Já vou logo avisando pra que as coisas fiquem claras desde o início: nunca acreditei realmente nessa história. Nunca levei isso muito a sério e gostaria que isso ficasse registrado.
Tudo começou em um desses e-mails absurdos que algumas pessoas inconvenientes insistem em me enviar. É claro que eu jamais cometeria a deselegância de denunciar a pessoa que se diverte com mensagens pouco adequadas e até certo ponto obscenas. Por outro lado, me sinto na obrigação de alertar às autoridades da necessidade de um tratamento psicológico para Luiz Cláudio da Luz.
O tal e-mail lançava uma dessas teorias absurdas que povoam a internet. Obviamente, eu não seria otário de acreditar em mais uma dessas “teorias da conspiração”, mesmo assim resolvi ler o conteúdo. A teoria em questão falava das canetas Bic, aliás, do perigo existente por trás de uma simples caneta Bic.
Canetas Bic, vocês sabem, aquelas esferográficas que todo estudante usa ou pelo menos alguma vez já usou. Segundo o e-mail, escrever seria apenas uma das funções da caneta Bic. Elas seriam, na verdade, microfones e câmeras usados para monitorar as pessoas. E esse monitoramento seria feito por ninguém menos que extra-terrestre!
Sim, extra-terrestres! Extraterrestres vindos de outros planetas!
Os extra-terrestres teriam feito câmeras e microfones camuflados de canetas para bisbilhotar o que nós humanos estariam fazendo. O que realmente faz sentido, pois tudo que é feito é previamente planejado e depois escrito. E escrito por uma maldita caneta Bic. Não vou dizer que acreditei, mas naquela noite me certifiquei de ter fechado bem o estojo antes de dormir.
As canetas Bic serem na verdade câmeras alienígenas, onde já se tamanho absurdo? Tudo bem que no e-mail eles contavam algumas coisas estranhas, como, por exemplo, o fato de ninguém saber de onde as canetas Bic vêm oou onde são feitas. Além disso, o fato delas nunca terem mudado de formato, serem assim desde quando vieram pela primeira vez, isso em... peraí? Quando é que elas surgiram mesmo?
Estranho, estranho... na minha mente alguns pensamentos absurdos começaram a surgir. Vai que, numa dessas, o alerta tem razão e todos nós estivermos sendo observados nesse exato instante? As canetas Bic estão em toda parte, não tem como fugir. Os Ets nos veriam fazendo tudo, comendo, dormindo, se trocando... eles nos veriam até quando estivéssemos lendo aquele e-mail e descobrindo a verdade. A verdade que eu estou descobrindo agora!
Como que por um truque de mágica, nesse exato momento meus pensamentos são interrompidos por um som na escrivaninha, algo que caiu. Quando vou ver, quase caio pra trás. É uma caneta, uma caneta Bic!
Num misto de pavor e fúria, destruo a caneta aos berros com uma pisada vigorosa. Está claro que os Ets sabem que eu descobri a verdade e farão de tudo para me impedir. Se eu quiser fugir não posso mais ser visto por eles, isto é, tenho que destruir todas câmeras alienígenas por perto. Rapidamente vasculho a mesa onde elas possam estar escondidas. As que encontro, destruo no ato. Mas não tem jeito, meu apartamento já está cercado por elas, o melhor a fazer é sair de casa.
Mesmo todo desarrumado, saio em disparada carreira pela rua. Por distração, acabo trombando com um grupo de estudantes. Um deles não consegue evitar a queda do material escolar, deixando cair um punhado de canetas Bic pelo chão. Dou um sonoro grito ao ver todas aquelas câmeras alienígenas no chão me olhando. Antes que tenha tempo de fugir, sou dominado e levado por um série de enfermeiros.
Quando recobro a consciência, noto que estou num leito de hospital. Tento me mover e é quando percebo estar amarrado. Estico o pescoço e vejo minha ficha de internamento. Em letras garrafais aparece escrito “dobrar a medicação”. Olho ao redor e não vejo nenhuma câmera alienígena, por outro lado, a ficha de internamento parece ter sido preenchida a caneta!
12 de abril de 2007

