A campainha toca no meio da tarde de sábado me tirando de sobressalto do sofá. Calçando os chinelos para atender, ouço o barulho da campainha mais duas vezes, pela insistência já desconfio de quem seja. Abro a porta para dar de cara com ele mesmo: Clédisson Craveira.
— E aí, Clédisson... Clédisson? – me assusto ao identificar o moço – é você, Clédisson?
— Sou eu mesmo. Nada de piadinhas, Salamandra! – ele pede ao notar meu estado catatônico. Era a primeira vez que o via daquele jeito, todo engravatado com um terno preto impecável – anda logo, vista uma camisa porque não quero ir sozinho.
— Ir sozinho? Tenho que ir assim, todo arrumado? Acho que nem estou com o meu terno...
— Eu sabia que você não teria. Por sorte estou com outro terno no carro que deve servir em você. Ponha uma camisa que o resto a gente dá um jeito – disse me arrastando pra fora.
Cheguei a perguntar (inutilmente) aonde iríamos antes que cruzássemos a rua em direção ao fusca velho do Clédisson, estacionado na contramão.
— O resto das roupas estão aí atrás, dentro desse saco – falou indicando uma sacola de supermercado – se vista logo porque não fica muito longe daqui.
Abrindo a sacola, lá estava um terno preto, meio batido, é verdade, mas ainda assim preto. Comecei a me vestir em meio às curvas do carro quer arrancava fumaça do asfalto. Terminei de me arrumar no mesmo instante que o freio de mão indicava o fim da viagem. Quando desci, finalmente pude ajeitar o terno que me caía bem como uma lona de circo. Perto do bolso, duas palavras bordadas denunciavam a origem, o Clédisson foi logo abrindo o jogo.
— É da época que trabalhava no Bife Sujo. Mas ficou bem em você!
— Clédisson, o que estamos fazendo aqui?
— Nossa! – ele diz olhando as horas – estamos muito atrasados, vamos!
Ele atravessou a rua correndo e eu, ainda sem entender, tratei de segui-lo. Olhando ao redor daquelas ruas, notei que reconhecia aquela região. A pista de skate, a Sorveteria do Gaúcho. Quando volto a olhar, percebo que estava seguindo o Clédisson em direção ao Cemitério Municipal.
— Clédisson, o que a gente veio fazer aqui?
— Uma moça. Uma moça que eu estava saindo – disse antes de cruzar o portão metálico de entrada.
— O quê? Uma moça!
— xiiiiiu – ele me silenciou quando alcançamos os passos lentos do cortejo fúnebre.
Sem perceber, estávamos acompanhando a procissão em meio à pequena multidão de luto. Pude reparar então que a elegância do Clédisson tinha, enfim, uma explicação. Lembrei de suas palavras sobre uma moça, uma moça com quem estava saindo. Tive vontade de perguntar mas, antes que pudesse, vejo que o cortejo desembarca sobre uma sepultura aberta, onde letras de metal ainda reluzentes escreviam “Matilda Pinheiro Olivares”. Era ela a amiga de Clédisson!
Aguardamos em silêncio no canto até que enterro chegasse ao fim. Enquanto os presentes aos poucos iam embora, eu me enchia de coragem para tocar no assunto com ele. Quando o último presente foi embora, Clédisson saiu de onde estávamos e seguiu para perto das flores. Aproveitei a brecha para dirigir-lhe a palavra:
— Clédisson, por que não me disse sobre essa moça? Por que não me falou que essa moça tinha morrido?
— Que moça que morreu?
— Essa moça que você falou que estava saindo quanto estávamos vindo pra cá. Essa moça, a Matilda!
— Matilda? Não, o nome dela é Débora. E não está morta, não, está vivinha da silva! Vamos jantar hoje à noite. É por isso que estou todo arrumado!
— Mas se esse enterro não foi de sua amiga, que diabos estamos fazendo aqui nesse cemitério, Clédisson! Clédisson? – ele tinha sumido. Quando retorna vejo que carrega um grande buquê, feito com uma miscelânea de flores que catou no cemitério.
Pouco mais tarde, Clédisson me trouxe para casa feliz da vida. Dizia que a Débora gostava de flores. Antes de ir, aconselhei-o a não contar sobre a procedência do buquê, dissesse apenas que fizera o buquê sozinho. Além disso, sugeri que da próxima vez que quisesse flores, poderíamos ir a uma floricultura. Eu mesmo pagava.
12 de abril de 2007

