A fechadura dá um baita estalo quando fecho a porta decretando o fim do expediente na repartição. Detesto quando essa tarefa recai sobre mim, aperto o botão de elevador com raiva.
Afrouxo a camisa que parece mais sufocante do que de costume. Isso sem falar na sensação de boca seca, acompanhado das pálpebras pesadas. Cadê essa droga de elevador? Abro os primeiros botões da camisa, mas o calor persiste. Droga, sei o que isso significa, mas não acredito que vai acontecer logo agora. Começo a socar o botão do elevador, preciso voltar logo. Quem será que está segurando a porcaria do elevador? Quando me viro, noto que ele já tinha chegado e os passageiros parecem perplexos diante do meu comportamento pouco equilibrado. Mesmo assim entro tentando aparentar normalidade. Eu tenho que voltar logo para casa.
As passadas velozes fazem o centro da cidade passar rápido. Em meio àquela algazarra, tento manter a cabeça limpa lutando para me controlar. Preciso chegar logo em casa antes que tudo comece. Não suportaria que isso acontecesse em plena rua. Quando já conseguia ver o prédio onde moro, um carro tocando música brega é o estopim. Ainda tenho tempo de ver minha imagem refletida no carro antes que a coisa toda começasse. Mas agora já era tarde...
A partir de então, eu não sou mais eu: me chamo Alejandro Miguel.
O olhar meio atônito se completa quando levanto a gola da camisa, porque é assim que eu sou. Me tornei Alejandro Miguel, amante latino, alma mexicana e coração apaixonado!
Rapidamente desvio do caminho e vou até uma floricultura. Ainda é muito cedo para voltar para casa, vestir a pantufa e tomar o leitinho antes de dormir. A cidade ainda está repleta de donzelas sedentas de amor e romantismo. Mais um trabalho para Alejandro Miguel.
— Samantha Cristina, até que enfim apareceste! – surpreendo uma transeunte.
— Samant... o quê? Desculpe, o senhor deve estar me confundindo...
— Confundido, eu? – insisto. — Claro que não, Samantha Cristina, como não poderia reconhecer-te se noite após noite é sua imagem que me aparece?
— Você só pode estar enganado, eu me chamo Roberta.
— Roberta? Sim, claro, Roberta Cristina! Às vezes eu me confundo com os nomes, Roberta Cristina, nada que 3 noites de amor não possam corrigir...
— Espere aí, moço, não sei com que você está me confundindo, mas com certeza eu não sou dessas!
— Calma, por favor, se acalme. Aceite meu sincero pedido de desculpas juntamente com este pequeno buquê de flores silvestres. Estava passando pela floricultura do Rafael Alfredo e lembrei-me de ti. Imediatamente comprei essa singela lembrança, já que ela me trouxe a sua lembrança. Por favor aceite, Roberta Cristina.
— Oh... – ela não conteve a alegria. — Elas são lindas, mas não posso aceitar.
— Mas por que não, Roberta Cristina, a mais linda das flores?
— Eu não sou esta Roberta Cristina que você está falando. Além disso, não posso chegar em casa carregando isso...
— Roberta Cristina, se o problema são as flores eu dou um fim nelas.
— Se meu marido me visse chegando com isso, não sei o que seria...
— Se o problema for o marido, eu dou um fim nele.
— O que disse?
— Se quiser, eu faço uma ligaçãozinha para os meus amigos Pablo Gutierrez e Afonso Ricardo que podem dar um jeito nesse cara...
— Não, por favor, não faça nada contra o meu marido!
— Pablito e Afonsino podem arranjar um terno de madeira para ele, muy guai...
— Pelo amor de Deus, eu te peço: não deixe que nada aconteça com meu marido! Eu adoraria ter te conhecido antes, mas agora eu estou casada e amo muito o Henrique. Por favor, não faça nada contra ele! – suplicou.
— Se essa é sua decisão, Roberta Cristina, eu irei respeitar.
— Sério mesmo? Por favor, você me promete?
— Mas é claro, Roberta Cristina. Se é assim que você quer, assim será.
— Puxa vida, muito obrigada – agradeceu segurando minhas mãos.
Depois disso nos separamos. Ela ainda estava emocionada demais para que nos despedíssemos de uma forma mais romântica, mesmo assim ocorreu tudo bem. Roberta Cristina voltou para casa mais tranqüila naquele dia, mas tranqüila mesmo ela ficará depois.
— Alô, Pablito? Soy yo, Alejandro Miguel. Yo necesito que usted mi realize uno pequeño favor...
12 de abril de 2007

