Sei que pode parecer besteira, uma preocupação boba, mas tenho que confessar que em determinadas ocasiões passo um bom tempo pensando nesse tipo de coisa. Também sei que esse assunto beira a mediocridade, porém, acredito que insistindo com esse questionamento talvez consiga um dia obter uma resposta, uma explicação que possa calar essa pergunta recorrente dos momentos solitários. A dúvida é a seguinte: por que será que inventaram o papel higiênico sabor pêssego?
Besteira, não é? Eu sei, mesmo assim garanto que vocês já refletiram sobre esse tema, nem que tenha sido numa rápida passada no supermercado ou não tão rápida visita ao toalete. O papel higiênico sabor pêssego deve estar entre as invenções mais inusitadas dos últimos tempos. Curiosa ou não, é indiscutível o sucesso dessa variedade alaranjada do tradicional objeto branco.
Por outro lado, a reação imediata que tive à novidade foi pensar por que foi que escolheram o pêssego? Hoje acredito que existam outros sabores, mas por que pensaram em fazer primeiro o pêssego? Diante dessa constatação, o lado patriótico falou mais alto. Pensava que num país com uma riqueza tão exuberante de frutas e sabores, a escolha do pêssego tinha sido equivocada, provavelmente influência dos papéis higiênicos yankees. Aquele tipo de coisa não podia acontecer, estava na hora de criarmos nossos próprios sabores de papéis higiênicos. Fora ALCA, fora FMI!
Sobre o sabor pêssego, é importante lembrar que as qualidades desse novo produto não vão muito além da coloração alternativa. Embora a embalagem insinue a existência de um sabor correspondente à fruta em questão, essa característica não se revela na prática. O papel higiênico sabor pêssego não possui qualquer gosto da fruta. Pelo menos eu nunca senti.
Importante ressaltar também que ingestão dessa variedade alaranjada não resulta na aquisição nutricional da fruta. Isto é, a pessoa que, por ventura, adicionar papel higiênico sabor pêssego à dieta acreditando fazer uso de uma fonte rica em vitamina A, B1, B2, C, proteínas, gorduras e cálcio não irá alcançar o resultado esperado. O pêssego é um grande estimulante digestivo, laxativo e diurético, é verdade, porém, quando ingerido em seu estado natural, não sob a forma de papel.
Sem querer desfazer o mito do papel alaranjado, não quero que pensem que sou contrário a sua utilização. Sou um confesso apreciador da fruta, quando estamos na época do pêssego prestigio comprando quilos e mais quilos. Nesta época do ano, porém, não encontramos o pêssego com fartura, o papel higiênico, por outro lado, ainda abunda (sem trocadilho) pelos supermercados da vida, o que me leva a outro questionamento: Não estamos na época da colheita de pêssego, mas vemos muito papel sabor pêssego. Como eles podem ter feito papel higiênico sabor pêssego sem pêssego?
Apesar dessa pergunta ser igualmente boba e infantil, temo que estejam utilizando frutos velhos, de baixa qualidade ou até estragados como matéria-prima para a confecção do papel higiênico. Além dos problemas recorrentes à ingestão de frutos apodrecidos, seria algo muito revoltante se descobríssemos que estamos utilizando com um produto estragado e passado, como um pêssego mofado.
A solução para isso tudo? Detesto ficar batendo na mesma tecla, mas vou ser obrigado a repetir o que disse anteriormente, o ideal seria a substituição por elementos da flora brasileira, que são encontrados durante o ano todo.
Existem tantas frutas diferentes em nosso território, daria para fazer uma linha completa de produtos, um sabor para cada dia. Não falo das frutas tradicionais, como maçã, pêra ou laranja, me refiro aos frutos 100% brasileiros. Cajá na terça-feira, umbu na quarta, quinta-feira açaí, tamarindo na sexta. Final de semana estava liberado, pode até pêssego. Devaneio bobo, eu sei. Mas quem sabe um dia não estaremos usando papel higiênico da marca Cupuaçu? Daí, não digam que eu não avisei.
12 de abril de 2007

