... – Reginaldo resmungou baixinho ao trombar com um grupo de jovens no ônibus.
Os andróides estão por toda parte, aonde quer que você vá sempre dá de cara com um deles. Andróides disfarçados, é claro, eles fingem ser como a gente para poder se misturar à multidão. Conseguem enganar muitas pessoas. A maioria delas, pra falar a verdade.
— Podia, por gentileza, abrir a janela? – pediu educadamente uma senhora no ônibus.
— Mas é claro, vovó – respondeu docemente.
Os andróides conseguem enganar muitas pessoas, mas não todas.
— Superaquecendo os fusíveis, não é? – se virou para a mulher. — Melhor abrir tudo antes que dê pane nos circuitos!! – exclamou escancarando a janela.
A velhinha saiu assustada de onde estava sentada. Os passageiros tentavam entender a reação tão absurda, mas antes que começassem a olhar feio, Reginaldo desceu do ônibus. Ele precisava de ar.
— Malditos andróides! – repetiu afrouxando o nó da gravata.
Eles são muito idiotas se acham que podem me enganar. Construindo um robô em forma de vovó só para tentar me iludir. Mas o caminho que eu tomei não tem mais volta, vou até o fim na luta contra os andróides.
— Bom dia, seu Reginaldo – o porteiro veio cumprimentado.
— Tudo bem, Júlio.
Júlio não era andróide e Reginaldo sabia que podia confiar nele. Aliás, ninguém nessa história realmente é andróide, que isso fique bem claro.
— Já chegou a fatura do condomínio?
— Sim, senhor, está aqui. – o porteiro entregou o carnê.
Como vocês podem ver, o Reginaldo está com essa mania de achar que todos a sua volta são robôs. Reginaldo nem sabe direito, mas eu tenho um palpite de que ele está assim por causa da sua companheira.
— Subiu de novo? – perguntou ao ver os valores da fatura.
— Parece que é o conserto das luzes, seu Reginaldo, aí não está tudo explicado?
— “Conserto da iluminação”... malditos andróides! – disse dentro do elevador.
O Reginaldo acha que está sendo traído pela mulher. Até aí tudo bem, uma neurose normal nos maridos, estranho mesmo é por quem ele está sendo traído. Reginaldo acha que é um andróide o responsável pela ruína de seu relacionamento, algo nada normal. Pois bem, como vocês podem ver a normalidade não é a tônica dessa história.
— Não dá pra acreditar, Lu... – Reginaldo exclamou ao chegar em casa. — Dá pra acreditar que o condomínio subiu de novo esse mês?
Reginaldo estava tentando puxar assunto, algo mais trivial para quebrar o gelo do casal. Muito embora fosse o terceiro mês seguido que o valor do condomínio subia, uma coisa nada normal...
— Acho que eu vou ter que começar a freqüentar essas reuniões de condomínio, Lu. Do jeito que esse troço está subindo, onde é que nós vamos parar?
Novamente um pergunta sem resposta, talvez as brigas recentes tenham dificultado as coisas.
— Bem que você poderia ir lá nos representar, não é?
O silêncio voltava a imperar, mas isso não preocupava Reginaldo, a Lu nunca foi muito de falar. O que irritou Reginaldo foi ver que a ela sequer olhava para ele. Estava daquele jeito como há dias atrás, olhar perdido virado para o lado.
— Escuta aqui, quando eu estou falando pelo menos finja prestar atenção! – perdeu a paciência e gritou segurando seu braço.
Mas a Lu nem se mexeu, fez que nada tinha acontecido e nem piscou.
— Aposto que é nele que você está pensando, né? No maldito andróide!
Depois de uma ou outra acusação, Reginaldo entrou no quarto batendo a porta. Quando encostou a cabeça no travesseiro, teve que fazer força para lembrar da época em que a Lu fazia tudo para ele. Ela tinha sido sua primeira namorada, “Lu Patinadora”, o seu nome. Tinha sido dada de presente para sua irmã, mas logo foi parar no seu quarto. Foi amor à primeira vista. Mas agora ela nem olhava mais para ele, patinar, então, menos ainda. Reginaldo acha que ela tem um amante andróide, mas na verdade ele apenas colocou as pilhas de Lu ao contrário, vem daí sua omissão. Por essas e outras é que eu sou meio cético com esses relacionamentos modernos. Pelo menos os que precisam de pilhas...
12 de abril de 2007

